11/09/2010

Como educar uma menina que tem asas?

Entre as muitas atrações do Festival Internacional de Cinema Infantil, em cartaz em São Paulo e Campinas até o próximo dia 19, tive a oportunidade de ver apenas um filme, que recomendo com entusiasmo.
 
Trata-se de “Iep!”, uma produção holandesa, dirigida por Ellen Smit. O filme conta a história de um casal sem filhos, cuja vida no meio do mato transcorre sem maiores emoções ou divertimentos. Até o dia em que o homem da casa, que mantém o hobby de observar pássaros, encontra um bebê dentro de um ovo.
 
O espanto do casal com as formas da criatura é, num primeiro momento, enorme. “Uma espécie rara: uma menina na forma de um pássaro”, diz Warre. “Um pássaro na forma de uma menina”, contrapõe Tine.
 
Logo, porém, Warre e Tine incorporam a menina-pássaro à rotina com naturalidade. Tentam educá-la como se fosse uma criança normal, mas esbarram nas suas particularidades. Iep, como é batizada, não consegue falar “a” nem “o” e prefere minhocas a macarrão. O casal entende estas peculiaridades e as incorpora ao cotidiano.
 
O filme literalmente decola quando Iep, começando a crescer, não resiste ao apelo dos seus instintos e foge de casa, voando, em direção ao Sul. Tem início, então, uma série de aventuras divertidas – encontros e desencontros do casal com a “filha”, descobertas e acidentes –, que vão culminar num belo final.
 
Ainda que a “mensagem” possa parece óbvia demais, “Iep!” trata de temas necessários, de forma encantadora. O filme é recomendado para crianças maiores de 10 anos.

Por Mauricio Stycer às 08h32
10/09/2010

Em “Passione”, viciado em drogas não sente prazer, apenas sofre

Na bem urdida trama da novela “Passione”, que combina drama, mistério e humor em boas doses, o calcanhar de Aquiles é a trajetória do personagem Danilo, vivido por Cauã Reymond.

Milionário, filho e neto de donos de uma metalúrgica que fabrica bicicletas, Danilo começou a novela de Silvio de Abreu como um ciclista bem-sucedido. Em pouco tempo, apelou para o uso de anabolizantes, com o objetivo de melhorar a sua performance.

A certa altura, depois de uma desilusão amorosa, o personagem começou a comprar drogas em becos sujos da cidade. Ficou transtornado. Transformou-se num zumbi. Agressivo, acabou internado pela mãe numa clínica para dependentes. Fugiu de lá e, sem ajuda de ninguém, deu a impressão de ter se recuperado do vício.

Há duas semanas, recebi um e-mail com o título “Pai revoltado”. Não sei se o autor gostaria de ter o seu nome revelado, mas posso dizer que é um experiente professor, com doutorado em Química pela USP. Seleciono alguns trechos da mensagem:

Como em toda novela da Globo, existe sempre um ou mais temas escolhidos para “serviço social”. Nessa novela escolheram o tema “drogas” com o ciclista Danilo. Tudo bem quanto a isso, mas não quanto a forma. Eu lhe pergunto: que droga ele está usando? Difícil de dizer, não está claro qual é a droga. Que droga é essa que o usuário toma e fica caindo pelas ruas desmaiado. Por que o autor da novela não identifica logo a droga e mostra os efeitos reais da mesma? Os efeito pós uso não se encaixam como sendo crack, cocaína ou ecstasy. Opiácios (morfina e heroína) podem até causar tal efeito, mas não são drogas tão disseminadas no Brasil e nem de perto é o problema social que o crack causa.

Minha opinião em relação ao ensinamento sobre drogas é que não podemos esconder as verdades sobre drogas dos jovens. É errado dizer que sob efeito da droga você se sente mal e fica caindo pelas ruas. Se fosse assim ninguém usava. Temos que mostrar as verdades. Temos que dizer que sob efeito da droga as pessoas se sentem bem, se sentem poderosas e por isso querem usar novamente. O mal vem após o efeito, na crise de abstinência, nos efeitos orgânicos na pessoa, nas relações sociais, etc. Uma criança não consegue entender por que o pai fuma sabendo que faz mal. A única explicação é porque fumar é bom, a sensação é gostosa, mas faz mal. A opção por não usar droga deve ser feita pelo mal que ela faz e não pela sensação que ela causa.

Imagine um adolescente desinformado que assiste essa novela. Ele olha o estado deplorável que o ator fica após usar a droga e, claro, fica horrorizado. Aqui vem o problema, se um dia o adolescente experimentar ecstasy e perceber que não ficará caindo pelos cantos como o tal Danilo da Passione, poderá achar que essa droga não é tão ruim assim, daí pode acontecer o efeito inverso do esperado. É uma pena a Rede Globo tão interessada no seu “serviço social” perder oportunidade tão grande abordando o tema de forma errada.

Enviei um e-mail a Silvio de Abreu com os questionamentos do leitor. Ele não me respondeu. Nesse meio tempo, soube que, de fato, a construção do personagem Danilo apresenta um problema grave para a equipe que faz “Passione”. A lei brasileira proíbe apologia a drogas – e mostrar Danilo sentindo prazer poderia ser entendido como uma forma de fazer “propaganda”.

Em breve, porém, Silvio de Abreu vai mostrar que Danilo está viciado em crack. Li isso numa destas revistas populares que antecipam informações sobre as novelas. O personagem, então, terá breves momentos de prazer antes de mergulhar no processo destrutivo que o crack provoca.

Segundo a “SuperNovelas”, depois de uma briga com o pai, que o expulsará de casa, Danilo vai a uma “boca”, compra uma pedra de crack e consome a droga. Diz a revista que “a primeira reação é de felicidade”. A conferir.

Por Mauricio Stycer às 11h30
09/09/2010

Documentário revela a essência do “corintianismo”

Apoiado por um competente projeto de marketing, o centenário do Corinthians gerou uma série de produtos, entre filmes, livros, homenagens e suvenires variados. À margem da programação “oficial”, o documentário “Só Quem É Sabe o que É” se sobressai nesta paisagem alvinegra.

O filme registra a saga dos torcedores durante a campanha da equipe na Série B, em 2008. Dirigido pelo designer Artur Voltolini e os jornalistas Ronaldo Bressane e Phydia de Athayde, não exibe uma única imagem de jogadores em campo. São cerca de 50 depoimentos, entre corintianos famosos e anônimos, sobre o sentido de torcer pelo time.

“Eu só converso com corintiano. Se não for, não é meu amigo”, conta um jovem. “Sofredor é aquele que ama”, explica um PM. “É bem gratificante sofrer pelo Corinthians”, comenta um torcedor grisalho. “Em defesa do Corinthians vou até à morte”, diz um integrante de torcida organizada. “Nós voltemo”, comemora uma senhora, na arquibancada do Pacaembu.

O ex-jogador Neto dá um depoimento forte: “Nem o Bill Gates tem o que eu tenho da torcida do Corinthians. O cara fica de joelhos, beijando o seu pé. O cara te abraça e começa a chorar”. O palmeirense Ugo Giorgetti tem o privilégio de ser ouvido num filme em que 99% dos personagens são alvinegros e diz, sobre a temporada da equipe na Série B: “O Corinthians está fazendo falta para mim”.

Na definição dos realizadores, “Só Quem É Sabe o que É” não passa de “um filme sujo, sem roteiro pré-definido nem marketing, editado à base de nervos, risos, histórias, hip hop e muito grito”. Mais que isso, é um filme que, nos seus 45 minutos, expressa com rara felicidade a essência do corintianismo.

Por ora, o filme está disponível na internet, em quatro partes: 1. aqui; 2. aqui; 3. aqui; 4. e aqui

Por Mauricio Stycer às 12h37
08/09/2010

Chamar o blogueiro de “embecil” pode; ofender o outro, não

Pela segunda vez em oito meses, fechei a área de comentários do blog. Isso significa que, em vez de entrarem automaticamente, os comentários são antes avaliados por mim. A primeira vez que fiz isso foi em abril, depois que um texto sobre o filme “Chico Xavier” provocou uma verdadeira guerra religiosa entre espíritas e protestantes na área de comentários do blog, Desta vez, a causa foi um comentário sobre o filme “Nosso Lar”, baseado numa obra de Chico Xavier.

Mais uma vez, muitos leitores tomaram o que escrevi sobre o filme como uma crítica ao espiritismo. Creio que leram o texto com muita pressa, de má vontade ou sequer o leram. Depois de ver nos comentários muitas ofensas a mim, além de pedidos ao UOL para que eu fosse demitido, desafiei os leitores a apontarem uma única crítica ao espiritismo no texto. Alguns replicaram apontando uma observação que fiz sobre a cenografia do filme (“uma cidade que parece construída por Oscar Niemeyer em uma viagem de LSD”) como prova do meu preconceito.

Como já escrevi em outras oportunidades, aprecio as críticas dos leitores e não me incomodo com as reclamações, nem mesmo com as ofensas. Pode me chamar de “embecil”, como fez um leitor esta semana, que você verá seu comentário publicado. Excluo apenas palavrões muito pesados – não porque me afetem, mas para não incomodar outros leitores. E, sobretudo, não autorizo comentários que possam ofender, caluniar, difamar ou injuriar outras pessoas.

O texto sobre “Nosso Lar” teve, até o momento em que escrevo este post, 1.097 comentários aprovados e 210 reprovados. Além das repetições e dos que não diziam respeito ao assunto em pauta, vetei especialmente os comentários que expressavam ofensas religiosas. Se deixei passar algum peço desculpas.

Por Mauricio Stycer às 15h35
07/09/2010

Pílula de sabedoria adolescente


“Não se preocupem, mamãe e papai. Prometo só cometer erros que vocês nunca cometeram”

Cartoon de Carolita Johnson, publicado na edição de 6 de setembro da “New Yorker”

Por Mauricio Stycer às 14h04
06/09/2010

Onde foram gastos os R$ 20 milhões de “Nosso Lar”?

Anunciada como uma das produções mais caras da história do cinema brasileiro, talvez a mais cara, “Nosso Lar” transpõe para as telas o maior best-seller do médium Chico Xavier, no qual ele relata uma história que lhe teria sido ditada pelo espírito de André Luiz, um médico que viveu no Rio de Janeiro de Janeiro no início do século 20.

É uma obra de iniciação ao espiritismo. Descreve alguns episódios da vida de André Luiz – sua morte, a sofrida temporada no umbral, “uma espécie de purgatório”, onde é acusado de ter cometido suicídio, e a chegada do socorro espiritual, que o transporta, numa maca, para uma dimensão superior, a colônia Nosso Lar.

O câncer no intestino que causou a morte do médico, na verdade, foi a forma visível do suicídio que ele cometeu, explica o ministro da Regeneração. Todos os sentimentos negativos que ele alimentou em vida o mataram – eis a primeira lição.

Há outros 71 ministros no Nosso Lar, uma cidade que parece construída por Oscar Niemeyer em uma viagem de LSD. Vamos conhecer alguns, cada um com lições a ensinar a André Luiz sobre vida, morte e reencarnação. Por exemplo: “O bem que fazemos é nosso advogado na eternidade”. Ou então: “A vida na Terra é que é cópia daqui”. Ou ainda: “A reencarnação é a melhor escola”.

“Nosso Lar” também se esforça em ensinar como o espiritismo é acolhedor e sem preconceitos religiosos – numa longa cena, mortos com uma estrela de Davi bordada na roupa, possivelmente vítimas de campos de concentração nazistas, são recebidos à entrada da colônia por ministros e devotos.

Diferentemente de “Chico Xavier”, de Daniel Filho, destinado basicamente a agradar os fiéis, “Nosso Lar” tem, claramente, uma preocupação de formação. É cinema falado. Ou um livro ilustrado com imagens e sons (com direito a trilha sonora de Philip Glass). Didático, o filme apresenta o espiritismo e o explica em detalhes, além de se permitir poucos momentos de emoção ou pieguice.

O mais curioso é justamente a informação de que o filme custou R$ 20 milhões, um valor obtido quase integralmente sem recorrer a renúncia fiscal. Passei boa parte da sessão tentando entender onde “Nosso Lar” gastou os seus recursos. Na cenografia de mau gosto? No roteiro verborrágico? Nos figurinos simplórios? No enorme elenco de poucas estrelas? Na trilha sonora (nada) original de Glass? Nos magros efeitos especiais?

No conjunto de seus esforços, “Nosso Lar” não vai desapontar os espíritas e é capaz, no mínimo, de arregimentar simpatia para a causa. É provável, ainda, diante da corrida do público aos cinemas, que não desaponte os seus investidores. Mas não poderá nunca dizer que é cinema de qualidade.

Atualizado às 13h30: Desafio os leitores que entraram no blog para pedir a minha demissão que apontem uma única crítica ao espiritismo no meu texto. Todas as minhas opiniões se referem ao filme.

Em tempo: Ficha técnica, fotos e trailer do filme podem ser vistos aqui, no UOL Cinema. E no blog de Inácio Araujo há uma outra crítica sobre o "Nosso Lar".

Por Mauricio Stycer às 09h16

Sobre o autor

Jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 23 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Começou a carreira no "Jornal do Brasil", em 1986, passou pelo "Estadão", ficou dez anos na "Folha de S. Paulo" (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o "Lance!" e a "Época", foi redator-chefe da "CartaCapital", diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor de “História do Lance! – Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo”

Contato: mauriciostycer@uol.com.br

Sobre o blog

Um espaço para reflexões e troca de informações sobre os assuntos que interessam a este blogueiro, da alta à baixa cultura, do esporte à vida nas grandes cidades, sempre que possível com humor.

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