17/04/2010

Adolescentes “engolem” atores adultos no filme de Laís Bodanzky

O ambiente é uma escola de classe média, em São Paulo. Estudantes na adolescência vivem as típicas agruras e alegrias da idade, apimentadas pelas facilidades oferecidas pelo século XXI: a descoberta do sexo, os namoros, o consumo de drogas e bebidas alcoólicas, a relação com os pais – e o “cyberbullying”, o assédio via internet.

“As Melhores Coisas do Mundo” está longe de ser o primeiro filme a tratar deste universo. Mas Laís Bodanzky exibe uma competência pouco usual no cinema brasileiro. Um grande roteiro, ótimos diálogos, fotografia excelente e um elenco de não-atores extraordinário já colocam este longa-metragem na lista dos melhores brasileiros do ano.

Os meninos e meninas na faixa de 15 a 17 anos que atuam em “As Melhores Coisas do Mundo” impressionam. Parecem atores profissionais, o que nunca foram. Estão tão à vontade que “engolem” os atores profissionais. Caio Blat, Denise Fraga, Paulo Vilhena e Zé Carlos Machado parecem constrangidos, deslocados, no meio daquele ambiente.

Os dois jovens que vivem os irmãos protagonistas da história, Francisco Miguez e Fiuk, especialmente o primeiro, roubam a cena, assim como a menina Gabriela Rocha. Em torno deles, muitos outros adolescentes não-atores atuam como se estivessem na escola, e não num set de filmagem.

Como um vampiro, no bom sentido, “As Melhores Coisas do Mundo” se alimenta da juventude do seu elenco de adolescentes para divertir, comover e fazer o público pensar. Jovens e adultos não devem perder este filme. Assisti sexta-feira à noite, numa sala de cinema quase vazia, em São Paulo.

Por Mauricio Stycer às 12h39
16/04/2010

"Jogo bonito" x "guerreiro": existe um estilo brasileiro de jogar futebol?

Esta é uma discussão quase tão antiga quanto a introdução do esporte no país, e tem ocupado não apenas jornalistas mas também antropólogos, sociólogos e outros estudiosos na universidade. Existe um “estilo brasileiro” de jogar futebol? José Geraldo Couto faz uma boa síntese deste assunto no livro “Futebol Brasileiro Hoje”, lançado no final de 2009.

Couto reconhece a existência de traços especificamente brasileiros no futebol, como a maleabilidade, o improviso e a “malandragem”, mas rejeita as análises que associam certos traços à questão racial. Esses traços encontráveis no futebol brasileiro, escreve, “se devem menos a supostos fatores raciais do que às circunstâncias socioculturais em que o jogo se desenvolveu entre nós”.

Com argúcia, a Nike captou muito bem o espírito do “futebol brasileiro” ao associá-lo ao slogan “jogo bonito” em suas campanhas publicitárias. Um dos principais patrocinadores da seleção brasileira, o fabricante de material esportivo vem há anos vendendo esta ideia – e milhares de camisas da seleção – no Brasil e no mercado internacional.

Numa direção contrária a esta, anúncios recentes da Brahma procuram associar a seleção não ao talento do jogador brasileiro, mas ao seu espírito de luta – “guerreiro” – em campo. A campanha publicitária que a indústria de bebidas adotou para esta Copa do Mundo explora uma característica jamais exaltada no futebol praticado no país.

Nem mesmo a seleção que venceu a Copa de 94, criticada pelo futebol pouco vistoso, foi elogiada por sua “garra”. Parreira foi saudado por montar um esquema de jogo “competente”, com um sistema defensivo “sólido”, por conseguir manter um grupo “unido”, mas não especialmente por ter um time “raçudo” ou “guerreiro”.

Na mais recente publicidade da Brahma, o técnico Dunga diz: “Eu falo pouco, mas falo como um guerreiro. Quero raça! É nossa hora! Tem que jogar com o coração!” O goleiro Julio Cesar grita: “A gente é o quê?” E um grupo de jogadores responde: “Guerreiro!”

O título da campanha é justamente “Poucas palavras”. Além da raça, procura assim associar o futebol brasileiro a uma outra característica que não é exatamente a sua – a objetividade. Acho, ao contrário, para o bem ou para o mal, que pratica-se um futebol de “muitas palavras” no país.

De certa forma, o confronto entre o jogo "bonito" e o jogo "guerreiro" diz muito das expectativas e frustrações do torcedor com a sua seleção. É melhor vencer jogando feio do que perder jogando bonito, argumentam os torcedores pragmáticos. Mas, um pouco como ocorre com os torcedores do Barcelona, há um grande contingente de brasileiros que não admite ver a sua seleção jogando "feio".

É, enfim, uma campanha muito ousada. Exige que o espectador reconheça o talento da seleção em palavras que não combinam com o que se cristalizou como a ideia de um “estilo brasileiro” de jogar. Conta a favor  da publicidade o fato de a atual seleção apostar em jogadores como Julio Baptista, em oposição a Ronaldinho Gaúcho, mas, mesmo assim, não acredito ser possível convencer o brasileiro que o seu estilo de jogar futebol mudou.

Por Mauricio Stycer às 13h13

Onde o sertão mineiro encontra a África de séculos atrás

“Terra Deu, Terra Come”, de Rodrigo Siqueira, é uma das boas surpresas do festival É Tudo Verdade. O filme tem duas sessões em São Paulo: nesta sexta-feira, às 21h, no Espaço Unibanco, e no sábado, às 15h, no mesmo cinema. Publiquei no UOL Cinema o texto Documentário resgata a cultura de quilombo mineiro, no qual falo das muitas qualidades deste documentário. Reproduzo abaixo um texto, divulgado para a imprensa, no qual Siqueira relata, em primeira pessoa, o seu envolvimento com o filme.

Na virada de 2004 para 2005, estava mergulhado e enredado pelo livro “Grande Sertão: Veredas”, do escritor mineiro João Guimarães Rosa, um dos mais importantes romancistas de língua portuguesa. Famoso por atrair ao sertão de Minas Gerais estrangeiros de todos os cantos do mundo, o livro fez com que eu e minha mulher imprimíssemos uma viagem em busca do sertão mítico e profundo retratado por Guimarães Rosa. “O sertão está dentro da gente”, diz Riobaldo, o personagem principal do livro.

No meio do caminho, encontrei o sr. Pedro de Almeira, conhecido como Pedro de Alexina, guardião das tradições fúnebres que os africanos trouxeram para a região de Diamantina, no século 18. A mistura de diferentes povos da África nas minas de diamante fez nascer na região o dialeto banguela, que fundia as línguas destes povos ao português. Do dialeto, sobraram apenas algumas cantigas de trabalho e de rituais fúnebres, conhecidas como vissungos. O encontro com Pedro de Alexina transformou minha viagem em uma expedição ao imaginário da tradição oral que remonta aos povos andantes, que carregavam suas histórias fantásticas entre a Índia, a China, a África e o Oriente Médio.

Seguimos nossa viagem sob a sensação de termos encontrado o que nos parecia uma Sherazade personificada em um griô africano. Suas histórias emendam umas nas outras, misturando os contos populares ao mundo vivido e a uma miríade de mitos de diferentes origens. Dois anos depois, em maio de 2007, voltei ao Quartel do Indaiá, comunidade remanescente de quilombo, para fazer um filme com seu Pedro. Desta vez, minha viagem foi muito mais longe. Em 30 dias, seu Pedro me transportou para um espaço e tempo indefinidos, distantes, mas ao mesmo tempo muito próximos das minhas memórias de infância em Minas, próximas do meu “sertão interior”.

Mediado pela imaginação, pela memória dos antepassados e de suas histórias pessoais, Pedro me levou a um lugar onde o sertão mineiro encontra a África de séculos atrás, onde a morte encontra a vida e onde Deus e o “Outro” coexistem todo o tempo. Das mais de 40 horas de material que produzi sobre esse lugar e sua gente, poderia fazer diversos filmes diferentes. Mas apenas um tomou parte em mim, pro bem e pro mal, como em um contrato com o Demo. Uma parte que me ecoa até hoje, como se fosse uma história fantástica ouvida por uma criança em noite de lua. Mais que uma experiência fílmica, posso dizer sem demagogia, seu Pedro tornou-se um companheiro que me ajuda a traçar a minha passagem por aqui.


Aqui, você pode assistir um trailer do filme:

 

Por Mauricio Stycer às 00h13
15/04/2010

Rita Cadilac é bom para o moral

Estreia nesta sexta-feira, no Rio e em São Paulo, o documentário “Rita Cadillac – A Lady do Povo”, de Toni Venturi. O filme passa em revista a trajetória da mais famosa chacrete brasileira, descreve os muitos percalços de sua carreira e mostra, também, o cotidiano da dona-de-casa Rita. Na minha opinião, é uma bela homenagem, mas ficou devendo algumas explicações sobre o fenômeno, como escrevi no UOL Cinema.

Como diz o refrão de uma das músicas que gravou: “É bom para o moral”.

Por Mauricio Stycer às 15h59

Um livro sobre uma música? Bob Dylan e “Like a Rolling Stone” merecem

(Atenção: Você pode ler este post ao som de “Like a Rolling Stone”. Clique aqui  e ouça a canção na Rádio UOL)

Desconheço outro músico contemporâneo que tenha merecido tantos livros quanto Bob Dylan. Obra, carreira e vida de Robert Zimmerman já foram objeto de um sem número de estudos acadêmicos, ensaios, biografias (sérias e sensacionalistas), fotobiografias, songbooks, para não falar dos vários documentários, filmes de ficção e programas de tevê dedicados a refletir sobre diferentes aspectos de sua trajetória.

O próprio Dylan é também autor de alguns livros – obras de ficção, infantis e memórias – que são lidos e estudados com afinco por quem se interessa em decifrar o seu mundo.

Nenhum estudioso, porém, chegou ao nível de detalhe que Greil Marcus. Publicado originalmente em 2005, chega agora ao Brasil “Like a Rolling Stone – Bob Dylan na encruzilhada” (Companhia das Letras, 252 págs., R$ 34), na qual o crítico se debruça basicamente sobre a canção que dá título ao livro.

Gravada nos dias 15 e 16 de junho de 1965, “Like a Rolling Stone” é um marco na carreira de Dylan por vários motivos. Tornou-se símbolo da virada ocorrida pouco antes, quando o músico trocou o violão e a canção de protesto pela guitarra elétrica. E ajudou uma geração de americanos a vislumbrar, nas palavras de Marcus, “um país não desbravado”, e a enxergar caminhos alternativos ao universo conservador da época.

“Foi uma espécie de epifania comum, a reunião de um inconsciente coletivo”, escreve Marcus, que tinha 21 anos quando a música entrou para o hit parade, em julho de 1965. “A canção derretia a máscara do que estava começando a ser chamado de cultura jovem, e ainda mais completamente a máscara de cultura moderna enquanto tal”.

Entre as muitas curiosidades contadas no livro, chama a atenção a dificuldade inicial que “Like a Rolling Stone” teve para tocar nas rádios. Sua duração – seis minutos – era (e ainda é) absolutamente incompatível com a programação da maioria das emissoras de rádio. A gravadora, então, enviou a música dividida em duas partes, de três minutos cada, oferecendo a possibilidade de apenas metade ser tocada.

Um executivo da gravadora Columbia, ao ouvir a música, mandou regravar a voz de Bob Dylan. “É incompreensível”, teria dito. O produtor, obviamente, não atendeu a recomendação.

No ano seguinte, em turnê pelos Estados Unidos e Inglaterra, Dylan enfrentou vaias em todos os shows que fez, em protesto contra a sua nova fase, mais rock´n´roll. Num episódio que se tornou lendário, num show em Manchester, enquanto cantava “Like a Rolling Stone”, alguém na plateia gritou “Judas”. O momento está registrado no CD duplo “Live 1966: The "Royal Albert Hall" Concert”, lançado em 1998

Com coragem e liberdade, Marcus analisa a canção de Bob Dylan sob diferentes aspectos, numa sucessão de imagens e num ritmo vertiginoso, que mostram a possibilidade de entrelaçar rigor e paixão num objeto de estudo. Por conta do estilo (abusa de frases longas), às vezes, é difícil acompanhar o seu raciocínio, mas de um modo geral o livro flui muito bem.

O crítico, além disso, busca fios da canção que o obceca em outros trabalhos de Dylan, especialmente em “Tangled Up in Blue”, do genial “Blood on the Tracks”, de 1975, e em “Highlands”, do disco “Time out of Mind”, de 1997. Marcus fala muito, também, de “Highway 61 Revisited” e “Desolation Row”, ambas lançadas no mesmo LP que “Like a Rolling Stone”, e ainda de “Mr. Tambourine Man”, do álbum anterior de Dylan.

Todas estas canções – e algumas outras - podem ser ouvidas numa seleção preparada pela Rádio UOL.

Mesmo quem não é tiete reconhece que poucos músicos pop criaram um universo tão rico e complexo, ao longo de tanto tempo (está na estrada desde 1961), quanto Bob Dylan. “Like a Rolling Stone” – a música – é um dos melhores exemplos disso. E o livro, leitura obrigatório para seus fãs.

No site da editora é possível consultar a letra da música e uma versão em português, traduzida por Eduardo Bueno. Clique aqui  para ir à página da editora ou aqui para ir direto ao arquivo (pdf). 

Por Mauricio Stycer às 10h12
14/04/2010

Caso do “serial killer” de Luziânia seria inverossímil em “Law & Order - SVU”

Séries policiais americanas inspiradas em histórias reais e reencenadas de um jeito meio tosco, mas muito competente, abundam na tevê paga brasileira. Há de todos os tipos, para todos os gostos. A minha favorita é “Law & Order – Special Victims Unit”, exibida pelo canal Universal.

Para quem não sabe, o seriado está na 11ª temporada e nasceu de uma costela de “Law & Order”, que vai entrar em seu 21ª ano. Conta a história de uma unidade da polícia de Nova York especializada em crimes sexuais. É protagonizada pela dupla de agentes Eliot Stabler, vivido por Christopher Melloni, e Olivia Benson, interpretada por Mariska Hargitay (em primeiro plano na foto ao lado).

A delegacia especializada, dirigida por um delegado, conta com outros detetives, um psicólogo e trabalha em sintonia com médicos legistas e um promotor de Justiça. Os policiais investigam a cada episódio de uma hora um único caso, sempre repleto de desdobramentos, mas cuja origem está sempre relacionada a algum desvio de comportamento sexual.

Segundo li em sites especializados, já há alguns anos “Special Victims Unit” faz mais sucesso que a série a qual deve o seu nascimento. Imagino que seja por causa do misto de fascínio e terror que as histórias protagonizadas por criminosos sexuais provoquem – ainda que a qualidade do elenco e a direção deixem muito a desejar.

Fiz este longo preâmbulo para dizer que, por estar acostumado a assistir a série, não me surpreendi com a notícia hoje nos jornais de que, em janeiro deste ano, uma promotora alertou a Justiça sobre o risco de manter sem fiscalização o pedreiro Adimar Jesus da Silva, condenado por pedofilia e libertado depois de cumprir parte da pena.

Em seu despacho, a promotora Maria José Miranda Pereira dizia que “não existe ex-estuprador”, mesma tese que defendem os policiais e promotores em “Special Victims Unit”. No seriado americano, porém, os personagens já condenados por crimes desta natureza costumam ser monitorados quando deixam a prisão – em alguns Estados, vivem sob vigilância eletrônica.

Quem assiste a série já viu mais de um episódio em que o criminoso é algum estuprador reincidente - com passagem anterior pela polícia e, mesmo, pela prisão. Mas, a julgar pelo que mostra o programa, um caso como o deste “serial killer” de Luziânia não poderia servir de inspiração para “SVU”. Soaria inverossímil um condenado por estupro ser capaz de matar seis jovens - ao longo de 100 dias - depois de deixar a prisão. 

Por Mauricio Stycer às 13h19
13/04/2010

Farpas no mundo do humor

Um pouco depois da meia-noite de segunda-feira, praticamente no mesmo instante, Marcos Mion e Pedro Tourinho, da equipe do programa “Legendários”, colocaram em seus respectivos perfis no Twitter um resultado parcial do Ibope que mostrava a rede Bandeirantes em quarto lugar, atrás da Globo, Record e SBT. Naquele momento, o programa "CQC" lutava para se manter com 4 pontos de audiência.

Como nenhum dos dois tem o hábito de postar resultados do Ibope no Twitter, um usuário que faz isso frequentemente, Renato Bonfim (@uedious), os alertou: @pedrotourinho @mionzera Tentem postar apenas os (números) corrigidos, já que tem uma grande diferença depois.”. No sábado, em sua estreia, "Legendários" teve média de 10 pontos.

Algumas horas antes, Mion havia colocado em seu Twitter uma mensagem desejando sucesso aos integrantes do "CQC": “Grandes @danilogentili, @rafinhabastos, @andreolifelipe, @marcoluque e @marcelotas, bom programa hoje! Arrebentem! Tamo torcendo!Mesmo! #vibedobem”.

"Vibe do bem"?

Nos dias que antecederam a estreia de “Legendários”, Danilo Gentili deu início à publicação no Twitter de uma série de comentários sem graça, sob o título “humor do bem”. Por exemplo: “Em excursão ao Amazonas homossexual encontrou índio pelado e disse: ‘nós 2 sofremos muito preconceito vamos formar uma ONG’.”

Trata-se de uma referência evidente à proposta anunciada por Mion em “Legendários” de fazer um “programa (que) tem como características a busca pela qualidade, pelo humor criativo e pelo bem”. 

Na estreia, sábado à noite, Mion anunciou: “A gente pode não mudar o mundo, mas estamos tentando”. Outro concorrente, Emilio Surita, do “Pânico”, fez piada com a modéstia do rival: “Não queremos mudar o mundo. Vamos nos divertir”.

Agora, só falta os veteranos do “Casseta e Planeta” entrarem na brincadeira...

Por Mauricio Stycer às 13h24
12/04/2010

Com “pegadinha” politicamente correta, “Legendários" tem estreia sem graça

Maior novidade da Record neste primeiro semestre, “Legendários” estreou na noite de sábado com a nada modesta ambição de apresentar “novas formas de diversão”, “fazer entretenimento com qualidade, sem apelação”, enfim, renovar a televisão brasileira. “A gente pode não mudar o mundo, mas estamos tentando”, anunciou Marcos Mion, idealizador, diretor e apresentador do programa.

Emocionado, talvez, com o tamanho da proposta, Mion fez meia dúzia de juras de amor à Record, “uma das maiores tevês do planeta”, ao longo dos 85 minutos da atração – os primeiros 60 sem intervalo comercial. Também louvou o próprio talento e o de sua equipe uma dezena de vezes. João Gordo foi tratado com a reverência que se dedica a Michelangelo e outros gênios da humanidade

Para tentar amenizar o momento “chapa-branca” e fazer jus à fama de iconoclasta que o consagrou na MTV, Mion abriu o programa imitando um pastor pregando para seu rebanho no céu. Neste papel, criticou o comportamento moralista de quem comete pequenos crimes ou pecados no dia-a-dia, mas não admite ouvir palavrão na televisão.

Depois, em outro rasgo de rebeldia, “homenageou” algumas das maiores derrapadas da história recente da tevê brasileira – com menções nada sutis a Faustão, Gugu Liberato e João Kleber. E, em outro quadro, fez gato e sapato dos programas de comércio televiso, tipo “Shop Tour”.

A maior novidade de “Legendários”, porém, foi o tom politicamente correto do programa. Mion prometeu “não rir de ninguém”, mas apenas divertir. No quadro mais longo, comandando por Elcio Coronato, apresentou duas “pegadinhas do bem”, destinadas a mostrar o preconceito do brasileiro.

No primeiro, os clientes de um shopping podiam fazer massagem gratuita com três profissionais – um negro, uma mulher loira e um gay afeminado. O negro não foi escolhido por ninguém. No segundo, esses mesmos três personagens entravam e saiam juntos de uma loja. No momento em que deixavam o local, faziam disparar o alarme do estabelecimento – os seguranças correram, na maioria das vezes, na direção do homem negro.

Testes deste tipo ajudaram a fazer a fama do programa “TV Nation”, criado, dirigido e apresentado por Michael Moore na década de 90. Num quadro célebre, um homem negro tentava pegar um táxi na rua em Nova York. Dez metros à frente dele, um homem branco tentava o mesmo. Os táxis só paravam para o segundo.

Em outro quadro politicamente correto, Felipe Solari saiu pelas ruas vestido como uma árvore para criticar a poluição. Depois, Mion levou sua equipe para o campo com o objetivo de plantar árvores. Segundo ele, foram plantadas 6.538 árvores – o equivalente a todo o carbono que o programa vai emitir em um ano.

Curioso como programa ongueiro, “Legendários” ficou devendo muito enquanto humorístico. João Gordo de “marronzinho”, aplicando “multas”, não teve graça nenhuma. Miá Mello, como “Teena”, a adolescente, entrevistando Chitaozinho e Xororó, foi incompreensível. Jaque Khoury “ilustrando” um quadro sobre “música brochante” nem merece comentários. Idem idem a turma que fazia "Hermes e Renato".

Ambicioso, o programa de Marcos Mion testou vários caminhos, o que é elogiável, mas não encontrou o tom nem o rumo na estreia. Segundo a assessoria de imprensa da Record, “Legendários” alcançou média de 10 pontos no Ibope, contra 8 que a emissora obtinha anteriormente no horário.

Por Mauricio Stycer às 09h46
11/04/2010

As lutas de John Lennon e Daniel Ellsberg contra a guerra do Vietnã

Por uma grande coincidência, dois filmes sobre um tema idêntico, a resistência pacífica à guerra Vietnã, estão sendo exibidos ao mesmo tempo no Brasil. São dois documentários, um de 2006 e outro de 2009, ambos muito bons, mas com personagens muito distintos.

O mais antigo é “Os EUA x John Lennon”, de David Leaf e John Scheinfeld. Descreve o envolvimento do músico nas manifestações pacifistas e o esforço do governo americano para expulsá-lo do país. É um filmaço – e não apenas para os fãs de Lennon.

O documentário apresenta, para quem não conhece direito, os principais personagens do movimento civil que levou multidões de jovens às ruas para protestar contra a guerra e a política oficial. Lennon (ao lado de Yoko Ono) age inicialmente de forma individual, por instinto. É desse período a famosa performance "Bed-in for Peace", na qual a mídia é convidada a entrevistar e fotografar o casal passando a lua-de-mel na cama, assim como a canção “Give Peace a Chance”.

À medida que os acontecimentos de desenvolvem, Lennon associa-se aos ativistas anti-guerra e participa de vários concertos em prol da paz e em defesa de líderes do movimento perseguidos pelo governo. É quando o serviço de imigração emite uma ordem determinando a deportação do músico, por supostos problemas com o seu visto.

“Os EUA x John Lennon” descreve essa longa batalha judicial, que o músico enfrenta de peito aberto, com a ajuda de um advogado empolgado, e com extraordinária lucidez. É interessante ver como Lennon ocupa um espaço próprio, individual, no processo de lutas contra a guerra do Vietnã – em diálogo, mas não subordinado, aos líderes do movimento.

O mesmo assunto – a militância em protesto contra a guerra e a violenta reação do governo – é tema de outro documentário, incluído na competição internacional do festival É Tudo Verdade. De cara, o filme merece o prêmio de título mais longo da mostra: “O Homem Mais Perigoso da América: Daniel Ellsberg e os Documentos do Pentágono”.

Dirigido por Rick Goldsmith e Judith Erlich, descreve a trajetória de um sujeito bem menos conhecido que Lennon e altamente contraditório, o estrategista de guerra Daniel Ellsberg. No início dos anos 60, o seu trabalho forneceu subsídios ao governo americano para intensificar a ação militar no Vietnã.

No final da década, Ellsberg se dá conta que a guerra era um erro, além de um desastre. Começa, então, a copiar um dossiê secreto de 7 mil páginas, encomendado pelo governo à empresa para qual trabalhava, no qual se descreve como diferentes presidentes americanos, desde Kennedy, mentiram ao país para forçar o envolvimento dos EUA no Vietnã.

O documentário relata como se deu esse processo de conscientização de Ellsberg e a fé, algo messiânica, que ele alimentou de conseguir interromper a participação dos EUA na guerra caso conseguisse tornar público o dossiê secreto. Visto como “traidor” pelo governo, vira um herói dos pacifistas.

Para estudantes de jornalismo e profissionais, o filme interessa também por esmiuçar o papel da imprensa neste episódio histórico. Ellsberg vaza o dossiê, conhecido como “Os papéis do Pentágono”, para o “New York Times”, que decide publicá-lo numa série de reportagens, em 1971. O governo Nixon reage ao golpe conseguindo suspender a publicação na Justiça. O “Washington Post”, então, retoma a série do ponto que o “Times” parou. Também o “Post” é impedido e outro jornal assume a tarefa. Ao fim, quase 20 jornais se envolvem no caso – até a Suprema Corte decidir que o governo não tinha direito de fazer censura prévia.

Por Mauricio Stycer às 19h25

Dunga coloca revistas esportivas em campos opostos

A dois meses da Copa do Mundo, a principal e mais tradicional revista esportiva do país, a “Placar”, saiu em defesa do técnico Dunga. “A antipatia do técnico da seleção mascara o ótimo time que ele montou”, escreve Sérgio Xavier Filho, diretor de redação, em texto publicado na recém-lançada edição de abril, que comemora os 40 anos da publicação.

O texto de Xavier foi visto no meio como uma resposta a Caio Maia, diretor de redação da revista “ESPN”, jovem concorrente da “Placar”, que assina na edição de março um texto bastante crítico ao desempenho de Dunga à frente da seleção. Para ir à Copa, escreve Maia, “é necessário, e mais do que suficiente, comungar da fé da Igreja Dunguiana: nenhuma individualidade presta, principalmente para ter ideias fora de campo”.

O diretor da “ESPN” lamenta que, por teimosia, Dunga não levará Ronaldinho Gaúcho à África do Sul. Maia considera que o jogador do Milan seria uma alternativa importante, pelo que representa de “imprevisível” e imponderável”,  ao esquema da seleção. O técnico do Brasil, porém, “adquiriu uma clareza reveladora sobre o que não deve fazer. Vai morrer abraçado com ela”.

Xavier, na “Placar”, defende que Ronaldinho Gaúcho não tem lugar na seleção de Dunga. “No time titular não faria o menor sentido. E Ronaldinho corre pouco para ser reserva de Kaká, marca pouco para ser reserva de Robinho. Não é mais o mesmo jogador”.

Maia lamenta que a seleção de Dunga seja pouco surpreendente – como foi a seleção de Parreira em 1994, que tinha o atual técnico como capitão. “Caminhamos, assim, para uma Copa do Mundo em que, mesmo que ganhe, o Brasil terá perdido. Porque terá jogado um futebol em que o Brasil não se reconhecerá. De novo. Como em 1994”

Xavier, ao contrário, acha que a seleção de Dunga, independentemente do resultado na Copa, é “um sucesso”. “O técnico montou a melhor defesa do mundo”, escreve. “O Brasil de Dunga está com a melhor bola aérea do mundo e com um dos contra-ataques mais letais”.

O diretor da “ESPN” encerra o seu texto assim: “Azar da Copa do Mundo, que nunca foi de Zico, Falcão, Cruijff ou Puskas, e já foi de Zagallo três vezes e pode ser de Dunga outras duas. Azar do futebol. Azar do Brasil”

O diretor de “Placar” encerra o seu texto assim: “Dunga pode ser culpado por ser do jeito que é, um problema para ele mesmo. Só não deveria ser criticado por montar uma seleção medíocre. Medíocre, francamente, não é ela, e sim a crítica”.

Por Mauricio Stycer às 17h36

Sobre o autor

Jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 23 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Começou a carreira no "Jornal do Brasil", em 1986, passou pelo "Estadão", ficou dez anos na "Folha de S. Paulo" (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o "Lance!" e a "Época", foi redator-chefe da "CartaCapital", diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor de “História do Lance! – Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo”

Contato: mauriciostycer@uol.com.br

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Um espaço para reflexões e troca de informações sobre os assuntos que interessam a este blogueiro, da alta à baixa cultura, do esporte à vida nas grandes cidades, sempre que possível com humor.

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