03/09/2010

Glenda Kozlowski deixa o jornalismo para explicar que candidato pode vomitar

Diante da tarefa que coube ao candidato Marcão, de beber uma mistura de vermes, fígado e óleo, tudo batido no liquidificador, Glenda Kozlowski fez cara de nojo, mas avisou: "Se tiver ânsia de vômito, pode vomitar dentro do copo e continuar bebendo. Se vomitar fora, está eliminado". Rigorosa, ainda advertiu o candidato: "Tem que beber até o fim. Não. Ainda tem um pouquinho".
 
Eis o que foi feito de mais um jornalista de talento e sucesso na Globo: apresentar reality show sob o comando do mago Boninho. Isso implica explicar regras, zelar pelo cumprimento delas, fazer caras e bocas diante das situações, incentivar os candidatos, e anunciar resultados de provas e eliminações.
 
Alguém dirá: triste destino. Talvez não. Nesta caminhada, aparentemente sem volta, do jornalismo televisivo na direção do entretenimento, não surpreende mais ver profissionais respeitáveis de uma área abraçarem a outra com entusiasmo. Parece ser um caminho natural - da mesma forma que teremos que nos acostumar com atores atuando como jornalistas.
 
O perfil de Glenda na Wikipedia informa que ela sonhava ser atriz. Não realizou este sonho. Acabou indo para o jornalismo, onde se deu muito bem na área esportiva. Agora à frente do "Hipertensão" dá este salto importante em sua carreira - explicar a Marcão, com um jeito severo, mas cara de nojo, que ele pode vomitar dentro do copo. Perfeito.
Em tempo: mais informações sobre os candidatos de "Hipertensão" podem ser lidas aqui, no UOL Televisão
Foto: divulgação
Por Mauricio Stycer às 11h35
02/09/2010

"Programa Casé" reverencia pioneiro do rádio de forma acrítica

Bastam poucos minutos de "Programa Casé" para o espectador se dar conta que Adhemar Casé é um personagem fascinante. Empresário e radialista, inventou e desenvolveu um modelo de negócios que ajudou a impulsionar a era de ouro do rádio brasileiro. Para além desta mídia, seu trabalho teve repercussão na indústria fonográfica e na publicidade.

Produto de uma década de pesquisas de Estevão Ciavatta, o documentário foi exibido no primeiro semestre no Festival É Tudo Verdade, sem maior repercussão. Chega agora aos cinemas, em São Paulo e no Rio. Dificilmente fará uma longa carreira - e não por falta de apelo do assunto, mas sobretudo por conta de sua abordagem convencional e "oficial".

Ciavatta é casado com Regina Casé, neta de Adhemar Casé. Talvez por estar muito próximo do seu objeto, o cineasta trata-o de forma reverencial. O documentário descreve o radialista como um homem de poucas contradições, que quase não enfrenta percalços em sua trajetória. O mundo do rádio, igualmente, é descrito de forma superficial, de uma maneira que não permite ao espectador compreender a sua complexidade e suas contradições.

A mídia ainda é um assunto tabu no cinema brasileiro. Não há filmes memoráveis sobre nenhum grande personagem da comunicação do país, nem sobre o papel da mídia em inúmeros episódios importantes da história. "Programa Casé", ao menos, aventura-se pelo terreno, mas fica longe de provocar a reflexão que o assunto merece. Descontando-se todos os exageros de seu cinema, Michael Moore é um nome que poderia inspirar cineastas brasileiros a se aventurarem por este terreno.

Em tempo: Mais informações sobre o filme, incluindo ficha técnica e sinopse, podem ser encontradas aqui, no UOL Cinema.

Por Mauricio Stycer às 16h16
01/09/2010

Lula abraça o marketing corintiano, mas não tem nada de "louco"

Nunca na história deste país, pode-se dizer sem medo de errar, um presidente vestiu a faixa de "presidente da República Popular do Corinthians". Lula não apenas encheu o peito de orgulho ao aceitar a homenagem, como "tomou posse" com um discurso em que reiterou o seu "corintianismo" - está fé multipartidária, agora transformada, pelo marketing, numa espécie de "encrave" do país, com seus "30 milhões de loucos".

Na sua paixão pelo futebol, nas suas lembranças das glórias e tragédias do Corinthians, na fé e na superstição, Lula é genuinamente um destes "loucos". Mas é também um político que não tem nada de louco.

Habilidoso, teve papel decisivo no acordo que levou ao anúnico da construção de um estádio para o Corinthians, um antigo sonho da "república". Mas evitou falar do assunto diante do presidente do São Paulo, presente na cerimônia que o homenageou. Afinal, até pouco tempo Lula defendia o Morumbi como estádio para abrir a Copa de 2014, uma opção definitivamente enterrada pelo anúncio da "Arena Odebrecht" em Itaquera.

Diante dos principais cartolas nacionais, que o nomearam "chanceler honorário do futebol brasileiro", Lula preferiu falar de temas mais amenos. Arrancou risos ao contar que sua mulher, Marisa, também corintiana roxa, o considera pé-frio.

E não causou nenhum constrangimento ao dizer que os cartolas brasileiros tinham fama de bandidos quando assumiu a presidência. Nenhum deles, igualmente, moveu um músculo da face quando Lula disse que, se quisessem, poderia acabar com a chaga dos cambistas no futebol brasileiro.

Lula, enfim, abraçou o marketing corintiano, mas de "louco" não tem nada.

Foto: Paulo Whitaker/Reuters

Por Mauricio Stycer às 11h22
31/08/2010

Uma lição do poeta Chacal: não dê entrevistas de ressaca

O poeta Chacal está lançando “Uma História à Margem”, no qual relata em primeira pessoa quatro décadas de criação e militância cultural. Na entrevista que fiz para o UOL, intitulada Chacal publica suas memórias e defende a utopia de viver de poesia, o poeta fala da tensão permanente entre a sua necessidade de criar e as exigências do mercado. “Dane-se o mundo. Só crio com o que eu creio”, diz.

Comecei a ler a obra de Chacal no início da década de 80, quando também me aventurei, sem muito sucesso, pela poesia. Como jornalista da área cultural, entrevistei o poeta diversas vezes, em função do seu envolvimento com os mais variados projetos nas mais diversas áreas.

Uma das entrevistas é mencionada em “Uma História à Margem”. Deu-se em 1986. Eu trabalhava, então, no Caderno B do “Jornal do Brasil”. Dez anos antes, havia sido publicado "26 Poetas Hoje", um livro que acabou se tornando uma referência a respeito da chamada “poesia marginal”, movimento que Chacal liderou.

Até então, Chacal havia publicado seus poemas apenas em livrinhos artesanais, que vendia em eventos ou deixava em livrarias amigas. Organizado por Heloisa Buarque de Hollanda e com a chancela de uma editora do mercado, “26 Poetas Hoje” deu outro status aos poemas de Chacal e de seus parceiros, Charles e Bernardo Vilhena. O livro também trazia poetas de outros grupos e tendências, como Ana Cristina Cesar, Cacaso, Francisco Alvim, Roberto Piva e Waly Salomão. 

Sugeri ao editor do Caderno B, o jornalista Zuenir Ventura, fazer uma reportagem especial sobre os dez anos da publicação de “26 Poetas Hoje”. Ouvi alguns poetas que participaram da antologia e a sua organizadora. Chacal, na ocasião, criticou duramente Heloisa pela escolha dos poetas e pela definição do que seria a chamada poesia marginal.

Lendo “Uma História à Margem” descobri que aquela entrevista de Chacal, em 1986, provocou o rompimento de sua amizade com a organizadora de “26 Poetas Hoje”. Nas suas memórias, ele conta: “A entrevista foi feita por telefone, e eu estava numa ressaca brutal. Contestei a escolha dos poetas da antologia e, mais que isso, os fundamentos da poesia marginal. A crítica, mantenho. A forma como a fiz, lamento”. Na década de 90, felizmente, Chacal fez as pazes com Heloisa.

Em tempo: Curiosamente, lembro deste episódio justamente nesta terça-feira, 31 de agosto, dia em que o “Jornal do Brasil” circula pela última vez. Foi onde comecei a trabalhar como jornalista, conheci grandes profissionais, aprendi muita coisa e fui muito feliz. Como tantos que passaram por lá, só posso lamentar este desfecho.

Foto: Folhapress/1983

Por Mauricio Stycer às 13h11
29/08/2010

Para a torcida do Corinthians, Ronaldo interessa mais que um clássico

Eis um Fenômeno que merece estudo. A volta de Ronaldo ao Corinthians, depois de 112 dias afastado, levou 36.142 pessoas ao Pacaembu. O adversário era o Vitória. Uma semana antes, no mesmo estádio, contra o São Paulo, o público total presente alcançou 30.632 pessoas.

Ambos os domingos foram de sol forte, com a diferença que a partida da semana passada começou às 18h30 e esta, às 16h. O Corinthians ocupava a vice-liderança do campeonato, posição em que permanece.

Alguém poderá argumentar que parte do público teme ir ao estádio em dia clássico – as chances de ocorrerem cenas de violência são, de fato, maiores. Mas na condição de visitante, o São Paulo só teve direito a um diminuto naco do Pacaembu, com capacidade para 2 mil pessoas – espaço idêntico ao dedicado à torcida do Vitória.

Como nos melhores momentos de Ronaldo pelo Corinthians, em 2009, o anúncio de seu nome pelo alto-falante do estádio foi comemorado como um gol. O atacante foi o último jogador da equipe a entrar em campo. Segurava um bebê no colo e era cercado por três dezenas de crianças.

Ainda fora de forma, deveria ter jogado apenas os primeiros 45 minutos, mas ficou até os 16 do segundo tempo. Apesar da atuação pífia, foi aplaudido e festejado em todos os momentos. No primeiro tempo, acertou nove passes, para o lado ou para trás, e errou quatro. Não conseguiu um drible, atuou como “barreira” num chute do ataque corintiano e o único chute que deu foi barrado por um zagueiro.

Não sofreu nenhuma falta nos 60 minutos que atuou. No segundo tempo, cometeu uma falta e recebeu uma bola em posição de impedimento. Na sua melhor participação, deixou Bruno Cesar e, em seguida, Paulinho em condições de marcar. Saiu de campo ovacionado e, ao final da partida, foi cercado pelos repórteres, que não pareciam preocupados com o resultado da partida nem com a classificação do Corinthians.

Ver Ronaldo jogar, nesta fase final de sua carreira, parece ser a chance de testemunhar um evento histórico. Talvez seja mesmo, ainda que ele não esteja jogando nada.

Em tempo: O relato da partida, vencida pelo Corinthians por 2 a 1, pode ser lido aqui.

Foto: Mastrangelo Reino/Folhapress

Por Mauricio Stycer às 19h15

Sobre o autor

Jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 23 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Começou a carreira no "Jornal do Brasil", em 1986, passou pelo "Estadão", ficou dez anos na "Folha de S. Paulo" (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o "Lance!" e a "Época", foi redator-chefe da "CartaCapital", diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor de “História do Lance! – Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo”

Contato: mauriciostycer@uol.com.br

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Um espaço para reflexões e troca de informações sobre os assuntos que interessam a este blogueiro, da alta à baixa cultura, do esporte à vida nas grandes cidades, sempre que possível com humor.

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