16/07/2010

Quando a fã sabe quem conhece, ou não, Nick Jonas

São 23h de uma quarta-feira e três dezenas de meninas se aglomeram diante de uma porta, numa rua, em Londres. Trata-se da saída dos atores do musical “Les Miserables”, em cartaz há 25 anos no Queen´s Theatre, no West End. Elas têm entre 13 e 30 anos e carregam, cada uma, a sua câmera fotográfica. Algumas também portam cartazes ou cadernos e seguram canetas. Pergunto a uma delas o que se passa e ela, depois de me olhar de cima a baixo, educadamente explica:

- Você não vai saber quem é ele.
- Mas me diga.
- Estamos esperando Nick Jonas.
- Realmente não sei quem é.
- É um dos Jonas Brothers.

Nick é o mais jovem dos três irmãos que formam esta banda americana de muito sucesso entre meninas adolescentes. Na porta do teatro, descubro que o cantor do grupo-sensação está fazendo uma participação especial no musical, por um breve período, no papel de Marius, um dos personagens principais da história.

Indo ao Google, descubro que, antes de fazer sucesso com a banda, Nick interpretou este mesmo personagem na Broadway, em Nova York, em 2003, e disse a seus pais, no último dia: “Ainda vou voltar a interpretar Marius”. A um jornal londrino, que noticiou esta genial jogada de marketing, o garoto comentou: “É um sonho que se tornou realidade”. Também li que anos antes dele, o esperto produtor de “Les Miserables” escalou o cantor Ricky Martin para o mesmo papel.

As fãs à porta da saída dos camarins não querem saber nada disso. Querem apenas uma foto e um autógrafo do menino, hoje com 17 anos. Quando ele aparece, começa uma gritaria. Gentil, mas acompanhado de um segurança, Nick atende a todas as fãs, posa para fotos com várias delas e assina inúmeros autógrafos. O repórter do “New York Times” que assistiu cena semelhante uma semana antes de mim registrou os gritos de duas meninas: “Quero morrer nos seus braços”, implorou uma.”Quero cheirar você”, pediu outra. Eu não consegui ouvir nada muito claramente, apenas gritos histéricos e uma francesa, acompanhada das duas filhas, que pedia, em francês: "Nicholas! Nicholas!".

Segundo os sites de fofocas e jornais sensacionalistas londrinos, o garoto está saindo com duas atrizes do elenco do musical. Ao mesmo tempo. O rumor ganhou tamanho fôlego que Nick foi ao Twitter para desmentir esta parte mais picante da fofoca: “A história sobre eu estar saindo com minhas colegas Samantha Barks E Lucie Jones não é verdadeira”, escreveu, destacando o "E" em caixa alta. O garoto é esperto.

Por Mauricio Stycer às 06h50
15/07/2010

Em Londres, a Copa do Mundo ainda não acabou

Não por causa da desastrosa participação da seleção inglesa, mas por conta da polêmica atuação do árbitro Howard Webb na partida final, os ingleses ainda discutem a Copa do Mundo na África do Sul. Mais que o jogo propriamente entre Espanha e Holanda, rola um intenso debate a respeito das decisões de seu conterrâneo na final.

A maioria da mídia apóia Webb. O raciocínio principal de jornalistas, colunistas e blogueiros ingleses é que o árbitro fez um grande esforço para não estragar um espetáculo único, que é uma final de Copa do Mundo. A não expulsão do holandês De Jong, depois da voadora em Xabi Alonso, se explica dentro desta lógica. Um cartão vermelho aos 28 minutos do primeiro tempo poderia arruinar precocemente um jogo histórico.

Mas nem todo mundo concorda com esse raciocínio. Ao chegar a Londres, ainda no aeroporto, passei por aquele interrogatório básico, a que qualquer turista de fora da Comunidade Européia é submetido no controle de passaportes. O sujeito queria saber  o que eu vinha fazer na Inglaterra, quantos dias eu ia ficar, de onde eu estava vindo, para onde eu ia depois, o que eu faço da vida etc... Até que, sem que eu percebesse, o interrogatório degringolou completamente e virou um bate-papo sobre futebol:

- Sobre o que você escreve?
- Escrevo sobre esportes.
- Você esteve na Copa?
- Sim.
- Assistiu a final?
- Sim.
- O que você achou da atuação do Howard Webb?
- Achei um vexame.
- As pessoas aqui dizem que ele fez um bom trabalho, mas também acho que ele foi mal. Ele devia ter expulsado aquele holandês.
- Também acho. Até escrevi sobre isso no meu blog.
- Se eu entendesse português, eu leria.

Menos de uma hora depois, dentro de um táxi, a caminho do hotel, o motorista puxou assunto, quis saber de onde eu era, de onda estava vindo e rapidamente a conversa caiu na final da Copa do Mundo. E ele logo quis saber a minha opinião:

- O que você da atuação do Webb?
- Um vexame.
- Ele é um bom árbitro. Muito respeitado aqui na Inglaterra.
- Acredito. Do contrário não teria sido escolhido para apitar a final. O que estão falando da atuação dele?
- Dizem que ele foi muito bem. Fez o possível para não estragar a final. Mas acho que ele errou. Devia ter dado cartão vermelho para aquele holandês...

Por Mauricio Stycer às 06h41
13/07/2010

Valeu a pena o esforço da África do Sul de fazer a Copa do Mundo?

Deixo a África do Sul nesta quarta-feira depois de 40 dias. Relendo o primeiro texto que escrevi daqui vejo que acertei no elogio à gentileza do sul-africano, percebida logo nas primeiras horas, mas não fui capaz de cumprir a promessa de escrever sobre assuntos variados – acabei falando muito mais sobre futebol e seu entorno.

Assisti 16 partidas ao vivo* – um quarto das 64 disputadas – e outras tantas pela televisão. Do ponto de vista da qualidade do futebol, acho que a Copa ficou devendo, mas apresentou alguns bons momentos. Um balanço do que eu e meus colegas de cobertura vimos de mais interessante no Mundial por ser lido neste ABC da Copa, publicado no UOL Esporte.

Gostei das seleções dos Estados Unidos, do Uruguai, da Alemanha e de alguns bons momentos da Holanda e da Espanha. Foi emocionante ver a devoção dos sul-africanos aos Bafana Bafana, embora o time comandado por Carlos Alberto Parreira tenha deixado a desejar. Assisti África do Sul x França no meio de uma multidão, à beira do oceano Índico, em Durban (foto acima), uma experiência inesquecível.

Pessoalmente, tive o prazer de estar presente em entrevistas com algumas figuras lendárias do futebol – Franz Beckenbauer, Diego Maradona e Roger Milla. O técnico da Argentina proporcionou momentos impagáveis nesta Copa, mostrando que é possível – e necessário – fugir do figurino careta e conservador imposto hoje ao circo do futebol mundial. 

Já havia estado na África do Sul em 1991, numa viagem de turismo a convite do governo. É evidente que o país mudou bastante desde então, mas os problemas econômicos e sociais continuam à vista, para quem quiser ver. O sucesso da Copa fez muito bem para a auto-estima dos sul-africanos, mas a grande questão que resta é a do legado deste evento. Valeu a pena o esforço?

Os magníficos estádios construídos ou reformados para o Mundial têm grandes chances de se tornarem elefantes brancos por falta de público e clubes capazes de enchê-los. As melhorias nos aeroportos, na malha rodoviária e no sistema de comunicação permanecerão, mas a que custo? Mendigos nos sinais de trânsito, favelas à beira de estradas, ataques xenofóbicos a imigrantes do Zimbábue e da Somália, acusações de corrupção envolvendo os mais variados políticos... Nós vamos embora, mas os problemas da África do Sul continuam aguardando soluções.

Não passei 40 dias numa bolha, mas tenho certeza de que poderia ter conhecido mais e melhor a realidade sul-africana. Não foi possível, em função das exigências da cobertura jornalística do evento que me trouxe ao país. De qualquer forma, peço desculpas aos leitores pelo não cumprimento da promessa de diversificar os assuntos do blog no período. E encerro meu trabalho na África do Sul agradecendo a atenção dos que passaram por aqui e aproveito para avisar que volto só na próxima semana, depois de alguns dias de descanso.

*África do Sul x México; Argentina x Nigéria; Servia x Gana; Holanda x Dinamarca; Brasil x Coreia do Norte; África do Sul x Uruguai; Eslovênia x Estados Unidos; Brasil x Costa do Marfim; Nigéria x Coreia do Sul; Portugal x Brasil; Brasil x Chile; Paraguai x Japão; Holanda x Brasil; Uruguai x Holanda; Espanha x Holanda.

Por Mauricio Stycer às 14h23
12/07/2010

A voadora de De Jong, o vexame de Webb e a omissão de Blatter

Em oito minutos, entre o 15º e o 23º, do primeiro tempo da final da Copa do Mundo de 2010, o árbitro Howard Webb da Inglaterra aplicou quatro cartões amarelos – dois para jogadores da Holanda (Van Persie e Van Bommel), dois para jogadores da Espanha (Puyol e Sergio Ramos), todos por entradas violentas. Já se anunciava ali a final mais violenta da história, mas o pior ainda estava por acontecer.

No minuto 28, o volante de Jong acertou o seu pé direito no peito do volante Xabi Alonso. Estavam ambos na altura do meio de campo do Soccer City, não havia risco de gol para nenhuma das duas equipes nem qualquer chance de contra-ataque no lance. Se o chute do holandês foi um golpe de jiu jitsu, caratê ou vale tudo, não sei avaliar, mas tenho certeza que não foi uma jogada de futebol.

Howard Webb cometeu, então, um erro grave, com sérias consequências para o desenrolar da partida e da sua atuação. Advertiu De Jong com cartão amarelo, quando devia ter aplicado vermelho. Por mais que caiba discussão em qualquer aspecto de um jogo de futebol, é bom lembrar que o próprio jogador falou posteriormente sobre a sorte de não ter sido expulso. 

Não vou me estender aqui sobre o resto da partida, nem sobre os demais erros de Webb (uma ótima análise a este respeito pode ser lida aqui, em inglês). Meu objetivo é comentar a omissão do presidente da Fifa, Sepp Blatter, sobre o assunto.

Nesta segunda-feira, 14 horas depois que Casillas levantou a taça de campeão do mundo, Blatter reuniu a imprensa para uma entrevista de balanço sobre o Mundial. A primeira pergunta, se não me engano, foi sobre a voadora do volante De Jong. O repórter, educado, quis saber o que deveria dizer para o filho que assistiu à final, assim como para as milhões de crianças ao redor do mundo que fizeram o mesmo, a respeito da atitude do jogador holandês e da reação frouxa do árbitro inglês.

No lugar de fazer uma condenação dura e direta, Blatter falou apenas que o fair play na final deixou a desejar e, logo depois, repetiu aquele discurso de que a graça do esporte é que ele é imperfeito. “Se fosse perfeito, se fosse controlado pela ciência, não haveria mais discussão. Isso é o futebol”.

Desnecessário detalhar o alcance do poder de Blatter, algo sem tem paralelo no mundo. A Fifa é o órgão supremo do futebol em mais de 200 países e não aceita ingerência de governos nacionais em nenhuma confederação nacional. Um homem tão poderoso – e que gosta de futebol, como faz questão de dizer – não teria nada mais contundente a dizer sobre o que ocorreu na final do principal evento que organiza?   

Foto: Flavio Florido/UOL

Por Mauricio Stycer às 15h37
11/07/2010

A imperfeição do Uruguai salva a Copa do tédio

O Uruguai se classificou para a Copa do Mundo depois de ficar em quinto lugar entre as dez seleções sul-americanas (atrás de Brasil, Chile, Paraguai e Argentina, nesta ordem) e superar, com dificuldade, a Costa Rica, em dois jogos na repescagem (1 a 0 e 1 a 1). Sorteada para integrar um dos grupos mais difíceis, formado por França, África do Sul e México, chegou ao país do Mundial como completo azarão.

A estreia contra os franceses (0 a 0) não foi promissora, mas os uruguaios mostraram que não vieram a passeio logo na segunda partida. Diante dos anfitriões, em Pretória, o Uruguai entrou em campo com três atacantes (Forlan, Suarez e Cavani) e liquidou com as esperanças da África do Sul, ao vencer fácil por 3 a 0. Contra o México, podendo empatar, fez 1 a 0 e terminou a primeira fase como líder do grupo.

Nas oitavas, contra a Coreia do Sul, os uruguaios mostraram, pela primeira vez, as deficiências de sua defesa – levaram um gol bobo, mas Suarez, em dois momentos felizes, garantiu a passagem para as quartas.

A partida entre Uruguai e Gana entrou para a história desta Copa. Depois de 1 a 1 no tempo normal, o jogo foi para a prorrogação. Os uruguaios levavam sufoco dos ganenses quando, já nos acréscimos do tempo extra, o artilheiro Suarez fez uma defesa milagrosa e impediu o gol de Gana. Asamoah Gyan, que já havia feito dois gols de pênaltis na Copa, mandou a bola no travessão de Muslera. Na decisão por pênaltis, o botafoguense Loco Abreu, a la Zidane e Djalminha, classificou os uruguaios para a semifinal com uma cavadinha espetacular.

Corajosamente, o Uruguai enfrentou a Holanda marcando a saída de bola no campo adversário. Tomou o gol mais bonito desta Copa, o chutaço indefensável de Van Bronckhorst, mas empatou com Forlan. No segundo tempo, em três minutos, em duas bobeadas da defesa uruguaia, a Holanda deu a impressão que havia liquidado a partida. Mas o Uruguai correu atrás, diminuiu e ainda deu um sufoco nos últimos minutos que os holandeses jamais esquecerão.

Na disputa do terceiro lugar, mais uma vez viram-se as qualidades e defeitos que fizeram do Uruguai o time menos tedioso desta Copa. Novamente com a trinca formada por Cavani, Suarez e Forlan, os uruguaios jogaram de igual para igual com os alemães e, se não fossem as falhas do goleiro Muslera, poderiam ter vencido a partida.

Forlan foi, na minha opinião, o maior destaque individual do torneio. Não apenas pelos cinco gols, mas por conduzir o Uruguai nos seus melhores momentos, atuando tanto como meia quanto como atacante. Suarez, Cavani, Max Pereira e Arevalo exibiram talento. Além da raça de sempre, o time jogou limpo em todos os momentos. O técnico Oscar Tabarez mostrou-se um grande estrategista, além de articulado e gentil com os jornalistas.

As deficiências do setor defensivo talvez tenham impedido a seleção de ir ainda mais longe do que o quarto lugar, mas não tiraram do Uruguai o título de maior surpresa da Copa – o time que espantou o tédio, divertiu, emocionou e fez muito brasileiro voltar a torcer.

Foto: Ina Fassbender/Reuters

Por Mauricio Stycer às 07h49

Sobre o autor

Jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 23 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Começou a carreira no "Jornal do Brasil", em 1986, passou pelo "Estadão", ficou dez anos na "Folha de S. Paulo" (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o "Lance!" e a "Época", foi redator-chefe da "CartaCapital", diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor de “História do Lance! – Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo”

Contato: mauriciostycer@uol.com.br

Sobre o blog

Um espaço para reflexões e troca de informações sobre os assuntos que interessam a este blogueiro, da alta à baixa cultura, do esporte à vida nas grandes cidades, sempre que possível com humor.

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