29/05/2010

Sobre homens e marcas: Gilberto Gil e Júlio Cesar na encruzilhada

Dois “cases de marketing”, como gostam de dizer os publicitários, ganharam evidência neste sábado. Um envolve um músico conhecido; o outro, um jogador de futebol.

Gilberto Gil acaba de lançar um CD delicioso, “Fé na Festa”, inteiramente dedicado ao universo das festas juninas. O CD traz 13 canções, nove delas inéditas. É um trabalho que deixa mais uma vez explícita a importância e a influência de Luiz Gonzaga na música de Gil, com seus forrós, xotes, xaxados e baiões capazes de fazer até o mais sisudo dos ouvintes sorrir e mexer o corpo.

Pela primeira vez, Gil recorre a uma empresa privada para viabilizar um trabalho seu. No caso, a Natura, que desenvolve, já há alguns anos, um projeto de apoio à música. Na situação de Gil, porém, o patrocínio acrescenta uma questão peculiar. O músico é filiado ao Partido Verde, o qual disputará as eleições presidenciais com Marina Silva como candidata e Guilherme Leal, co-presidente da Natura, como vice.

Se Gil subir neste palanque, nos próximos meses, estará fazendo isso por conta de suas convicções políticas ou para dar satisfação ao seu patrocinador?

Júlio Cesar, goleiro da seleção brasileira e da Inter de Milão, dava uma entrevista, na sexta-feira, quando foi indagado a respeito da bola que será usada na Copa do Mundo. “Parece aquelas de supermercado”, respondeu. Batizada de Jabulani pela Adidas, que investiu milhões de dólares no seu desenvolvimento, a bola tem desagradado a diferentes atletas, de diferentes países, mas nenhum ainda a havia criticado de forma tão dura e irônica quanto Julio Cesar.

A declaração do goleiro, considerado o melhor do mundo, teve repercussão imediata e rapidamente deu a volta ao mundo, passando pelos Estados Unidos, pela China, e por toda a Europa. Não foram poucos os jornalistas que lembraram o fato de Julio Cesar atuar por duas equipes (a seleção e a Inter) patrocinadas pela Nike, principal concorrente da Adidas. Em resposta, a fabricante da bola recorreu a atletas patrocinados por ela – como o brasileiro Kaká, o alemão Ballack e o goleiro tcheco Petr Cech – para falar das qualidades do produto ridicularizado pelo goleiro.

Repetindo uma pergunta que me foi feita no Twitter, num ambiente em que os principais atletas de ponta são patrocinados por empresas, quem está habilitado a fazer um comentário isento sobre um produto? 

Não tenho respostas prontas para as questões levantadas por Gilberto Gil e Júlio Cesar. Ambos colocam problemas relativamente novos, ligados ao mundo do entretenimento, cada vez mais dependente das grandes empresas. Não sou contra o patrocínio a atletas ou músicos. Muito pelo contrário. Mas eles produzem problemas novos, que vão exigir respostas novas.

Por Mauricio Stycer às 11h59
28/05/2010

Silvio Luiz anuncia no Twitter que foi "cortado" da Copa e gera protesto

Principal nome das transmissões esportivas do canal BandSports, o irreverente narrador Silvio Luiz foi ao Twitter, no final da manhã desta sexta-feira, para comunicar que não vai mais à África do Sul, durante a Copa do Mundo. “Aviso: BandSports resolveu não me mandar mais para a Copa”, escreveu, acrescentando: “Aviso: não sei o motivo”.

O anúncio do narrador, seguido por 48 mil pessoas no Twitter, provocou reação imediata. Dezenas de seguidores começaram a mandar mensagens pedindo “Silvio Luiz na Copa”. Muitos também postaram mensagens de protesto, inclusive com ofensas, à decisão do canal.

Como relatou Flavio Ricco, no UOL, o diretor-geral da BandSports, Eduardo Ramos, justificou a medida como “uma decisão editorial” e informou que Silvio será utilizado na cobertura da Copa a partir do Brasil. O canal vai enviar 30 profissionais à África do Sul, entre os quais os narradores Eduardo Vaz e Carlos Fernando.

Na emissora, a decisão foi entendida como represália a comentários recentes do narrador no próprio Twitter, com críticas à BandSports. Há uma semana, por exemplo, Silvio reclamou da verba que recebeu para trabalhar num jogo. “Acabo de receber minha verba. 18 mangos para o lanche. a pipoca custa 4 hahahahah”. Também já fez graça com a programação do canal: “BandSports o único canal que apresenta corrida de cavalo depois do páreo terminado hahahah”.

Consultado pelo blog, Eduardo Ramos reafirmou que foi uma “decisão editorial”, sem nenhuma relação com eventuais comentários do narrador no Twitter.

Por Mauricio Stycer às 15h55
27/05/2010

Culpa por “Big Brother” em Weggis foi da CBF, não da imprensa

No esforço de garantir privacidade à seleção brasileira na Copa de 2010, Dunga e a CBF estão sendo bem-sucedidos na construção de um discurso que distorce a realidade. O chamado “big brother” que ocorreu em Weggis, em 2006, com a transmissão ao vivo de treinos da seleção, invasão de campo por parte dos torcedores, a bagunça geral, enfim, não se deu por culpa da imprensa, mas da própria CBF, que tinha interesse em mostrar a popularidade da sua seleção e queria atender aos interesses de diferentes patrocinadores. Com acesso autorizado pela CBF, os meios de comunicação apenas cumpriram seu papel em 2006.

O papel da imprensa, em qualquer situação, é relatar os fatos que estão ao alcance dos seus olhos e revelar tudo que é de interesse público, mas permanece escondido. Poucos assuntos interessam tanto aos brasileiros quanto a sua seleção. Descobrir os limites que separam o interesse do público da invasão de privacidade é um dever dos meios de comunicação – e os leitores, espectadores e ouvintes saberão punir aqueles que ultrapassarem a linha.

Dunga é o responsável pela blindagem da seleção. Entende que esta é a melhor forma de preparar o time para a Copa. Tudo bem. Mas a imprensa não pode se conformar com esta decisão. E não está se conformando.

O que se passa dentro do quarto de um jogador da seleção não interessa ao público, em princípio, e deve ser respeitado, como pediu Rodrigo Paiva, assessor de imprensa da seleção, nesta quinta-feira, em Johanesburgo. Mas no momento em que fatos ou eventos da vida privada tenham reflexo no que interessa ao público eles deixam de ser da esfera exclusivamente privada. Essa é uma regra que vale para a cobertura de qualquer assunto – do cotidiano de políticos ao dos jogadores da seleção brasileira.

Por Mauricio Stycer às 11h37
26/05/2010

Valeu a pena transformar a concentração da seleção num quartel?

Qualquer que seja o resultado da seleção na Copa, Dunga já pode se orgulhar de um mérito: transformou o regime de concentração do Brasil num assunto mais popular que o próprio time. Ao longo dos seis dias de preparação em Curitiba, o torcedor esqueceu que Ganso não foi convocado e que Kleberson vai à África do Sul para se concentrar num debate sobre as vantagens e desvantagens da clausura imposta ao elenco.

Os cerca de 300 jornalistas que acompanharam o cotidiano da seleção no CT do Atlético-PR testemunharam fatos extraordinários, que um dia serão lembrados apenas como anedotas. Por ora, ficam como marcas dolorosas de uma espécie de cruzada, protagonizada por um idealista conservador, que tem grande apelo, mas parece ter pouca chance de vingar porque afronta interesses muito grandes e poderosos.

Dunga decidiu proibir o acesso do público aos treinos da seleção. A razão? As cenas que, para ele, lembraram Sodoma e Gomorra na preparação para a Copa de 2006, em Weggis. Também resolveu restringir ao mínimo o contato dos jogadores com os jornalistas – como se dá em diferentes clubes europeus –, de maneira a ajudar os nossos craques a não se distraírem e focarem na competição.

Esqueceu Dunga que o futebol no Brasil ocupa um lugar único no imaginário e na cultura do seu povo. A seleção brasileira não é o Manchester United ou o Barcelona. A Copa do Mundo não é uma Liga dos Campeões da Europa. O técnico viu-se obrigado, por isso, a tirar alguns bodes da sala, ou seja, a afrouxar algumas decisões autoritárias que tomou, em especial, até agora, a limitação do contato dos jogadores com os torcedores.

“Dunga, bundão, libera o portão!” é um grito de guerra que entrará para a história do futebol brasileiro, assim como “o povo, unido, jamais será vencido” tornou-se uma marca do confronto contra a ditadura. Não importa se o técnico tinha razão, ou não, em querer manter os torcedores à distância. Isolado, sem o apoio da CBF, tornou-se a cara de uma decisão antipática e, pior, mal executada.

Ao abrir o portão para as poucas centenas de “insistentes”, que permaneceram na porta do CT do Atlético, Dunga não se deu conta que estava passando uma mensagem absurda, a saber: fique algumas horas embaixo de garoa na porta que eu te deixarei entrar. Resultado: no dia seguinte, a turma de “insistentes” saltou da casa de centenas para a de milhares e foi preciso chamar a Tropa de Choque para segurar o portão. Vergonha.

Digamos – e esperamos – que a seleção vença a Copa. Que lição vamos tirar disso? Que a concentração em regime militar de Curitiba foi fundamental na caminhada. Digamos, porém, que o Brasil fique pelo caminho na África do Sul. O que diremos desta experiência no CT do Atlético? Que foi obra de um obssessivo por disciplina e privacidade, cuja principal convicção parece ser a de que para ter um grupo unido é necessário ter inimigos claramente identificados e atacá-los.

Ninguém discute que há muito a reformar e melhorar na estrutura do futebol brasileiro. Mas a forma e a prática sugeridas por Dunga nestes seis dias, ainda que bem intencionadas, sinalizam uma mudança na direção errada.

Por Mauricio Stycer às 07h29
25/05/2010

O colecionador

Como milhões de pessoas, o paulistano Paulo Gini é um apaixonado por futebol. O que o diferencia é uma tara específica: a coleção de objetos históricos, relacionados ao universo da bola, que acumula há anos.

O acervo de Gini soma cerca de 3 mil peças. Apenas da seleção brasileira são quase 200 camisas, desde a Copa de 1958. Tem 16 camisas diferentes usadas por Pelé, uma do São Paulo da Floresta que pertenceu a Friedenreich (1892-1969) e uma de Garrincha (1933-1983) no Flamengo, onde atuou no fim de sua carreira, entre outras preciosidades.

“É um hobby”, diz Gini. Administrador de empresas, 32 anos, o colecionador tem exibido partes de sua coleção em diferentes exposições – no Brasil e no exterior. A mais recente foi uma mostra de 12 camisas da seleção brasileira que percorreu a China – Pequim e Xangai incluídas.

Nesta segunda-feira foi inaugurada a exposição “Pátria de Chuteiras”, em Curitiba. A data da abertura coincidiu com a presença da seleção brasileira na cidade, em sua fase de preparação para a Copa do Mundo na África do Sul. A maior parte das peças na mostra pertence à coleção de Gini – uma reportagem a respeito do evento foi publicada esta manhã no UOL Esporte, com o título Com a mesma tese de Dunga, exposição critica “falta de comprometimento” em 2006.

Vendo a exposição, o espectador se pergunta: por que nenhum destes objetos está no Museu do Futebol, em São Paulo? O espaço, para quem conhece, é o mais moderno museu brasileiro dedicado a esta paixão, mas tem a característica de não exibir peça original alguma, apenas vídeos, reproduções de fotos e réplicas.

Eis um mistério que Gini não se sente confortável em responder, mas que parece estar ligado a alguma divergência entre o colecionador e os responsáveis pelo museu a respeito do empréstimo (ou venda) do material. Ele conta que houve uma longa negociação envolvendo a cessão do seu acervo, mas não explica o que deu errado. O fato é que o Museu do Futebol cabe inteiro num DVD, mas deixa muito a desejar em matéria de objetos que ajudam a contar a história do esporte no país.

Crédito da foto: Flavio Florido/UOL

Por Mauricio Stycer às 07h31
24/05/2010

Kleberson, um gênio na arte de não dizer nada

A entrevista coletiva de Kleberson, domingo, em Curitiba, expôs mais uma vez um jogador tímido, com português limitado, dificuldades de articular ideias originais e temeroso de emitir qualquer opinião – um gênio, enfim, na arte de falar, falar e não dizer nada.

É um perfil surpreendente para um jogador de 31 anos, a completar em junho, campeão mundial com a seleção de 2002, experiência na elite do futebol mundial (duas temporadas no Manchester United) e também no time de maior torcida do país, o Flamengo, onde atua desde 2008.

Compreende-se que jovens talentos do futebol brasileiro apresentem estas dificuldades, ligadas a deficiências na formação básica que receberam ou ao medo de se comprometerem. Mas era de se esperar que Kleberson, a esta altura da sua vitoriosa carreira, fosse capaz de dizer algo mais do que falou na entrevista aos 300 jornalistas que seguem a seleção em Curitiba.

Alguém poderá dizer que a culpa é dos jornalistas, que fazem sempre as mesmas perguntas. Neste domingo, houve de tudo – algumas perguntas óbvias e outras feitas apenas para bajular o jogador, como sempre acontece, mas também ouvi várias indagações pertinentes e criativas. Independentemente do nível das perguntas, as respostas foram todas sem sal, como o leitor pode ver nesta seleção de frases:

“Estou aqui para ajudar no que for possível” (falando do que espera na seleção).

“Trabalhei muito para conquistar a confiança do treinador e vou aproveitar isso, tenho condições de ajudar” (em resposta a uma pergunta sobre a sua má fase e a de seu time, o Flamengo).

“Cada um tem a sua filosofia de trabalho” (quando indagado sobre as diferenças de estilo entre Felipão e Dunga).

“Eu não sou porta-voz de notícia alguma” (em resposta sobre como Adriano está se sentindo fora da seleção).

“Estou muito orgulhoso” (falando do fato de ser paranaense).

 Foto: Flavio Florido/UOL

Por Mauricio Stycer às 07h51

Sobre o autor

Jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 23 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Começou a carreira no "Jornal do Brasil", em 1986, passou pelo "Estadão", ficou dez anos na "Folha de S. Paulo" (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o "Lance!" e a "Época", foi redator-chefe da "CartaCapital", diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor de “História do Lance! – Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo”

Contato: mauriciostycer@uol.com.br

Sobre o blog

Um espaço para reflexões e troca de informações sobre os assuntos que interessam a este blogueiro, da alta à baixa cultura, do esporte à vida nas grandes cidades, sempre que possível com humor.

Busca

Histórico

RSS