Filme de Wajda descreve o massacre de Katyn
A tragédia que abalou a Polônia neste sábado, com a morte do presidente e parte da elite militar do país, está diretamente relacionada a um outro episódio muito trágico, ocorrido na Segunda Guerra Mundial.
O avião que levava Lech Kaczynski, sua esposa e os principais comandantes das Forças Armadas, entre outras 95 pessoas, dirigia-se a Katyn, perto de Smolensk, na Rússia, onde ocorreria um ato em homenagem a oficiais poloneses executados há 70 anos pela polícia de Stalin.
O massacre de Katyn é tema de um grande filme de um dos maiores cineastas poloneses em atividade, Andrzej Wajda, exibido em 2008 na Mostra de Cinema de São Paulo. Na ocasião, escrevi o texto abaixo:
Em 1º de setembro de 1939, a Alemanha invadiu a Polônia, dando início à Segunda Guerra Mundial. Dezessete dias depois, vindo do leste, o exército russo também invadiu o país, dividindo-o ao meio com os nazistas. O drama dos poloneses, oprimidos entre dois invasores, um de cada lado da ponte, é exibido logo na cena de abertura de “Katyn”, talvez o mais impressionante filme de Andrzej Wajda (“Danton, o Processo da Revolução”, “O Homem de Ferro”).
As conseqüências da ocupação nazista são bem conhecidas, sobretudo o extermínio de milhões de judeus em campos de concentração. Já as marcas da ocupação soviética são menos notórias. O seu ato mais bárbaro ocorreu em meados de 1940, quando 15 mil oficiais do Exército polonês foram assassinados a céu aberto com tiros na cabeça e enterrados em valas comuns em Katyn, no interior da União Soviética.
Além dos dramas resultantes de um massacre que exterminou parte da elite polonesa (havia engenheiros, advogados, médicos etc entre os reservistas assassinados), o país conviveu por décadas com a proibição de falar desta atrocidade, já que a Polônia se tornou aliada da União Soviética a partir de 1945 – e o que ocorreu em Katyn virou um tabu.
Wajda sonhou por anos em levar a história deste massacre às telas, mas só conseguiu fazer isso em 2007. O pai do cineasta estava entre os mortos em Katyn, ele conta. Aos 81 anos, o mais famoso cineasta polonês fez um filme que é um acerto de contas pessoal, mas também de todo um povo com a sua história e a de seus inimigos. Cerca de 2 milhões de poloneses, em uma população de 38 milhões, assistiram a “Katyn” no ano passado. Candidato ao Oscar de filme estrangeiro em 2008, perdeu a estatueta para o austríaco “Os Falsários”, de Stefan Ruzowitzky.
Para um brasileiro, pode haver algumas dificuldades em acompanhar detalhes da história, mas o essencial não se perde (Um excelente artigo sobre o filme, no “New York Review of Books, pode ser lido, em inglês, aqui). “Katyn” trata de uma atrocidade sem tamanho, daquelas que nos deixam perplexos e sem esperança. A propósito, os últimos 15 minutos do filme, ao longo dos quais Wajda recria de forma realista o massacre, são muito difíceis de assistir. Esteja preparado, caso deseje encarar.
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Jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 23 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Começou a carreira no "Jornal do Brasil", em 1986, passou pelo "Estadão", ficou dez anos na "Folha de S. Paulo" (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o "Lance!" e a "Época", foi redator-chefe da "CartaCapital", diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor de “História do Lance! – Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo”
