30/06/2010

O fator humano: o erro do juiz e o choro do técnico

Quando um árbitro de futebol diz que “errar é humano” pode ter certeza de que ele cometeu alguma grande besteira em campo. A frase é o último refúgio deste grupo peculiar de homens, aparentemente cheios de si, capazes de alterar o rumo de uma partida, afetar o destino de um número incalculável de pessoas e causar prejuízos sem tamanho com uma simples apitada.

Pois foi esta a frase mais ouvida pelos jornalistas que correram ao encontro dos árbitros que estão atuando nesta Copa do Mundo. A proposta da Fifa era mostrá-los durante um treinamento e, em seguida, colocá-los à disposição para entrevistas. Um esforço de humanizá-los, enfim, que foi completado com a proposta de uma atividade lúdica, meio bizarra, abraçada por vários colegas jornalistas – a de viver a experiência de ser bandeirinha por um dia.

Como a Fifa é uma entidade que não preza pela transparência, é óbvio que este encontro tinha dois senões. Os árbitros estavam proibidos de comentar sobre erros  cometidos por eles mesmos ou por colegas e não poderiam falar sobre a grande questão hoje em debate, o uso da tecnologia como ferramenta de auxílio às arbitragens.

Carlos Eugenio Simon, o árbitro brasileiro na Copa, seguiu rigorosamente o roteiro definido pela Fifa, mas alguns outros com que tive a oportunidade de conversar se dispuseram a falar um pouco mais. E esse “um pouco mais” foi justamente o reconhecimento de que “errar é humano”.

Sei que isso é muito pouco para o inglês que viu o chute de Lampard entrar 30 centímetros no gol da Alemanha (foto) e não ser validado, ou para o mexicano que assistiu Tevez marcar um gol em claro impedimento, mas é o máximo que os juízes são capazes de admitir. Enquanto a Fifa se recusar a buscar formas mais modernas de esclarecer dúvidas em campo, o fator humano vai prevalecer.

Na tarde do mesmo dia em que ouvi os homens de preto, fui ao Loftus Versfeld, em Pretoria, ver Paraguai e Japão pelas oitavas de final. Foi a pior partida da fase, sem a menor dúvida – 120 minutos de pouco futebol, encerrados com uma decisão por pênaltis.
  
A seleção que vencesse comemoraria o feito histórico de, pela primeira vez, passar às quartas de final de uma Copa do Mundo. Nem quando sediou o Mundial, em 2002, o Japão conseguiu. Para o Paraguai, que viu os seus principais rivais no continente se classificarem, era também a chance de se colocar no mesmo patamar deles.

Desde o início da partida, o argentino Gerardo Martino, técnico do Paraguai, me chamou a atenção. Inquieto, passou o jogo andando de um lado para o outro, muitas vezes falando sozinho ou reclamando do árbitro belga Frank de Bleeckere. Até que Cardozo cobrou o pênalti decisivo e classificou os paraguaios. Martino, então, sentou no banco de reservas e chorou.

Na entrevista após o jogo, disse: “Estava muito tenso. Foi uma partida muito difícil. Na hora que acabou, chorei mesmo. É uma forma de desabafar. Passam tantas coisas na cabeça... Por que não fazê-lo?”. Tiro o chapéu para Martino.

Foto: EFE/Alberto Estevez

Por Mauricio Stycer às 09h55
28/06/2010

São Dunga, ou o dia em que minha mãe ficou do lado do técnico

 

“Mauricio, para de criticar o Dunga!”, pediu minha mãe. Ouvi o comentário outro dia, no Skype, conversando com ela e meu pai. Eu na África do Sul, eles no Brasil. Fiquei tão surpreso que nem consegui argumentar. Afinal, minha mãe é daquelas que elogia o filho em qualquer situação. Quer dizer, elogiava... Não elogia mais.

Sempre que escrevo sobre Dunga, aqui neste espaço ou no Blog dos Enviados, criado para acolher os textos dos jornalistas do UOL na África do Sul, percebo que o técnico da seleção foi muito feliz na criação de um personagem clássico – o sujeito perseguido injustamente pela mídia.

Jornalistas nunca tiveram uma imagem muito boa, mas com Dunga estão virando inimigos da pátria. Qualquer que seja o resultado do Brasil na Copa, ele já assegurou um lugar no imaginário popular como o “vingador”, aquele sujeito destemido, capaz de falar “verdades” para os “poderosos”, sem pudor de exibir as garras em defesa dos seus “soldados” (os jogadores), mas ao mesmo tempo um sujeito normal, gente como a gente, bom coração, capaz de se emocionar publicamente com o drama do pai.

Não importa o que se escreva sobre Dunga, sempre haverá comentários na linha: “Vocês estão querendo atrapalhar”. Ou: “Isso não importa: o que interessa é o Brasil ser campeão”. Ou ainda: “Seja mais patriota e deixe o Dunga trabalhar”.

Lamento informar que jornalismo não rima com patriotismo. Não torço contra a seleção brasileira, como alguns leitores já escreveram, mas não torço a favor quando trabalho. 

PS: Comentando esta história com um colega, ele me disse que ouviu pedido semelhante de sua mãe. Ainda não é possível falar em “tendência”, mas quem sabe, daqui a pouco, não surge um movimento das Mães de Jornalistas na Copa em Defesa de Dunga?

PS2: Para quem me pergunta o que ando fazendo aqui, além de falar mal do Dunga, no sábado participei de uma entrevista com o ex-jogador Roger Milla, na qual ele criticou a desorganização do futebol africano, no domingo escrevi sobre o “complexo de vira-lata” das seleções deste continente e, à noite, entendi melhor por que o argentino Marcelo Bielsa, técnico do Chile, é chamado de “Loco”.  

Foto: EFE

Por Mauricio Stycer às 09h15

Sobre o autor

Jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 23 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Começou a carreira no "Jornal do Brasil", em 1986, passou pelo "Estadão", ficou dez anos na "Folha de S. Paulo" (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o "Lance!" e a "Época", foi redator-chefe da "CartaCapital", diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor de “História do Lance! – Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo”

Contato: mauriciostycer@uol.com.br

Sobre o blog

Um espaço para reflexões e troca de informações sobre os assuntos que interessam a este blogueiro, da alta à baixa cultura, do esporte à vida nas grandes cidades, sempre que possível com humor.

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