Sobre homens e marcas: Gilberto Gil e Júlio Cesar na encruzilhada
Dois “cases de marketing”, como gostam de dizer os publicitários, ganharam evidência neste sábado. Um envolve um músico conhecido; o outro, um jogador de futebol.
Gilberto Gil acaba de lançar um CD delicioso, “Fé na Festa”, inteiramente dedicado ao universo das festas juninas. O CD traz 13 canções, nove delas inéditas. É um trabalho que deixa mais uma vez explícita a importância e a influência de Luiz Gonzaga na música de Gil, com seus forrós, xotes, xaxados e baiões capazes de fazer até o mais sisudo dos ouvintes sorrir e mexer o corpo.
Pela primeira vez, Gil recorre a uma empresa privada para viabilizar um trabalho seu. No caso, a Natura, que desenvolve, já há alguns anos, um projeto de apoio à música. Na situação de Gil, porém, o patrocínio acrescenta uma questão peculiar. O músico é filiado ao Partido Verde, o qual disputará as eleições presidenciais com Marina Silva como candidata e Guilherme Leal, co-presidente da Natura, como vice.
Se Gil subir neste palanque, nos próximos meses, estará fazendo isso por conta de suas convicções políticas ou para dar satisfação ao seu patrocinador?
Júlio Cesar, goleiro da seleção brasileira e da Inter de Milão, dava uma entrevista, na sexta-feira, quando foi indagado a respeito da bola que será usada na Copa do Mundo. “Parece aquelas de supermercado”, respondeu. Batizada de Jabulani pela Adidas, que investiu milhões de dólares no seu desenvolvimento, a bola tem desagradado a diferentes atletas, de diferentes países, mas nenhum ainda a havia criticado de forma tão dura e irônica quanto Julio Cesar.
A declaração do goleiro, considerado o melhor do mundo, teve repercussão imediata e rapidamente deu a volta ao mundo, passando pelos Estados Unidos, pela China, e por toda a Europa. Não foram poucos os jornalistas que lembraram o fato de Julio Cesar atuar por duas equipes (a seleção e a Inter) patrocinadas pela Nike, principal concorrente da Adidas. Em resposta, a fabricante da bola recorreu a atletas patrocinados por ela – como o brasileiro Kaká, o alemão Ballack e o goleiro tcheco Petr Cech – para falar das qualidades do produto ridicularizado pelo goleiro.
Repetindo uma pergunta que me foi feita no Twitter, num ambiente em que os principais atletas de ponta são patrocinados por empresas, quem está habilitado a fazer um comentário isento sobre um produto?
Não tenho respostas prontas para as questões levantadas por Gilberto Gil e Júlio Cesar. Ambos colocam problemas relativamente novos, ligados ao mundo do entretenimento, cada vez mais dependente das grandes empresas. Não sou contra o patrocínio a atletas ou músicos. Muito pelo contrário. Mas eles produzem problemas novos, que vão exigir respostas novas.
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Como milhões de pessoas, o paulistano Paulo Gini é um apaixonado por futebol. O que o diferencia é uma tara específica: a coleção de objetos históricos, relacionados ao universo da bola, que acumula há anos.
A entrevista coletiva de Kleberson, domingo, em Curitiba, expôs mais uma vez um jogador tímido, com português limitado, dificuldades de articular ideias originais e temeroso de emitir qualquer opinião – um gênio, enfim, na arte de falar, falar e não dizer nada.
Jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 23 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Começou a carreira no "Jornal do Brasil", em 1986, passou pelo "Estadão", ficou dez anos na "Folha de S. Paulo" (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o "Lance!" e a "Época", foi redator-chefe da "CartaCapital", diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor de “História do Lance! – Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo”
