08/07/2010

A Holanda se livra da sombra de Cruyff, o último romântico

No famoso artigo em que elogiou o Chile, dizendo que a seleção comandada por Marcelo Bielsa era “a nova Holanda”, Johan Cruyff escreveu, dirigindo-se aos holandeses: “Sempre foi uma qualidade nossa oferecer algo a mais aos torcedores. Nós nunca vencemos o título, mas o mundo inteiro sempre falou sobre nós. O Chile roubou este papel dos holandeses”. E acrescentou: “Ao final de um torneio com 32 equipes, só haverá um campeão. Enquanto as chances de conquistar o título são limitadas, a oportunidade de satisfazer os torcedores está em suas mãos. Felizmente, o Chile está fazendo isso”.

Maior jogador da história da Holanda, Cruyff liderou o célebre “carrossel holandês” na Copa de 1974 e foi a inspiração da seleção em 1978 – dois Mundiais em que o chamado “futebol total” dos laranjas deixou o mundo de queixo caído, mas perdeu o título para Alemanha e Argentina, respectivamente.

As gerações que brotaram na Holanda nas décadas seguintes obedeceram a Cruyff: encantaram o mundo com um futebol brilhante, mas pouco vencedor. Foi o caso, na década de 80, da turma encabeçada por Van Basten, Gullit e Rijkaard, sem sucesso em Mundiais. E também, nos anos 90, da equipe formada por Bergkamp, Seedorf, Davids e Overmars, entre outros, eliminada nos pênaltis, na semifinal da Copa de 1998, pelo Brasil.

Ao elogiar o futebol do Chile e criticar o Brasil, na véspera da partida entre ambas as seleções, Cruyff irritou Dunga, ao dizer que não pagaria para assistir a seleção brasileira, levando o técnico a responder, dizendo que o holandês ganhava ingressos gratuitos da Fifa.

Mas, na verdade, com suas declarações Cruyff abriu uma polêmica com o técnico da Holanda. Com seis vitórias em seis jogos, a equipe comandada por Bert Van Marwijk (à dir. de Cruyff na foto) está longe de praticar o futebol vistoso, que sempre foi a marca dos holandeses. Em mais de uma ocasião, o técnico dos laranjas fez questão de sublinhar a diferença de sua equipe com a seleção da época de Cruyff. Numa entrevista recente, aqui na África do Sul, ele disse:

Nós podemos jogar futebol muito bem. Há 20 ou 30 anos, era o ‘futebol total’. Mas o futebol muda. Todo mundo está cada vez mais bem preparado e organizado. Então, quando você joga como estava acostumado a jogar, é mais difícil vencer a Copa do Mundo.

E também falou: 

Quando assumi a seleção, eu disse claramente que eu queria ensinar o time a se defender melhor. Isso começa com os atacantes. Dessa forma, você fica mais estável e você pode ter uma boa organização defensiva. No futebol, a posse de bola é importante. 

O conflito de ideias entre Cruyff e Van Marwijk ganha tempero especial porque o técnico da Holanda na Copa considera que a equipe mais bem equilibrada do mundo, aquela que combina melhor futebol ofensivo com solidez na defesa, é o Barcelona. “É o time que joga o futebol mais bonito do mundo”, disse  Van Marwijk. Cruyff, como se sabe, é uma lenda no Barcelona. Ganhou tudo como jogador e como técnico da equipe.

Ao mesmo tempo, a seleção da Espanha que chega à final da Copa contra a Holanda atuou com seis jogadores do Barcelona na partida com a Alemanha. Para muitos, a Espanha se inspira também na equipe catalã, uma afirmação que causa desgosto aos torcedores do Real Madrid.

O fato é que tanto Holanda quanto Espanha estão longe de jogar um futebol tão ofensivo e brilhante quanto o sonhado por Cruyff. As duas seleções me parecem bem mais pragmáticas que o Barcelona, cujo futebol vistoso foi superado este ano pela Inter de Milão, dirigida por outro pragmático, o português José Mourinho. Sem medo de ganhar jogando feio, quando necessário, as duas finalistas da Copa vão certamente desagradar Cruyff no domingo.
 
Fotos: AP e Reuters

Por Mauricio Stycer às 05h26
04/07/2010

Dunga e Maradona, semelhantes no sonho e no fracasso

Dunga e Maradona tinham um mesmo sonho na África do Sul: entrar para a restrita galeria dos campeões mundiais na dupla função de jogador e técnico. Nenhum dos dois chegou a falar abertamente sobre o assunto, mas Franz Beckenbauer fez isso por eles: “Só eu e Zagallo temos esse título no mundo e estamos à espera de um terceiro. Dunga está na frente, mas Maradona também tem chances.”

Apolo e Dionísio, yin e yang, direita e esquerda, Dunga e Maradona são personagens totalmente diferentes, mas complementares. Não foi por acidente que tivemos a oportunidade de vê-los, ambos técnicos inexperientes, à frente de duas das principais seleções do planeta, durante uma Copa do Mundo. Os dois encarnavam o sonho de que Brasil e Argentina, respectivamente, levassem a campo um pouco das qualidades que exibiram em campo como jogadores.

Depois do fracasso das "estrelas" em 2006, Dunga exprimia a vontade de que uma nova geração pudesse exibir orgulho diante da ideia de vestir a camisa verde-amarela. O desafio de Maradona era ainda maior: sua presença significava o desejo de ver a albicesleste voltar a brilhar e levantar um troféu que ela não vence há 24 anos.

Acompanhei a seleção brasileira relativamente de perto desde 11 de maio, quando ela foi convocada, até a derrota para a Holanda, na sexta-feira, 2 de julho. Foi o suficiente para eu me arriscar a entender o dunguismo e tentar explicar as razões do fiasco. Não tive um contato tão intenso com a seleção argentina, mas assisti três entrevistas de Maradona e vi duas partidas da seleção, justamente a primeira, vitória de 1 a 0 sobre a Nigéria, e a última, goleada da Alemanha por 4 a 0.

Nas vitórias iniciais, Dunga mais de uma vez deu mostras de que não sabe ganhar, expondo os seus ressentimentos contra jornalistas e outros “inimigos”. A discussão com Alex Escobar foi o ápice desta situação. Já Maradona, nas entrevistas depois de vitórias, exultou como uma criança, como se tivesse acabado de ganhar um brinquedo novo.

Ao ouvir as explicações do técnico brasileiro depois da derrota para a Holanda ficou claro que Dunga sabe perder. Foi sereno, responsável, orgulhoso. A sofrida entrevista de Maradona após a surra que levou da Alemanha expôs o lado cinzento da sua personalidade: “É um chute na cara. Não tenho força para nada”.     

Formei a opinião de que ambos fracassaram precocemente na mesma etapa da competição, ao menos em parte, porque acreditaram que bastaria serem autênticos, serem Dunga e Maradona, para inspirar seus jogadores e seus torcedores. Naturalmente, não foi suficiente.

Fotos: Shaun Botterill - FIFA/FIFA via Getty Images e Lars Baron/Getty Images

Por Mauricio Stycer às 15h33

Sobre o autor

Jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 23 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Começou a carreira no "Jornal do Brasil", em 1986, passou pelo "Estadão", ficou dez anos na "Folha de S. Paulo" (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o "Lance!" e a "Época", foi redator-chefe da "CartaCapital", diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor de “História do Lance! – Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo”

Contato: mauriciostycer@uol.com.br

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Um espaço para reflexões e troca de informações sobre os assuntos que interessam a este blogueiro, da alta à baixa cultura, do esporte à vida nas grandes cidades, sempre que possível com humor.

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