29/07/2010

Por que não se pode discutir o pênalti perdido por Neymar?

Corre solta no Twitter e em blogs influentes uma espécie de campanha em defesa de Neymar. O argumento central é que trata-se de um menino talentoso e ousado, cujo comportamento em campo deve ser estimulado, e não criticado. Em nome do espetáculo e do futebol-arte, que o garoto do Santos tão bem representa, não se deve lamentar o pênalti perdido contra o Vitória, dizem os seus defensores. Alguns, mais empolgados, chegam a pedir que não se fale mais deste assunto. “Deixem o Neymar jogar”, pedem.

Ouça o que disse o goleiro Lee depois do jogo: “A gente estudou a equipe do Santos e sabíamos que o Neymar faz paradinha, cavadinha. Então eu esperei, induzi ele e graças a Deus fui feliz de pegar o pênalti”. Em outras palavras, o craque do Santos tornou-se previsível. Não é importante criticá-lo por isso?

Sou totalmente a favor do futebol jogado de forma bonita, agressiva e corajosa, como o Santos jogou no primeiro semestre. Isto não me impede de ver que Neymar cometeu um erro grave num jogo-chave.

Até entendo aqueles que defendem o atacante dizendo que ele ainda é muito jovem e cometeu um erro que muitos cometem. Isso é fato. O que me intriga no comportamento dos seus defensores é esta ideia de que o pênalti perdido numa decisão de Copa do Brasil não é um assunto importante, que mereça ser discutido. 

Por Mauricio Stycer às 13h10
28/07/2010

“CSI das artes" esclarecem mistérios em museus

O Museu do Vaticano informou nesta segunda-feira que não se trata de um Caravaggio o quadro encontrado recentemente em uma igreja em Roma. “Martírio de São Lourenço” é uma obra de qualidade "modesta" e feita com uma técnica "inadequada". Na melhor das hipóteses foi realizada por algum discípulo do mestre italiano, informou Antonio Paolucci.

O esclarecimento só foi possível devido à combinação de uma série de conhecimentos acumulados e técnicas novas, desenvolvidas justamente para resolver mistérios relacionados à autoria de obras de arte.

Uma exposição incrível, inaugurada há um mês em Londres, trata justamente deste assunto. “Close Examination: Fakes, Mistakes & Discoveries” (literalmente, “Exame de Perto: Farsas, Erros & Descobertas”) conta a história de cerca de 30 obras do acervo da National Gallery, um dos principais museus ingleses, todas elas envolvidas em algum tipo de polêmica.

Com transparência, a National Gallery conta como foi enganada e, depois de anos de estudos e pesquisas, descobriu que determinadas obras de seu acervo não eram dos pintores a quem se atribuía a autoria. Há um Botticelli e um Rembrandt na lista de erros cometidos, às vezes por pressa, pelo museu.

O mais interessante da exposição, que fica aberta até 12 de setembro, é a forma didática como a National Gallery exibe o processo de pesquisa que levou à descoberta das fraudes ou erros que cometeu ao longo da história. Para quem gosta da série policial  “CSI”, que descreve como a polícia científica é fundamental na elucidação de crimes, “Close Examination: Fakes, Mistakes & Discoveries” é uma diversão do início ao fim. No dia em que a visitei, havia crianças, adultos e idosos se debruçando sobre as telas e painéis explicativos. Uma festa.

O departamento científico do museu existe desde 1934, mas as técnicas que permitem estabelecer com precisão o tipo exato de material usado numa obra e a data aproximada em que foi realizada são recentes.

Os “CSI” das artes são capazes também de descobrir se uma determinada tela sofreu interferências posteriores à realização final, ou seja, se foi restaurada ou modificada. Com todas estas informações, não é possível estabelecer com precisão quem é o autor de um quadro, mas dá para excluir uma série de possibilidades. 

No caso do suposto Rembrandt, adquirido em 1957 (acima), por exemplo, há uma data e uma assinatura no lado direito que, sabe-se hoje, são falsas, mas a obra apresenta várias características presentes na obra do mestre holandês. A National Gallery tem certeza que a obra não é de Rembrandt, mas honestamente admite não saber quem é o autor.

Em tempo: Vale a pena navegar pelo site da exposição, que descreve em datalhes vários dos casos exibidos no museu. 

Por Mauricio Stycer às 12h37

“Meia Hola!”

Depois de 45 dias fora do Brasil, encontro duas grandes novidades nas bancas: a versão nacional da revista de celebridades “Hola!” e a versão paulista do jornal popular “Meia Hora”.

Uma das características da espanhola “Hola!” é o capricho com que acompanha as estripulias das diferentes famílias reais europeias e de nobres, em geral. Senti falta na edição que chegou hoje às bancas no Brasil de notícias sobre a intrépida duquesa de Alba, que namora, aos 83 anos, um plebeu de 50, mas encontrei fartas informações sobre a visita da rainha da Dinamarca, Margrethe II, às ilhas Faroe, sobre o passeio de Camilla Bowles ao mercado de Brixton, em Londres, e tive a oportunidade de conhecer o guarda-roupa da princesa Letizia Ortiz, da Espanha.

Já o “Meia Hora” ficou célebre pela forma debochada de tratar as notícias – tanto as frívolas quanto as trágicas. O jornal ocupa, em São Paulo, um espaço deixado vazio desde o fechamento do “Notícias Populares”, em 2001. A manchete desta quarta-feira, por exemplo, informa: “Levou um pé na bunda da amante e se vingou matando criancinha”. Outra notícia de impacto, sobre um assassinato ocorrido na Itália, avisa: “Brasileira tava todinha furada”. Os acusados de crimes são chamados de “monstro” ou “animal” e, sempre que possível, os títulos prometem mais do que cumprem. É o caso, por exemplo, da notícia “Bieber: boca cheia de minhoca”, que relata a preferência do cantor Justin Bieber por balas de goma em forma de minhoca.

A boa notícia é que ambas as publicações são fáceis e rápidas de ler. Como diria o chinês da piada, levei apenas “meia hola” para ler as duas.

Por Mauricio Stycer às 11h30
27/07/2010

Prejudicada, Globo sobe o tom das críticas à Ferrari

Detentora dos direitos de transmissão da Fórmula 1 no Brasil, a Globo ficou furiosa com a decisão da Ferrari, que mandou Felipe Massa ceder a liderança do GP da Alemanha para Fernando Alonso, no último domingo. Como poucas vezes se viu, os noticiários da emissora deixaram de lado o tom informativo pelo opinativo na avaliação do incidente. As críticas da Globo, em sua maioria, dirigem-se à escuderia italiana e tratam o piloto brasileiro como vítima.

Na segunda-feira de manhã, ainda com certo cuidado, o jornalista Alex Escobar, no “Bom Dia Brasil”, classificou a manobra como “polêmica”, e observou: “Foi triste, uma reprise que a gente não queria ver”, lembrando episódio semelhante, quando a Ferrari mandou Barrichello deixar Schumacher ultrapassá-lo, em 2002, e o piloto brasileiro, tal como Massa, obedeceu.

Já à noite, no “Jornal Nacional”, Reginaldo Leme subiu o tom. Disse que Massa foi “peça de trapaça”, falou do “prejuízo à imagem da marca (Ferrari) em todo o mundo” e lamentou: “Todos os torcedores que acompanham a Fórmula 1 são vítimas de uma equipe que não sabe preservar o que fez dela um grande ícone do esporte”.

Por fim, ainda no principal noticiário da emissora, o experiente jornalista cobrou: “Se quiser recuperar a credibilidade, a FIA (Federação Internacional de Automobilismo) deverá excluir a Ferrari e os dois pilotos do resultado na Alemanha”. Repare que Leme falou "deverá" e não "deveria"...

No “Jornal da Globo”, no final da noite, William Waack falou do “cinismo” das mensagens da Ferrari a Massa, transmitidas pelo sistema de áudio durante a corrida, em especial o agradecimento final ao piloto por ter sido “magnânimo”. Waack convocou novamente Reginaldo Leme e o narrador da prova, Luis Roberto, que também criticaram a escuderia italiana.

Já na manhã desta terça-feira, o “Bom dia Brasil” voltou a dar destaque ao episódio. Alex Escobar relatou que Luca di Montezemolo, presidente da Ferrari, classificou como “hipocrisia” as reclamações. Segundo o executivo, é sabido que os interesses da equipe se sobrepõem aos dos pilotos. Ao que Escobar pontuou: “Montezemolo prefere esquecer que o regulamento proíbe este tipo de ordem da equipe”. Em seguida, a apresentadora Renata Vasconcellos também opinou: “E tanto o Montezemolo quanto o Schumacher são parte interessadas”.

Em seu blog, o principal comentarista esportivo do jornal “O Globo”, Renato Mauricio Prado, foi igualmente enfático: “A Ferrari confirmou, uma vez mais, sua fama de escuderia picareta, capaz de qualquer armação para vencer e privilegiar seus eleitos. Ou Felipe Massa chuta o balde e troca de equipe, ou estará virando, irremediavelmente, um novo Rubinho - o que seria absolutamente lamentável.”

Para além da justa indignação, cabe lembrar que o fracasso dos pilotos brasileiros na Fórmula 1 afeta o interesse do público pelas corridas, o que prejudica diretamente a emissora, detentora há décadas dos direitos exclusivos de transmissão do campeonato para o Brasil.

Atualizado às 14h22: Questionei a assessoria de imprensa da Globo se a emissora tem uma opinião oficial sobre o episódio da ultrapassagem de Alonso sobre Massa a pedido da Ferrari e se o caso afeta, de alguma maneira, os planos em relação à cobertura do campeonato. A resposta foi: "A Globo apenas transmite as provas, relatou os fatos e prossegue com  a cobertura do campeonato."

Foto: Guillaume Baptiste/AFP

Por Mauricio Stycer às 11h47
26/07/2010

Mano Menezes chuta o pau da barraca de Dunga

Apenas quatro jogadores brasileiros que foram à África do Sul aparecem na primeira convocação de Mano Menezes – três deles reservas. Os comentaristas especializados especulam que outros merecem voltar, casos de Julio Cesar, Lucio, Juan e Kaká. Pode ser.

A vida de um técnico da seleção não é feita só de nomes, mas de gestos. E o novo técnico da seleção fez um gesto violento nesta segunda-feira, ao atirar na lata do lixo os nomes de 19 dos jogadores que Dunga levou à Copa e convocar o ataque inteiro do Santos para este primeiro amistoso, Ganso e Neymar incluídos, entre outras novidades. "A fila anda", disse.

Se foi um gesto racional ou não, movido por emoção ou vontade de jogar para a torcida, não dá para saber. Mas o fato é que a lista de Mano grita: “Dunga, você fez tudo errado!”

Foto: Júlio César Guimarães/UOL

Por Mauricio Stycer às 16h49

Marco Luque faz programa proibido para crianças maiores de 9 anos

Domingo, 19h. Cercado por Faustão, Silvio Santos e Gugu Liberato, Marco Luque, o apresentador com jeito de criança do “CQC”, surge na tela da Band para apresentar “Formigueiro”, sorri e avisa: “Nosso único objetivo é a diversão”. Trata-se de uma proposta modesta, um pouco mais fácil de realizar do que a de “Legendários”, por exemplo, que prometeu revolucionar a tevê brasileira na sua estreia. Mas ainda assim não é tarefa para qualquer um, diante de tal concorrência.

Para ajudá-lo, Luque convocou Claudia Leitte, “uma das maiores cantoras do mundo”. Também pediu a ajuda de duas formigas, um mágico, um cientista maluco, um criador de traquitanas e um ex-jogador de futebol. Uma espécie de exército de Brancaleone, que aposta na sua falta de jeito para divertir.
 
Atração atrás de atração, brincadeira depois de brincadeira, porém, “Formigueiro” não consegue arrancar um único sorriso do público. E não é o crítico mal-humorado que está dizendo isto. Preste atenção na plateia que participou da gravação do programa de estreia. São, aparentemente, adolescentes, perto dos 18 anos – e eles não acham graça de nada.

Para este público, as piadas de Luque sobre “primeira vez” não parecem piadas. Tana e Jura, as formigas, soam menos engraçadas que o Louro José. Uma foto intriga o público: “É uma bunda ou um cotovelo?”, pergunta o apresentador. Adivinhe. Para decepção geral, é um cotovelo.

Começo a perceber que há um problema em relação ao horário e o público-alvo do programa quando o mágico faz uma mágica que meu sobrinho de 12 anos sabe fazer. Denilson e Luque simulam um jogo de tênis no qual frigideiras fazem o papel de raquetes e uma tapioca é a bola. O cientista propõe uma experiência nojenta, que não causa nojo.

“É o programa mais legal, mais divertido que eu já participei”, diz Claudia Leitte, onipresente durante as duas horas da atração. A censura de “Formigueiro” é “livre”, mas faltou avisar que é proibido para crianças maiores de 9 anos. A atração de Marco Luque talvez ficasse melhor num horário matinal ou vespertino.

Por Mauricio Stycer às 10h36

Sobre o autor

Jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 23 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Começou a carreira no "Jornal do Brasil", em 1986, passou pelo "Estadão", ficou dez anos na "Folha de S. Paulo" (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o "Lance!" e a "Época", foi redator-chefe da "CartaCapital", diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor de “História do Lance! – Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo”

Contato: mauriciostycer@uol.com.br

Sobre o blog

Um espaço para reflexões e troca de informações sobre os assuntos que interessam a este blogueiro, da alta à baixa cultura, do esporte à vida nas grandes cidades, sempre que possível com humor.

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