24/04/2010

É este o futuro que nos aguarda?

“Preparando para aterrissar, por favor, desliguem os seus livros.”

Kindle? iPad? Cool-er? Você já tem um? O mercado de livros digitais ainda engatinha no Brasil, especialmente por conta do custo dos aparelhos de leitura, mas nos Estados Unidos parece já começar a fazer parte da realidade, como sugere este cartoon de Ward Sutton, publicado na edição de 19 de abril da “New Yorker”.

Por Mauricio Stycer às 17h38

Mesmo quando não é genial, Tim Burton fica muito acima da média

Numa indústria que produz de forma cada vez mais previsível e sem graça, preocupada apenas em agradar sem exigir qualquer esforço em troca, como se todo o público tivesse a mesma idade mental de 12 anos, Tim Burton é quase uma anomalia. Suas produções são sempre surpreendentes e estimulantes. Divertem e fazem pensar.

Para quem não associa o nome aos filmes, estou falando, entre outros, de “Edward Mãos-de-Tesoura”, “Batman”, “Ed Wood”, “Marte Ataca”, “A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça”, “Peixe Grande” e “A Fantástica Fábrica de Chocolate”.

O auê provocado por sua adaptação de “Alice no País das Maravilhas” diz muito deste estado de coisas. Cada projeto novo seu é aguardado com a expectativa que só se reserva a cineastas que podem ser chamados de “autores”, com a diferença que Burton, como pouquíssimos outros, têm sempre à disposição orçamentos milionários para trabalhar. 

Tudo bem, reconheço que “Alice” não é aquela maravilha que esperava, alguns efeitos não funcionam direito em 3D, a ideia de levar a personagem, no final da adolescência, a fazer a mesma viagem da infância parece um pouco óbvia demais. Mas, diante do mundo criado por Lewis Carroll, tiro o chapéu para Burton pela simples audácia de confrontar uma outra visão, tão grandiosa quanto, desta história clássica.

Só a Rainha Vermelha (ou de Copas) criada por Helena Bonham Carter já vale o filme. Vilã para entrar em qualquer antologia, essa personagem de Carroll ganha um tempero especial na adaptação de Burton. Johnny Depp, talismã do cineasta, diverte muito como o Chapeleiro Maluco, e Anne Hathaway cria uma Rainha Branca tão esquisita que chega ser fascinante.

Para usar um slogan da moda, Hollywood pode muito mais – e Tim Burton é um dos raros cineastas capazes de fazer isso pela indústria.

Por Mauricio Stycer às 11h30
23/04/2010

O novo livro de Nick Hornby, mestre da “literatura de entretenimento”

O termo causa algum estranhamento, mas há muita gente séria discutindo o assunto: “literatura de entretenimento”. De forma bem simplificada, seria a literatura que não está nem um pouco preocupada em dialogar, renovar ou provocar o campo literário, mas simplesmente capturar e divertir o leitor, reproduzindo modelos já testados e comprovados.

A literatura policial é o gênero, por excelência, do entretenimento. Mas não só. Num mercado cada vez mais concorrido, diferentes escritores têm sido bem-sucedidos na arte de, sem nenhuma pretensão, provocar o prazer da leitura.

O inglês Nick Hornby é um mestre da literatura de entretenimento. Seu primeiro livro, “Fever Pitch” (1992), lançado no Brasil como “Febre de Bola”, já dá uma ideia do estilo do escritor, ao relatar as suas memórias de infância como torcedor do Arsenal – um misto de paixão e sofrimento por um time que ficou 18 anos sem conquistar título algum.

Mas é em “Alta Fidelidade” (1995), seu primeiro romance, que Hornby se destacou. Lançado no Brasil em 1998, conta a história de Rob Fleming, dono de uma loja de discos raros em Londres, que acha, aos 35 anos, que uma canção de Bruce Springsteen pode ajudá-lo a resolver dilemas existenciais profundos. Maníaco por listas, Fleming descreve desde as “cinco piores separações” da sua vida, ponto de partida do livro, até “as cinco melhores primeiras faixas de lado B de LP”, entre outras maluquices.

Saboroso e divertido para o leitor de qualquer parte do mundo que compartilha das referências musicais e geracionais de Fleming/Hornby, “Alta Fidelidade” se tornou um livro “cult”, gerou um filme de Sthepen Frears, bem mais sem graça, e ainda hoje inspira escritores – ou candidatos – em livros e blogs. Desde então, Nick Hornby vem produzindo regularmente literatura de entretenimento – sem o mesmo sucesso, mas com competência, como mostram “Um Grande Garoto” (1998) e “Como Ser Legal (2002).

No recém-lançado “Juliet, Nua e Crua” (Rocco, 272 págs., R$ 34), Hornby reaparece tão afiado quanto em “Alta Fidelidade”. Com um humor sacana, descreve a saga de um casal adulto, Duncan e Annie, cujo relacionamento é marcado pelo culto a Tucker Crowe, um músico que abandonou a carreira 20 anos atrás sem dar explicações aos fãs.

A primeira frase do romance dá uma ideia do estilo “matador” de Hornby, exímio na arte de fisgar leitores: “Eles haviam voado da Inglaterra até Minneapolis para examinar um banheiro”. Trata-se do WC de um clube noturno, onde Tucker Crowe foi visto antes de ir para o hotel e decidir, abruptamente, encerrar sua carreira. “Para quem adora Tucker Crowe tanto quanto Duncan e mais umas duzentas pessoas no mundo, aquele banheiro é responsável por muita coisa”, observa o narrador.

Não vou estragar o prazer da leitura ao contar apenas mais um detalhe, revelado depois de 20 páginas. Duncan recebe pelo correio um CD com gravações inéditas de "demos" (esboços) de “Juliet”, o LP mais famoso de Crowe, que uma gravadora pretende lançar com o título de “Juliet, Nua e Crua”. Entusiasmado, Duncan escreve no site dedicado ao seu culto que “Nua e Crua” é melhor do que o célebre disco. E a confusão começa quando Annie, irritada, escreve uma outra resenha, falando mal do novo disco.

Como em “Alta Fidelidade”, as referências pop se espalham ao longo de “Juliet, Nua e Crua”, de Bob Dylan à “Família Soprano”, passando por iPod e Wikipédia. É leitura fácil, agradável, pura sedução. Em um fim-de-semana, o leitor dá conta da tarefa.

Por Mauricio Stycer às 15h02

O escritor em busca do leitor

Já que o assunto é “literatura de entretenimento”, vale a pena registrar, também, o lançamento de “O Marido Perfeito Mora ao Lado” (Record, 302 págs., R$ 35), de Felipe Pena, jornalista e professor de comunicação, autor de vários estudos acadêmicos nesta área. Este é o seu segundo livro de ficção – como o primeiro, “O Analfabeto que Passou no Vestibular” (2008), trata-se de um romance policial, ambientado no Rio de Janeiro, repleto de ironias e críticas ao ambiente universitário brasileiro.

Pena tem defendido publicamente a chamada “literatura de entretenimento”.  No seu blog, ele reproduz trecho de uma entrevista que deu a respeito:

O irlandês C.S. Lewis, que morreu em 1963, dizia que a grande leitura não exige perícia ou força; exige, ao contrário, desarme e paixão. Lewis era um defensor do leitor leigo, “comum”, ou seja, “aquele que lê sem nada esperar, que lê simplesmente porque o livro o agarra e ele não consegue mais largá-lo”.

É em busca desse leitor que vai a literatura de entretenimento. E não custa repetir: entretenimento não é passatempo, é sedução pela palavra. É um conceito ao qual se deve atribuir valor artístico e estético. É um termo que não pode ser rotulado ou tratado com preconceito. É um gênero cuja boa tecelagem está entre as mais difíceis e trabalhosas. Tudo é linguagem, mas a narrativa é a base da literatura. Uma história bem contada é a meta que perseguimos.

Como em seu primeiro romance, Pena levanta questões interessantes em “O Marido Perfeito Mora ao Lado”, em especial uma crítica aguda ao ensino de psicologia numa universidade privada de origem religiosa e a promiscuidade cada vez maior entre a classe alta carioca e o tráfico de drogas, além de pintar um retrato pouco edificante desta elite.

Pena, no entanto, ainda busca a forma ideal de colocar em prática o que teoriza a respeito da literatura de entretenimento. Há um excesso de caricatura no seu texto, assim como falta de humor e ironia.  O autor também ainda não encontrou o melhor registro para brincar com as referências – neste caso, eruditas – ao longo do romance. Elas parecem notas de rodapé, inseridas a fórceps. Ainda assim, “O Marido Perfeito Mora ao Lado” diverte e entretém.

Por Mauricio Stycer às 14h58
22/04/2010

Investigando o conteúdo de 50 pacotes de figurinhas

Dando prosseguimento aos estudos que tenho feito sobre o assunto, em nome da investigação jornalística, e exclusivamente em nome dela, comprei um pacotão lacrado com 50 pacotinhos de figurinhas do álbum da Copa 2010. Fiz descobertas surpreendentes e inesperadas, que servirão para dar alento, mas também poderão causar frustração aos que, como eu, tem se ocupado seriamente com este assunto nas últimas duas semanas.

Depois de, laboriosamente, abrir um por um dos 50 pacotinhos, levei um susto ao contabilizar não 250 figurinhas, como esperava, mas 253. Em três envelopes, foram introduzidas seis figurinhas, e não cinco, como se prevê.

Segunda surpresa positiva: entre as 253 figurinhas, apenas uma, o escudo da Coréia do Sul, surgiu duas vezes. Já havia percebido esse fenômeno em compras menores, de 10 ou 20 pacotes de um mesmo lote: quase não aparecem repetidas em sequência.

Não sou muito bom em matemática, mas fiz a seguinte conta: ao comprar 250 figurinhas de um álbum que contém 640, adquiri 40% do total. A página de cada país conta 19 figurinhas, sendo uma delas, o escudo, cromada. Excluindo essa, se a distribuição de figurinhas por país fosse proporcional, eu deveria encontrar nos meus 50 pacotinhos sete ou oito figurinhas das 18 de cada seleção, ou cerca de 40% de cada equipe.

Não foi o que ocorreu. Da Eslováquia, por exemplo, vieram apenas duas figurinhas (11%), do México e do Chile, três (16,6%), da Holanda e do Paraguai, quatro (22%). No outro extremo, vieram 12 (66,6%) da Costa do Marfim e do Japão, 11 (61%) do Brasil, da Inglaterra e da Grécia, e 10 (55,5%) da Argentina, Dinamarca e Honduras.

Outra distorção na proporcionalidade ocorreu em relação às figurinhas que formam a página com os estádios da Copa. São 23 figurinhas deste tipo – não veio nenhum. Já as cromadas são 39 – os 32 escudos dos países, mais outras sete. Na minha compra, vieram 19, ou seja, 48% do total.   

Segundo o jornalista José Roberto Toledo, especialista em pesquisas, essa é uma distorção esperada. Ele dá o exemplo do “cara ou coroa”. Em tese, se você jogar a moeda para o alto dez vezes, um lado deveria cair cinco vezes para cima e outro lado outras cinco. Mas pode acontecer de você jogar a moeda dez vezes, e nove apontarem um mesmo lado. Tudo depende do tamanho da amostra, diz Toledo. 

Em resumo, a compra de um volume grande de figurinhas assegura pouca repetição, mas não garante uma distribuição proporcional por seleção. Como disse no início, esta compra foi motivada pelo interesse jornalístico, e não pessoal. Faltavam dez figurinhas para completar meu álbum na ocasião, ou 1,56% do total. Comprando de uma só vez 40% do total das figurinhas do álbum, eu poderia esperar encontrar quatro figurinhas inéditas – vieram três.

Depois desse esforço de reportagem, já obtive mais três pelo melhor método – a troca. Neste momento, portanto, faltam quatro figurinhas para encerrar a brincadeira.

Em tempo: Meu primeiro estudo sério sobre o tema foi publicado aqui.

Por Mauricio Stycer às 17h53

Nanda Costa é o maior destaque em “Sonhos Roubados”

Duvido que tenha sido combinado, mas o efeito é interessante. No intervalo de uma semana, chegam aos cinemas dois filmes brasileiros sobre adolescentes. O primeiro, “As Melhores Coisas do Mundo”, de Laís Bodanzky, estreou há sete dias. E mereceu um comentário elogioso deste blogueiro. Nesta sexta-feira, é a vez de “Sonhos Roubados”, de Sandra Werneck.

Escrevi no UOL Cinema que se fossem música, um viria no lado A e o outro no lado B de um LP intitulado Brasil Adolescente ou, mais provavelmente, Brasil Teen. Enquanto o filme de Laís Bodanzky apresenta os típicos problemas de um grupo de jovens da classe média paulistana, o de Sandra Werneck documenta as agruras de um trio de meninas dos subúrbios do Rio de Janeiro.

O filme de Sandra Werneck é baseado no livro-reportagem de Eliane Trindade, “Meninas da Esquina”, relato sobre seis adolescentes que recorrem à prostituição como forma de sobrevivência. No filme, elas são condensadas nas histórias de três amigas (na foto do alto, nesta ordem): Sabrina (Kika Farias), Daiane (Amanda Diniz) e Jessica (Nanda Costa)

“Sonhos Roubados” foi escolhido melhor filme do Festival do Rio, em 2009, pelo júri popular. Por sua atuação, Nanda Costa ganhou o prêmio de melhor atriz no festival. A atriz, de fato, se destaca entre as outras duas meninas, bem menos experientes.

Nanda Costa, para quem acompanha, é a Soraia de “Viver a Vida” – uma das melhores personagens da novela. O seu papel, inicialmente pequeno, ganhou corpo numa novela com vilões opacos e quase sem ação. Ela interpreta uma jovem ambiciosa que entende, como a prima mais velha, Dora (Giovanna Antonelli), que o casamento pode ser uma forma de ascensão social. O problema – ou a graça – é que ela resolve cobiçar justamente os dois homens com quem Dora se relaciona. No duelo das duas primas, Nanda Costa está deixando Giovanna Antonelli no chinelo.

Por Mauricio Stycer às 13h53
20/04/2010

Livro e exposições no Rio e em SP mostram a Brasília de Gautherot

Mais que uma data redonda, motivo dos atuais holofotes sobre a capital do país, os 50 anos de Brasília estão sendo úteis para recolocar em pauta algumas discussões importantes a respeito de urbanismo e arquitetura, em especial o papel do planejamento urbano, as distorções não previstas no projeto de Lucio Costa e os graves problemas que a cidade enfrenta hoje.

Há fato material para quem se interessa por estes assuntos no especial Brasília, 50 anos, que o UOL colocou no ar, e em várias outras publicações, especializadas ou não, na internet.

Os 50 anos de Brasília também estão servindo de pretexto para comemorar uma outra data redonda, o centenário de nascimento do fotógrafo francês Marcel Gautherot (1910-1996), que fez sua carreira no Brasil. Nascido em Paris, estudou arquitetura por cinco anos, mas não chegou a se formar. Radicado no Rio de Janeiro a partir do final dos anos 30, fez inúmeras viagens e realizou uma série de trabalhos voltados para o registro arquitetônico.

Amigo de Oscar Niemeyer, foi convidado pelo arquiteto a documentar a construção de Brasília. A partir de 1958, e até meados da década de 60, fotografou as obras, a conclusão dos trabalhos e ainda fez registros na década seguinte. Deixou cerca de 3 mil imagens sobre a cidade, adquiridas, juntamente com o restante de seu acervo, pelo Instituto Moreira Salles.

Um livro, uma exposição no Rio e outra em São Paulo aproveitam a data no esforço de tornar um pouco mais conhecido o trabalho de Gautherot. “Ele nos legou o mais completo acervo visual sobre a arquitetura moderna no Brasil, do qual o registro da construção de Brasília representa o ápice”, escreve Sergio Burgi, um dos organizadores do livro, ao lado de Samuel Titan Jr.

“Brasília” (192 págs., R$ 85) traz 153 imagens feitas por Gautherot, além de um ensaio do arquiteto e crítico inglês Kenneth Frampton, no qual ele chama a atenção para o fato de que o fotógrafo parece ter entendido que Brasília representava a convergência das “visões esclarecidas de uma elite brasileira e a energia heróica dos trabalhadores nômades das classes mais destituídas”.

 

Curiosamente, observa Frampton, as imagens que Gautherot fez dos trabalhadores, “acantonados em seus alojamentos e improvisados abrigos temporários”, não foram publicadas durante a primeira fase da realização de Brasília, “ao contrário do registro supostamente mais objetivo feito pelo fotógrafo oficial Mario Fontenelle”.

Cerca de 80 imagens feitas por Gautherot serão exibidas, a partir do dia 21, e até o dia 30, na fachada do Conjunto Nacional, na Avenida Paulista. A projeção ocorrerá, de forma ininterrupta, das 19h às 5h, ao longo de toda a parede do prédio, que tem seis metros de altura por 35 metros de comprimento.

No dia 30 de abril, o IMS inaugura em sua sede, no Rio, a exposição “As construções de Brasília”, reunindo 157 imagens, de Gautherot, Thomaz Farkas e Peter Scheier, sobre a construção e inauguração da capital federal. A mostra, aberta até 25 de julho, traz também 44 obras de artistas modernos e contemporâneos que abordam Brasília – uma cidade, como diz a curadora Heloisa Espada, “que foi, entre outras razões, projetada para ser fotografada”. Fotos que integram a exposição podem ser vistas aqui.

A foto no alto do post retrata a construção da Esplanada dos Ministérios, em 1958. O fotógrafo aparece num registro de 1946. A imagem no meio do post é do esqueleto do Congresso Nacional, em 1958. E a imagem mais abaixo é de uma mulher diante de uma moradia improvisada em acampamento ao redor do lago Paranoá, em 1958.

Crédito: Marcel Gautherot/ Acervo Instituto Moreira Salles

Por Mauricio Stycer às 15h44
19/04/2010

Conquista gloriosa do Botafogo não esconde limitações do time

Ganhar do Flamengo e do Vasco no intervalo de quatro dias e ainda faturar a Taça Guanabara não tem preço. Conquistar a Taça Rio depois de vencer o Fluminense e o Flamengo em oito dias, igualmente, é alegria demais para um botafoguense só.

O Botafogo é campeão carioca – ou do Estadual do Rio, como preferem os paulistas –  com uma campanha e autoridade que não exibia há muito tempo. Só para se ter uma ideia, em 2006, ano do último título, o Botafogo conquistou a Taça Guanabara e disputou a final do campeonato contra o Madureira, o vencedor da Taça Rio.

A festa nas ruas do Rio na noite de domingo comprova que este foi um título com sabor especial. Não apenas por ter batido todos os rivais, mas pelas peculiaridades da campanha e do time montado. Com um técnico esperto e boa-praça como Joel, uma dupla de ataque formada por um uruguaio com apelido de Loco e um argentino raçudo, a revelação de uma jovem promessa (Caio) e um goleiro iluminado na final, o Botafogo superou uma humilhação inicial (6 a 0 contra o Vasco) e, como em outros momentos históricos, fez jus a um de seus lemas: “o Bota é fogo, o resto é cinza”.
 
Comemorei muito este título, em São Paulo, onde vivo. Fui dormir preocupado, no entanto, depois de ler uma declaração do presidente do Botafogo, Mauricio Assumpção, logo depois da conquista. Empolgado, ele declarou: “Quero a Libertadores. Vamos atrás desse sonho agora. Vamos comemorar este titulo, curtir bastante o momento. Com esse time eu vou até a Lua”.

Gostaria de lembrar ao presidente os seguintes fatos. Pelo quinto ano consecutivo, o Botafogo disputou a final do Campeonato Carioca. Nestes cinco anos, venceu três vezes (2006, 2009 e 2010) a Taça Guanabara e três vezes a Taça Rio (2007, 2008 e 2010). Foi campeão do estadual em 2006, vice-campeão nos três anos seguintes e voltou a ser campeão este ano.

Olhando assim, é um excelente retrospecto e mostra que a equipe pode ser considerada hoje a segunda maior força do futebol no Estado do Rio. Pensando, porém, no desempenho do Botafogo no Campeonato Brasileiro, constatamos que ser uma potência contra os seus rivais estaduais significa pouco em termos nacionais. Em 2006, o Botafogo terminou o Brasileiro em 12º lugar; em 2007, em 9º; em 2008, seu melhor ano, em 7º; e em 2009, em 15º.

Com exceção do Flamengo (11º em 2006; 3º em 2007; 5º em 2008 e campeão em 2009), os outros rivais estaduais do Botafogo também decepcionaram em termos nacionais nos últimos quatro anos. O Fluminense foi 15º em 2006, 4º em 2007, 14º em 2008 e 16º em 2009. Já o Vasco terminou em 6º lugar em 2006, 10º em 2007 e 18º em 2008, não disputando a Série A em 2009.

Parece óbvio, a todos que acompanham o futebol, que o Carioca não serve mais como parâmetro para avaliar a força de uma equipe. O Botafogo, nos últimos anos, vem fazendo um grande esforço no sentido de se reorganizar, abater parte de suas dívidas e corrigir os erros e desmandos administrativos do passado. Mas ainda falta muito para poder ser chamado de um clube competitivo no cenário nacional.

Acreditar, como disse Assumpção, que o título de 2010 credencia este time a disputar uma vaga na Libertadores é querer iludir a si próprio e aos torcedores.

Crédito da foto: AP/Felipe Dana

Por Mauricio Stycer às 11h24
18/04/2010

Trocando figurinhas entre “tiozinhos”: uma experiência pessoal

O aviso, postado numa comunidade do Orkut, informava: “Livraria Cultura, Conjunto Nacional, sábado, 15h”. Cheguei atrasado, um pouco antes das 16h. Não encontrei ninguém. Cabisbaixo, saí da livraria, contornei a galeria e, então, surpresa... Dei de cara com duas dezenas de pessoas, sentadas no chão, agachadas ou mesmo em pé – trocando figurinhas alucinadamente. “A Livraria expulsou a gente”, explicou uma moça, descendente de japoneses, 25 anos.

Tinha gente de todas as idades no encontro. Desde um menino de 8 anos, acompanhado da mãe, do pai e da avó, todos trocando figurinhas, até vários “tiozinhos”, como eu, com mais de 40, talvez até mais de 50. Segurando meu pacote de repetidas, não tive coragem de perguntar a idade de uns caras de cabelo grisalho.

Colecionei muita figurinha na infância, no Rio. O último álbum que fiz, se não me falha a memória, foi o da Copa de 74. Em 1994, como repórter da “Folha”, participei da cobertura da Copa nos Estados Unidos. Quatro anos depois, em São Paulo, retomei o hábito de fazer o álbum oficial. Faltando três figurinhas, escrevi uma carta à Panini, que enviou as que completavam a minha coleção.

Em 2002, troquei muitas figurinhas com o filho da dona da banca de jornais perto da minha casa. Para o meu constrangimento, ele tinha 10 anos. Eu deixava meu pacote de repetidas com a D. Silvia, que o levava para casa e o trazia no dia seguinte, junto com as repetidas do filho. Completei o álbum bem antes de a Copa acabar.

Em 2006, percebi um movimento maior de troca de figurinhas entre adultos. Perto da banca onde passei a morar, o dono dela, o Rino, colocou duas mesas nos finais de semana, para a troca. Em dois finais de semana, completei o álbum, trocando figurinhas com crianças e adultos.

Este ano, a adesão de “tiozinhos” está ainda maior. Não sei a razão. A abordagem entre os adultos na hora da troca se dá de duas formas. A mais direta é: “Posso ver as suas repetidas?” A mais prática é: “Faltam quantas pra você?” Digo que é a mais prática porque o ideal é trocar com quem está precisando de um número semelhante ao seu.

Diferentemente do que ocorre nas trocas entre crianças, os adultos são mais organizados. Quase todos apresentam as suas repetidas na ordem, o que facilita muito a troca. A certa altura, comecei a dispensar fazer negócios com quem não tinha o seu bolinho arrumado.

Para minha surpresa, e alegria, logo percebi que ali, entre adultos, há muita flexibilidade nas regras que regem as trocas. Encontrei dez figurinhas que não tinha no bolo de um rapaz de 30 anos e ele achou apenas três no meu bolo. “Pode ficar com as dez e me dá sete quaisquer”, ele propôs. Adotei a política em todas as demais trocas, quando a situação inversa ocorreu comigo.

Os colecionadores mais experientes deixam os escudos das seleções à parte e só os trocam por outros escudos. São as chamadas “brilhantes” ou “prateadas”. Diferentemente do que ocorria no passado, hoje não há mais “figurinha carimbada”, aquela que ninguém tem. As necessidades de cada um são diferentes. Vi um sujeito comemorar porque encontrou a figurinha de Blanco, do México, no meu bolo – eu tinha três iguais.

Encontrei uma mulher com mais de 40 e sua mãe; um casal de namorados; várias duplas formadas por pai e filho; mulheres sozinhas e, até, um garoto de 13 anos. Foi dele a frase que registrei com um sorriso nos lábios: “É mais pra te ajudar”, ele disse quando observei que ele ficou em desvantagem na nossa troca – peguei quatro dele e ele encontrou apenas duas que o interessavam no meu bolo de figurinhas.

Perdi a noção do tempo. Fiquei quase duas horas trocando figurinhas. Cheguei no local precisando de 93 para completar meu álbum. Achei 75. As 18 que ainda faltam espero trocar em breve por aí.

PS: Neste domingo de manhã fui à banca do Rino. Maior festa. Crianças, adolescentes, adultos – e muitos “tiozinhos”. Consegui mais oito. Só faltam 10!

Por Mauricio Stycer às 12h10

Sobre o autor

Jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 23 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Começou a carreira no "Jornal do Brasil", em 1986, passou pelo "Estadão", ficou dez anos na "Folha de S. Paulo" (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o "Lance!" e a "Época", foi redator-chefe da "CartaCapital", diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor de “História do Lance! – Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo”

Contato: mauriciostycer@uol.com.br

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Um espaço para reflexões e troca de informações sobre os assuntos que interessam a este blogueiro, da alta à baixa cultura, do esporte à vida nas grandes cidades, sempre que possível com humor.

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