07/08/2010

Na contramão, Terry Eagleton defende que o futebol é o ópio do povo

“Ninguém preocupado com mudanças políticas pode ignorar o fato de que o futebol tem que ser abolido”. A frase, bombástica, aparece no final de um artigo polêmico do crítico Terry Eagleton, publicado em junho no diário inglês “The Guardian”, intitulado “Futebol:: um amigo querido do capitalismo”.

Confrontado com esta sua opinião sobre o esporte na Flip, Eagleton ficou sem graça. “Estou no Brasil, retiro o que disse”, brincou. Mas logo acrescentou: “Futebol é uma conspiração da classe dominante. Como vamos manter as pessoas felizes quando não estão trabalhando? Então inventaram o futebol. Não entendo de futebol, não gosto de futebol. Só sei isso.”

Como que se desculpando, Eagleton ainda disse: “A falta de conhecimento não deve ser desculpa para deixar de fazer ou falar algo. É o único conselho que dou.”

O crítico participou na manhã deste sábado de uma das mesas mais interessantes da Flip. Na Flip, questionou em termos duros as ideias do evolucionista Richard Dawkins sobre ateísmo e dos escritores Christopher Hitchens, Martins Amis e Salman Rushdie sobre islamismo. Meu relato do encontro está no texto Critico inglês vê impasse entre o excesso e a falta de fé no mundo, publicado no UOL

Ao defender a ideia de que o futebol é uma espécie de ópio do povo, Eagleton não mostrou, no entanto, a mesma vivacidade exibida em outros assuntos. Defendida por cientistas sociais brasileiras nos anos 70, esta visão do esporte é considerada superada por especialistas das mais diferentes correntes, mesmo á esquerda. 

Foto: Leandro Moraes/UOL

Por Mauricio Stycer às 13h14
06/08/2010

Crumb procura discos antigos brasileiros e avisa: “Pago bem”

Apaixonado por blues, Robert Crumb é também um colecionador de discos de 78 rpm, do início do século 20. Suas pesquisas musicais já resultaram num disco, “Hot Women”, que traz criações de diferentes partes do mundo, incluindo uma gravação de “Quero Sossego”, pro Aracy Cortes (1904-1985).

“É um dos poucos discos brasileiros antigos que conheço”, contou Crumb (à direita de Gilbert Shelton na foto) sobre sua descoberta da cantora carioca. “Estou procurando discos dos anos 20 e 30, mas está difícil de achar”, disse. “Pago bem”, prometeu.

Para quem está planejando assistir o encontro de Crumb e Gilbert Shelton com o público, em São Paulo, no próximo dia 10 , fica a dica: leve um LP antigo de música brasileira e ganhe a simpatia eterna (e, quem sabe, algo mais) de Crumb.

Escrevi mais sobre a entrevista dos artistas nesta sexta-feira, na Flip, no texto "Tenho vergonha de viver no planeta Terra", diz Crumb, publicado no UOL.

PS. Meu relato sobre o decepcionante encontro da dupla com o público em Paraty está no texto Desinteressados e sem assunto, Crumb e Shelton afugentam o público na Flip.

Por Mauricio Stycer às 12h51
05/08/2010

Cara a cara com uma best-seller

Não é todo dia que se tem a oportunidade de encontrar um escritor que já vendeu 56 milhões de livros em 30 idiomas. Muito maquiada, sorridente, Isabel Allende chega para a entrevista na Flip vendendo simpatia. De tão concorrido, o evento exige que a organização providencie cadeiras extras e reforce o ar-condicionado.

Profissional, Isabel escolhe quem vai fazer as perguntas entre as dezenas de jornalistas que levantam a mão. Responde rapidamente a cada questão e passa para a seguinte. A entrevista, em alguns momentos, lembra véspera de jogo de futebol. “Qual é a sua expectativa para a Flip?”. “É uma festa”, diz. “De onde vem as suas idéias?” “Não sei”. “O que tem de novo na sua escrita?” “Não sei. Pergunte a um crítico”. E por aí vai.

A coisa só esquenta quando um repórter observa que o sexo em sua obra “é muito selvagem”. Isabel observa, com humor: “Minha mãe está viva. Então é muito difícil escrever sobre sexo. Estou esperando ela morrer para escrever um romance realmente erótico”.

Isabel só perde um pouco o rebolado quando questionada sobre o preconceito que sofre por ser uma grande vendedora de livros. "Não se pode ser best-seller há 30 anos e ser ruim", responde.

Mas logo retoma o ritmo e volta a falar de temas que a agradam mais e que podem ser respondidos em poucas palavras. Conta que Pablo Neruda é seu poeta de cabeceira, fala que luxúria e gula são “os únicos pecados capitais que valem a pena”, diz que a terapia a ajudou a manter o casamento e observa que o realismo mágico saiu de moda, mas permanece vivo. “Realismo mágico é aceitar que o mundo e a vida são misteriosos”.

Eis aí uma best-seller. “Adoro escrever, mas me cansa um pouco o que tem em volta, como dar entrevistas”.

Por Mauricio Stycer às 13h13
04/08/2010

Uma nuvem de mau-humor no céu da Flip

Desde o seu primeiro ano, a Flip tem por tradição provocar muitas críticas antes de começar – para tudo terminar em festa no domingo. Sempre houve reclamações quanto aos critérios de escolha de determinados escritores em detrimento de outros, e também do privilégio dado a algumas editoras em relação a outras. Já houve ciúmes do mundinho literário carioca em relação ao paulista e vice-versa. Protestos contra a opção por alguns estrangeiros e reclamações por causa do esquecimento de outros. E muito mais.

Mas este ano há algo além no ar. Nunca se viu um mau humor tão generalizado quanto o que precede a abertura de sua oitava edição. A homenagem a Gilberto Freyre alterou o equilíbrio de forças na Flip, ao ampliar o espaço para cientistas sociais, historiadores e ensaístas de outras formações e diminuir o número de ficcionistas.

Para engrossar a reclamação, dos dez autores brasileiros que participarão da Flip, nove já estiveram na festa literária antes. A grita foi geral entre os escritores de ficção. “O Globo” chegou a publicar no sábado uma relação de bons escritores que, na avaliação do jornal, nunca vieram e poderiam estar no elenco da festa. O jornal conseguiu tirar do sério o pacato diretor de programação, Flavio Moura: “Transformar isso numa camisa-de-força é uma bobagem”, disse, entre outros desabafos, ao ser entrevistado.

Ainda no sábado, o jornalista Zuenir Ventura, também no “Globo”, dedicou uma coluna ao que chamou de “indelicadeza” da Flip. Em termos duros, lamentou que o convite ao poeta Ferreira Gullar só foi feito depois da desistência do escritor italiano Antonio Tabucchi.

Na “Folha”, a mesma reclamação sobre o pequeno número de ficiconistas e os protestos contra a repetição de nomes também teve amplo espaço na edição de sábado. O jornal deu voz a diferentes autores irados contra a Flip. Já nesta quarta-feira, o jornal apontou um outro aspecto crítico, ao observar que a edição desta ano é que mais obteve recursos públicos, seja de forma direta, do governo do Estado do Rio, seja indiretamente, por meio de renúncia fiscal.

Na capa do “Estadão” desta quarta-feira, a chamada sobre a Flip lembra que “até” a homenagem a Freyre provocou protestos. O jornal repercute a fofoca segundo a qual a Petrobras teria desistido de dar apoio à festa literária depois que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso foi convidado a proferir a palestra de abertura. O fato foi desmentido de forma categórica pela empresa.

Enfim, é provável que esse nuvem de mau humor se dissipe ainda nesta quarta-feira, depois da inauguração. Mas há algo de estranho no ar... Até domingo estarei por aqui, em Parati, tentando escapar das pedras irregulares de suas calçadas e procurando relatar o que de mais interessante estiver acontecendo.

Por Mauricio Stycer às 16h57
03/08/2010

William Bonner diz que seus comentários no Twitter não têm utilidade

No final de abril, o jornalista William Bonner avisou a seus 515 mil seguidores no Twitter que, por falta de tempo, iria parar de usar a ferramenta. Não agüentou três meses longe. “Senti falta da diversão que me proporciona”, diz o apresentador e editor-chefe do “Jornal Nacional” em entrevista ao blog.

Agora com quase 700 mil seguidores, Bonner tem utilizado o Twitter, como antes, para brincadeiras com os leitores, como chamá-los de “sobrinhos”. Também continua oferecendo a eles a oportunidade de escolher a gravata que vai vestir diante das câmeras e divide com os leitores detalhes do seu cotidiano, como o fim-de-semana passado na serra.

Mas o editor-chefe do JN também tem dado, com maior frequência, sua opinião sobre assuntos da pauta do telejornal. “Fujam do cheque especial, sobrinhos. Fujam correndo”, escreveu outro dia. Ou “Maradona nos dá mais uma alegria”, anotou, sobre a notícia da demissão do técnico da seleção da Argentina.

Para quem assiste ao “JN” e, simultaneamente, lê o Twitter de Bonner, pode parecer que o apresentador está atuando como um “âncora”, comentando para seus seguidores as notícias vistas na televisão. Bonner rejeita essa impressão. “Não acho que isso (os comentários) tivesse alguma utilidade para o público”, diz. “Também não me parece que seja revelador daquilo que penso sobre os temas de uma edição do JN – e procuro exatamente evitar que sejam”.

Abaixo, a íntegra da entrevista com o editor-chefe do “Jornal Nacional”, realizada na segunda-feira, 2, numa troca de e-mails.

 
Em abril, você se despediu formalmente de seus seguidores, dizendo que estava sem tempo para tuitar. Por que voltou?
Porque senti falta da diversão que me proporciona. 
 
Na sua primeira fase no Twitter, você seguia poucas pessoas. Agora, não segue ninguém. Por quê?
Na primeira fase, seguia umas 140 pessoas. Não é pouca gente, não. Segui-las significa abrir-lhes a possibilidade de me endereçar mensagens diretas. E um dos motivos pelos quais parei com o Twitter foi exatamente minha incapacidade de responder a todos de maneira atenciosa, como disse na ocasião. Hoje, se não sigo ninguém, não privilegio ninguém – e as cobranças de respostas não existem. Ainda assim, respondo a muita gente, seja abertamente, seja por mensagem direta. Faço isso por prazer, mas sem a obrigação autoimposta anteriormente de não deixar as DMs (mensagens direitas) sem um retorno. Simplesmente não há mais DMs a que responder. Sem obrigações, o Twitter é só diversão.
 
Você tem tuitado durante o Jornal Nacional. Como você faz isso? Nos intervalos? Durante a exibição de reportagens? Você usa o computador que aparece à sua frente no programa?
Quando o fechamento de uma edição me permite, uso a ferramenta do Twitter durante intervalos. É uma forma interessante de interagir com o público que, naquele momento, acompanha o JN. Uso o computador que tenho à minha disposição na bancada. Ele me oferece o editor de textos do JN, que uso no fechamento, além de sessões de internet e e-mail.

Observo que, quando tuita durante o JN, muitas vezes você comenta notícias que serão exibidas ou acabaram de ser vistas. Por que você não faz esses comentários no próprio programa? Como âncora do JN não caberiam esses comentários?
Não tenho o hábito de fazer “comentários” sobre reportagens na minha “timeline”. Muito esporadicamente, mas muito mesmo, você poderá encontrar uma frase genérica do tipo: “o noticiário policial de hoje está pesado”. Não acho que isso tivesse alguma utilidade para o público. Também não me parece que seja revelador daquilo que penso sobre os temas de uma edição do JN – e procuro exatamente evitar que sejam. No livro “Jornal Nacional modo de fazer”, exponho os motivos pelos quais não emitimos opinião. O Twitter, por seu alcance muito menor do que o da própria TV aberta, e o conteúdo de minhas “observações”, por seu caráter genérico e superficial, estão a anos-luz de significar alguma mudança nessa postura. Meus seguidores de Twitter não vão buscar, em minhas mensagens, alguma pista de minhas opiniões sobre os temas do noticiário. Não é isso que esperam de mim. Caso contrário, me dariam “unfollow”, frustrados.
 
Na quarta-feira da semana passada, por exemplo, você comentou a demissão de Maradona do comando da seleção da Argentina com uma frase no Twitter. "Maradona nos dá mais uma alegria". Antes, falando dos juros do cheque especial, você escreveu: "Fujam do cheque especial, sobrinhos. Fujam correndo." Estes não seriam comentários típicos de um âncora de telejornal?
Certamente não. No primeiro “tweet” que você menciona, o torcedor-twitteiro brincou com a rivalidade Brasil X Argentina. Gaiatice pura. No segundo, o espectador-twitteiro replicou o que diversos seguidores recomendavam durante a exibição da reportagem. Na escassez de tempo com que habitualmente lidamos em telejornalismo, seria uma observação redundante, depois do que a própria reportagem exibia.

As opiniões de William Bonner no Twitter não devem ser vistas como as opiniões do editor-chefe do JN?
Sou, hoje, editor-chefe do JN. E também pai de trigêmeos, marido de uma jornalista, praticante de corridas, consumidor. Em cada ambiente, em cada papel que desempenho, sou sempre eu – e o que digo e faço estão sempre em acordo com o que penso. No Twitter, só exponho aquilo que me parece adequado ao perfil de utilização que determinei para mim. E não uso o Twitter para fazer jornalismo. Só abro exceções no uso lúdico que faço da ferramenta para iniciativas que tenham algum propósito socialmente relevante, como quando estimulei e divulguei formas de ajuda às vítimas das enchentes em Alagoas e Pernambuco.

Por Mauricio Stycer às 09h06
02/08/2010

Em nome da Globo, Galvão Bueno cobra punição para a Ferrari na F-1

Uma semana depois de Felipe Massa deixar Fernando Alonso ultrapassá-lo, por ordem da Ferrari, no GP da Alemanha, a Globo voltou a cobrar punição à equipe italiana. Antes e durante o GP da Hungria, realizado neste final de semana, Galvão Bueno transmitiu o que parece ser a opinião oficial da emissora sobre o assunto:

“A nossa função é apenas trazer para vocês o que acontece. De qualquer forma, a Ferrari tem que ser punida. Essa é a posição. Nem que os pilotos tenham também que ser punidos”, disse o narrador ainda no sábado. Momentos antes, Galvão havia observado: “A Fórmula-1 vive uma crise moral, provocada por esta equipe vermelha, a Ferrari, que teve uma atitude de extrema burrice no último final de semana”.

Questionada por este blogueiro há uma semana, a Globo negou que tivesse uma posição oficial sobre o assunto: “A Globo apenas transmite as provas, relatou os fatos e prossegue com  a cobertura do campeonato”, informou a emissora.

Ausente no GP da Alemanha, que foi narrado por Luiz Roberto, Galvão aproveitou a corrida na Hungria para falar, repetidas vezes, sobre o episódio ocorrido uma semana antes. O narrador explicitou a preocupação da emissora com os efeitos da atitude de Felipe Massa sobre a audiência das corridas. “Você, torcedor brasileiro, dê uma chance a ele (Massa) para ver como ele se comporta na pista”, pediu Galvão, ainda no sábado, véspera da prova.

Referindo-se ao piloto brasileiro em outro momento, Galvão observou: “Felipe, claro, não fez o que todo brasileiro gostaria”. E logo depois filosofou: “A vida é feita, gente, de engolir sapos e chutar baldes. Ele engoliu o sapo dele e chutou os baldes depois”, disse, em referência à promessa de Massa de não mais obedecer a ordens da Ferrari para deixar Alonso ultrapassá-lo.

Durante a corrida, o narrador disse que a Fórmula 1 passa por uma fase de “perda de credibilidade” desde 2002, quando Rubens Barrichello deixou Michael Schumacher ultrapassá-lo na reta de chegada do GP da Áustria, por ordem da Ferrari. Na visão de Galvão, outros três episódios abalaram a credibilidade da categoria – dois deles envolvendo pilotos brasileiros. O narrador citou a batida de Nelsinho Piquet, em 2008, para ajudar Alonso, e a ultrapassagem do espanhol sobre Massa, na semana passada.

Por Mauricio Stycer às 10h23

Sobre o autor

Jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 23 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Começou a carreira no "Jornal do Brasil", em 1986, passou pelo "Estadão", ficou dez anos na "Folha de S. Paulo" (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o "Lance!" e a "Época", foi redator-chefe da "CartaCapital", diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor de “História do Lance! – Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo”

Contato: mauriciostycer@uol.com.br

Sobre o blog

Um espaço para reflexões e troca de informações sobre os assuntos que interessam a este blogueiro, da alta à baixa cultura, do esporte à vida nas grandes cidades, sempre que possível com humor.

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