24/07/2010

Política com “p” maiúsculo em “Vincere” e minúsculo em “O Bem Amado”

“Vincere”, de Marco Bellocchio, é, de longe, a melhor estreia da semana, possivelmente do mês, talvez do ano. Exibido na Mostra de Cinema de São Paulo de 2009, o filme conta uma história pouco conhecida, a da primeira mulher de Benito Mussolini, e o drama que ela viveu em paralelo à ascensão política do homem que iria governar a Itália por mais de 20 anos.

Bellocchio descreve como Mussolini usa o aparelho do Estado para reescrever a sua história e transformar a vida de Ida Dasler e do filho que tiveram juntos num inferno de tons kafkianos. Para quem enxergou no filme um paralelo com a Itália contemporânea, de Berlusconi, o quadro pintado em “Vincere” ganha tons ainda mais sombrios. O cineasta afirma não ter pensado nesta associação, mas não a rejeita. “No nível da consciência, nunca pensei nesta ligação. Mas é curioso: essa leitura é recorrente fora da Itália”, disse à "Folha".

A política também é o assunto principal de “O Bem Amado”, a alegoria de Dias Gomes consagrada por uma telenovela da Globo em 1973, que acaba de virar filme. Na versão atualizada por Guel Arraes e Claudio Paiva, a oposição ao coronel nordestino Odorico Paraguaçu (Marco Nanini, na foto ao lado) é personificada unicamente pelo dono do jornal “A Trombeta”, o jornalista Vladimir (vivido por Tonico Pereira).

Homem de esquerda, Vladimir é apresentado como um sujeito sem escrúpulos, capaz de inventar notícias para prejudicar o prefeito e que não hesita em aceitar suborno. “Contra os canalhas, somente agindo como um canalha”, ele diz, ecoando uma mensagem primária, que “O Bem Amado” vende em tom de comédia – a de que ninguém presta na política. 

Na época da Mostra escrevi o texto Amor nos tempos do fascismo: a saga da mulher de Mussolini, hoje arquivado em meu site pessoal. Sobre o filme de Guel Arraes, o UOL Cinema publicou neste sábado Nem cinema, nem TV, “O Bem Amado” vê a política como fotonovela.

Por Mauricio Stycer às 12h03
23/07/2010

Na disputa entre CBF e Fluminense, só Muricy perde

Homem de palavra, Muricy Ramalho deixou nas mãos do Fluminense o seu destino. Agiu com dignidade e, se a situação não mudar nas próximas horas ou dias, será lembrado para sempre por este gesto histórico – o profissional que abriu mão de dirigir a seleção brasileira porque não quis romper unilateralmente o seu compromisso com o clube.

Há algo de didático no seu comportamento. Ensina que o presidente da CBF, por mais poderoso que seja, não pode anunciar à Rede Globo os planos do novo técnico da seleção antes que o principal interessado acerte a sua situação com seu empregador. Esta é uma lição que Muricy deixa não apenas para os seus filhos, mas para todos que sonham com um ambiente melhor no mundo do futebol.

Pessimista, porém, acho que há algo também de quixotesco na sua atitude. No caso, Muricy está honrando a sua palavra com o Fluminense, mas poderia ser com qualquer clube da Série A, B, C ou D do futebol brasileiro. Você conhece algum clube que honra a sua palavra com técnicos ou jogadores?

Encerrado este episódio como se desenhava na tarde desta sexta-feira, Muricy só terá a chance de dirigir a seleção brasileira na eventual gestão de algum oposicionista de Ricardo Teixeira. E as chances de seguir no Fluminense até o fim do seu contrato são tão grandes quanto as minhas de ganhar na Mega-Sena.

Atualizado às 12h15 do dia 24 de julho: Em função dos últimos acontecimentos, retirei o destaque em negrito à frase "se a situação não mudar nas próximas horas ou dias". O gesto de Muricy será lembrado para sempre. Parabéns.

Foto: Ricardo Cassiano/Folhapress

Por Mauricio Stycer às 18h20
22/07/2010

Ana Maria Braga em fase “Datena light”

Sem querer ofender nenhum dos dois, é com surpresa que observo uma semelhança cada vez maior entre os programas de Ana Maria Braga e José Luiz Datena. A favor da apresentadora da Globo, é preciso dizer que ela não grita. E que faz entrevistas sobre assuntos policiais no mesmo tom de voz com que interroga cozinheiros.

Nesta quinta-feira, Ana abriu o programa ao seu estilo, informando que quando era criança referia-se ao dia de hoje, 22, como “dois patinhos na lagoa”, para logo em seguida anunciar a grande atração da manhã: uma entrevista com “a namorada oficial” do goleiro Bruno. Antes da chegada de Fernanda Castro, ainda houve tempo para um bloco com “um resumo das notícias” do caso.

Depois de 29 minutos de exploração impiedosa do caso, o espectador que esperava um pouco de sossego do seu programa matinal foi obrigado a assistir a outra conversa sobre o mesmo assunto, com o promotor Marcelo Milani. “Ele diz que escolheu a promotoria porque gosta de colocar bandido na cadeia. E nós, a população, óbvio, espera promotores assim para poder fazer justiça”, apresentou Ana.

Mais 19 minutos de especulações e sensacionalismo: “O caso do Bruno tem algumas contradições, mas algumas certezas. A Eliza está desaparecida e as pessoas que estão presas sequestraram ela”, disse o promotor, que não está envolvido no caso.

Ana justificou recentemente esta guinada espetacular em seu programa da seguinte forma: “Como a gente pode ficar quieto tendo um veículo de comunicação na mão? A gente faz receitas, mas a vida não é só alegria. Você não tem vontade de gritar quando vê essas notícias?”.

Pessoalmente, só tenho vontade de mudar de canal.

PS: o UOL Televisão está promovendo uma enquete sobre a nova fase de Ana Maria Braga. Para votar, entre aqui.

Por Mauricio Stycer às 13h09

Os 10 melhores títulos de e-mail na minha caixa de spam

Fiquei 45 dias sem entrar na área de “Quarentena” do meu e-mail. Nesta quinta-feira, ao resolver dar uma olhada na situação, encontrei cerca de 600 mensagens aguardando a minha decisão de enviá-las, ou não, definitivamente para o lixo. Não sobrou uma, mas antes tive a chance de me divertir muito com os títulos de várias ofertas, promoções e golpes destinados a atrair a minha atenção. Neste ramo, o do spam, o título do e-mail é o segredo do negócio. Segue a minha seleção dos 10 melhores títulos que encontrei. 

1. Futebol+churrasco+cerveja, na casa em que morou Tom Jobim. Brasil x Portugal. Vamos!

2. Fui vitima de uma substância mágica

3. Você sabe o que significa a palavra handkerchief...

4. Precisa Emagrecer Urgente? CoCoCo

5. Nova Música Cantor Vitor Hugo {Bye bye, Adeus!}

6. SHAMPOO ESPERANÇA!!!

7. Recupere todo cabelo já perdido!

8. Para quem pensa que congelado não tem sabor – Prato Frio

9. Dunga agredito eim treino por torcedor

10. FW: COM ESSA VC VAI RIR DE MAIS!! KKKKKKK

E os cinco melhores títulos em inglês

1. Hello,

2. FROM ME

3. JOB VACANCY IN LONDON

4. Your E-mail Has Won 485,910.00 Euros

5. REPLY AND CALL ME +226 78 7620 77.

Por Mauricio Stycer às 10h08
21/07/2010

Gênios do futebol, dentro e fora do campo

“É muito comum ouvir que os jogadores de antigamente não teriam lugar no futebol atual. Não dou muita bola porque não gosto de conversar com quem não sabe nada de futebol. Hoje, jogam no máximo 35 minutos. A bola sai do goleiro, vai para um lateral, e você pode dar as costas, pedir um cafezinho no meio-campo, tomar o café, voltar, devolver a xícara e a bola ainda não vai ter chegado”.

O depoimento acima é de Zizinho, para muitos o maior jogador brasileiro antes de Pelé (na foto, de 1957, agachado entre Formiga e Djalma Santos). Foi dado aos jornalistas Jorge Vasconcellos e Claudiney Ferreira e está incluído em “Recados da Bola”, uma série de doze entrevistas com ex-jogadores da seleção brasileira. Lançado em junho, com a Copa de 2010 já em andamento, o livro talvez não tenha merecido a atenção devida. O volume começa com Barbosa e termina com Sócrates, recheado ainda com participações, além de Zizinho, de Domingos da Guia, Jair Rosa Pinto e Ademir Menezes, todos eles gênios que não tiveram o prazer de levantar uma Copa do Mundo.

“Recados da Bola” traz ainda entrevistas com cinco bicampeões mundiais de 1958 e 62 - Nilton Santos (também reserva em 1950 e titular em 1954), Djalma Santos (que esteve igualmente em 1954 e 1966), Bellini (barrado em 1962 por Mauro num episódio polêmico), Zito e Didi -, além de Rivellino, que participou de três Mundiais (1970, 74 e 78).

Como escrevi no UOL Esporte, o livro descreve uma época em que os jogadores eram mais importantes que os técnicos, davam palpites nas escalações, divergiam abertamente das opções táticas e entendiam o futebol como uma verdadeira arte.

São doze aulas de futebol. Ajudam a entender algumas mudanças, para pior, que ocorreram no mundo da bola, como esta transformação dos técnicos em figuras centrais do espetáculo, e lembram que inúmeros problemas atuais são, na verdade, tão velhos quanto o próprio futebol. Barbosa conta, por exemplo, do uso político da seleção de 1950 – fato que se repetiu, desde então, com todas as seleções.

A relação conflituosa dos jogadores com a imprensa também aparece em inúmeras entrevistas, a nos lembrar que esta tensão faz parte do mundo da bola. Djalma Santos, por exemplo, conta uma história curiosa da Copa de 1962, no Chile. Estava em Viña del Mar, em dia de folga. Ele e Vavá saem para passear, param num bar e pedem um vinho. Ficam ali batendo papo e curtindo a folga, à vista de jornalistas brasileiros. No dia seguinte, um jornalista indaga de Carlos Nascimento, cartola brasileiro na Copa, se ele sabia que os craques da seleção haviam bebido na véspera. Nascimento chama o lateral-direito, que confirma a história, na frente do repórter.

Conta Djalma no livro: “Voltando-se para o jornalista, Carlos Nascimento foi enfático: ‘Ele tomou vinho porque eu mandei’. De quebra ainda perguntou: ‘Você também não gosta de um vinho de vez em quando?’ Se não tivesse aquele dirigente, se ele dissesse alguma coisa como ‘depois falo com o Djalma’, o jornalista teria publicado algo do tipo: ‘Djalma bêbado na concentração’.” Será?

Foto: Arquivo pessoal de Djalma Santos

Por Mauricio Stycer às 10h28
20/07/2010

Você vê que o tempo passou quando... Malu Mader faz o papel de mãe

Depois de 25 anos, a Globo resolveu apostar no remake de um de seus grandes sucessos, a novela “Ti-Ti-Ti”, para tentar recuperar a audiência perdida no horário das sete. Reescrita por Maria Adelaide Amaral, a comédia de Cassiano Gabus Mendes estreou nesta segunda-feira prometendo muita risada e diversão.

Gostei bastante do primeiro capítulo, como anotei no texto “Ti-Ti-Ti” renova velha comédia com homenagem à ZL paulistana. O elenco feminino da novela chama a atenção. Malu Mader, que atuou na versão original como filha do costureiro Jacques Leclair, agora é uma poderosa jornalista, dona de uma editora, e mãe de dois filhos já saídos da adolescência. Além dela, Giulia Gam, Claudia Raia e Dira Paes também vivem personagens na mesma faixa etária – mães com filhos adultos. Correndo o risco de parecer um velho babão, mas, na verdade, sem nenhuma melancolia, devo dizer que elas me pareceram ótimas.

Foto: Divulgação/TV Globo

Por Mauricio Stycer às 12h00
19/07/2010

A contribuição milionária de todos os erros “made in Brazil”

A primeira vez que ouvi essa pérola foi no restaurante de um velho hotel em Itatiaia, uns 15 anos atrás: “Hoje não é a la carte. É no sistema serv-serv”. Eis um belo exemplo de como a língua se adapta ao conhecimento e às necessidades do cotidiano. O inglês “self service” vira “serv-serv” e todo mundo entende, ainda com mais clareza, a proposta do bufê do restaurante. E assim os erros se incorporam ao vocabulário, sem causar grandes traumas. É “a contribuição milionária de todos os erros”, como defendeu Oswald de Andrade no Manifesto Pau Brasil, em 1925. 

Semana passada em Londres, onde vive uma grande comunidade de brasileiros, dei de cara com a placa de um restaurante brasileiro na movimentada Oxford Street, perto de Tottenham Court Road. A casa oferece comida no bufê e, tentando agradar a gregos e troianos, a ingleses e brasileiros, encontrou uma nova solução: nem “self service” nem “serv serv”. O restaurante trabalha no sistema “self serv”. 

Por Mauricio Stycer às 11h59

Sobre o autor

Jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 23 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Começou a carreira no "Jornal do Brasil", em 1986, passou pelo "Estadão", ficou dez anos na "Folha de S. Paulo" (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o "Lance!" e a "Época", foi redator-chefe da "CartaCapital", diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor de “História do Lance! – Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo”

Contato: mauriciostycer@uol.com.br

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Um espaço para reflexões e troca de informações sobre os assuntos que interessam a este blogueiro, da alta à baixa cultura, do esporte à vida nas grandes cidades, sempre que possível com humor.

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