A Holanda se livra da sombra de Cruyff, o último romântico
No famoso artigo em que elogiou o Chile, dizendo que a seleção comandada por Marcelo Bielsa era “a nova Holanda”, Johan Cruyff escreveu, dirigindo-se aos holandeses: “Sempre foi uma qualidade nossa oferecer algo a mais aos torcedores. Nós nunca vencemos o título, mas o mundo inteiro sempre falou sobre nós. O Chile roubou este papel dos holandeses”. E acrescentou: “Ao final de um torneio com 32 equipes, só haverá um campeão. Enquanto as chances de conquistar o título são limitadas, a oportunidade de satisfazer os torcedores está em suas mãos. Felizmente, o Chile está fazendo isso”.
Maior jogador da história da Holanda, Cruyff liderou o célebre “carrossel holandês” na Copa de 1974 e foi a inspiração da seleção em 1978 – dois Mundiais em que o chamado “futebol total” dos laranjas deixou o mundo de queixo caído, mas perdeu o título para Alemanha e Argentina, respectivamente.
As gerações que brotaram na Holanda nas décadas seguintes obedeceram a Cruyff: encantaram o mundo com um futebol brilhante, mas pouco vencedor. Foi o caso, na década de 80, da turma encabeçada por Van Basten, Gullit e Rijkaard, sem sucesso em Mundiais. E também, nos anos 90, da equipe formada por Bergkamp, Seedorf, Davids e Overmars, entre outros, eliminada nos pênaltis, na semifinal da Copa de 1998, pelo Brasil.
Ao elogiar o futebol do Chile e criticar o Brasil, na véspera da partida entre ambas as seleções, Cruyff irritou Dunga, ao dizer que não pagaria para assistir a seleção brasileira, levando o técnico a responder, dizendo que o holandês ganhava ingressos gratuitos da Fifa.
Mas, na verdade, com suas declarações Cruyff abriu uma polêmica com o técnico da Holanda. Com seis vitórias em seis jogos, a equipe comandada por Bert Van Marwijk (à dir. de Cruyff na foto) está longe de praticar o futebol vistoso, que sempre foi a marca dos holandeses. Em mais de uma ocasião, o técnico dos laranjas fez questão de sublinhar a diferença de sua equipe com a seleção da época de Cruyff. Numa entrevista recente, aqui na África do Sul, ele disse:
Nós podemos jogar futebol muito bem. Há 20 ou 30 anos, era o ‘futebol total’. Mas o futebol muda. Todo mundo está cada vez mais bem preparado e organizado. Então, quando você joga como estava acostumado a jogar, é mais difícil vencer a Copa do Mundo.
E também falou:
Quando assumi a seleção, eu disse claramente que eu queria ensinar o time a se defender melhor. Isso começa com os atacantes. Dessa forma, você fica mais estável e você pode ter uma boa organização defensiva. No futebol, a posse de bola é importante.
O conflito de ideias entre Cruyff e Van Marwijk ganha tempero especial porque o técnico da Holanda na Copa considera que a equipe mais bem equilibrada do mundo, aquela que combina melhor futebol ofensivo com solidez na defesa, é o Barcelona. “É o time que joga o futebol mais bonito do mundo”, disse Van Marwijk. Cruyff, como se sabe, é uma lenda no Barcelona. Ganhou tudo como jogador e como técnico da equipe.
Ao mesmo tempo, a seleção da Espanha que chega à final da Copa contra a Holanda atuou com seis jogadores do Barcelona na partida com a Alemanha. Para muitos, a Espanha se inspira também na equipe catalã, uma afirmação que causa desgosto aos torcedores do Real Madrid.
O fato é que tanto Holanda quanto Espanha estão longe de jogar um futebol tão ofensivo e brilhante quanto o sonhado por Cruyff. As duas seleções me parecem bem mais pragmáticas que o Barcelona, cujo futebol vistoso foi superado este ano pela Inter de Milão, dirigida por outro pragmático, o português José Mourinho. Sem medo de ganhar jogando feio, quando necessário, as duas finalistas da Copa vão certamente desagradar Cruyff no domingo.
Fotos: AP e Reuters
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Jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 23 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Começou a carreira no "Jornal do Brasil", em 1986, passou pelo "Estadão", ficou dez anos na "Folha de S. Paulo" (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o "Lance!" e a "Época", foi redator-chefe da "CartaCapital", diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor de “História do Lance! – Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo”
