O fator humano: o erro do juiz e o choro do técnico
Quando um árbitro de futebol diz que “errar é humano” pode ter certeza de que ele cometeu alguma grande besteira em campo. A frase é o último refúgio deste grupo peculiar de homens, aparentemente cheios de si, capazes de alterar o rumo de uma partida, afetar o destino de um número incalculável de pessoas e causar prejuízos sem tamanho com uma simples apitada.
Pois foi esta a frase mais ouvida pelos jornalistas que correram ao encontro dos árbitros que estão atuando nesta Copa do Mundo. A proposta da Fifa era mostrá-los durante um treinamento e, em seguida, colocá-los à disposição para entrevistas. Um esforço de humanizá-los, enfim, que foi completado com a proposta de uma atividade lúdica, meio bizarra, abraçada por vários colegas jornalistas – a de viver a experiência de ser bandeirinha por um dia.
Como a Fifa é uma entidade que não preza pela transparência, é óbvio que este encontro tinha dois senões. Os árbitros estavam proibidos de comentar sobre erros cometidos por eles mesmos ou por colegas e não poderiam falar sobre a grande questão hoje em debate, o uso da tecnologia como ferramenta de auxílio às arbitragens.
Carlos Eugenio Simon, o árbitro brasileiro na Copa, seguiu rigorosamente o roteiro definido pela Fifa, mas alguns outros com que tive a oportunidade de conversar se dispuseram a falar um pouco mais. E esse “um pouco mais” foi justamente o reconhecimento de que “errar é humano”.
Sei que isso é muito pouco para o inglês que viu o chute de Lampard entrar 30 centímetros no gol da Alemanha (foto) e não ser validado, ou para o mexicano que assistiu Tevez marcar um gol em claro impedimento, mas é o máximo que os juízes são capazes de admitir. Enquanto a Fifa se recusar a buscar formas mais modernas de esclarecer dúvidas em campo, o fator humano vai prevalecer.
Na tarde do mesmo dia em que ouvi os homens de preto, fui ao Loftus Versfeld, em Pretoria, ver Paraguai e Japão pelas oitavas de final. Foi a pior partida da fase, sem a menor dúvida – 120 minutos de pouco futebol, encerrados com uma decisão por pênaltis.
A seleção que vencesse comemoraria o feito histórico de, pela primeira vez, passar às quartas de final de uma Copa do Mundo. Nem quando sediou o Mundial, em 2002, o Japão conseguiu. Para o Paraguai, que viu os seus principais rivais no continente se classificarem, era também a chance de se colocar no mesmo patamar deles.
Desde o início da partida, o argentino Gerardo Martino, técnico do Paraguai, me chamou a atenção. Inquieto, passou o jogo andando de um lado para o outro, muitas vezes falando sozinho ou reclamando do árbitro belga Frank de Bleeckere. Até que Cardozo cobrou o pênalti decisivo e classificou os paraguaios. Martino, então, sentou no banco de reservas e chorou.
Na entrevista após o jogo, disse: “Estava muito tenso. Foi uma partida muito difícil. Na hora que acabou, chorei mesmo. É uma forma de desabafar. Passam tantas coisas na cabeça... Por que não fazê-lo?”. Tiro o chapéu para Martino.
Foto: EFE/Alberto Estevez
- Enviar por email
- Linkar este post
- Ver regras de uso
-
Compartilhar
Jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 23 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Começou a carreira no "Jornal do Brasil", em 1986, passou pelo "Estadão", ficou dez anos na "Folha de S. Paulo" (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o "Lance!" e a "Época", foi redator-chefe da "CartaCapital", diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor de “História do Lance! – Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo”
