03/04/2010

“Chico Xavier” subestima a inteligência do espectador

Tarefa complexa, retratar a vida do mais famoso médium brasileiro no cinema oferecia vários caminhos e possibilidades. Preventivamente, o diretor Daniel Filho já se desculpa antes da primeira cena por algumas de suas escolhas: “A história de um homem não cabe num filme. O que se pode é ser fiel à essência de sua trajetória”.

Qual seria a essência da trajetória de Chico Xavier? O espectador que enfrentar os 124 minutos desta produção não encontrará uma resposta muito clara a esta questão. O filme nos sugere que o médium era um homem bondoso, cuja única missão seria ajudar o próximo. Era também vaidoso e, como qualquer ser humano, tinha medo de avião. Nada mais que isso.

“Chico Xavier” abre várias trilhas, oferecendo ao espectador, de relance, visões de como deve ter sido extraordinária a vida do médium. Mas Daniel Filho parece estar mais preocupado em emocionar do que informar. Para quem não conhece bem a doutrina, o espiritismo no filme soa como um exotismo, sem muito sentido. As suspeitas de charlatanismo são tratadas como “intrigas da oposição” e a reação da Igreja é mostrada como caricatura.

Dito desta forma, “Chico Xavier” seria apenas um filme muito bem produzido, com grandes atuações dos três atores que interpretam o médium, mas superficial, destinado a agradar aos fiéis e provocar a curiosidade dos demais.

Mas há algo mais, que chega a causar constrangimento. O filme opta por materializar o espírito que Chico Xavier considerava seu guia. Chama-se Emmanuel. É retratado como um jovem, alto, simpático, sempre vestido com uma túnica clara. Aparece em inúmeras cenas, conversando com o médium, orientando-o, cobrando disciplina e dando instruções.

No fundo, ao fazer esta opção inábil, “Chico Xavier”, o filme, parece temer que o público não seja capaz de compreender a tal essência que se propõe a contar. 

Atualizado às 17h30: Caso tenha restado alguma dúvida, esclareço que este é um comentário sobre o filme, não sobre Chico Xavier ou o espirtismo.

Atualizado às 18h45 de 5 de abril: Uma visão bem mais positiva do filme pode ser lida no blog de Inácio Araujo, aqui no UOL.

Por Mauricio Stycer às 14h38
02/04/2010

Um filme adulto sobre adolescentes

Um filme pequeno, com título estranho, sem atores famosos e uma narrativa que não facilita a vida do espectador. Não parece convidativo, mas foi uma das maiores surpresas que tive com o cinema brasileiro em 2009. Depois de assistir “Os Famosos e os Duendes da Morte” na Mostra de Cinema de São Paulo escrevi este pequeno texto, que reproduzo abaixo, no momento de sua estreia em São Paulo. 

“Os Famosos e os Duendes da Morte” é o primeiro longa-metragem de Esmir Filho. O cineasta tem 27 anos e ficou muito famoso ao dirigir “Tapa na Pantera”, um pequeno filme com a atriz Maria Alice Vergueiro no papel de garota-propaganda das qualidades da canabis.

Ganhador do principal prêmio no Festival do Rio, em 2009, “Os Famosos e os Duendes da Morte” se passa numa cidadezinha de colonização alemã, no interior do Rio Grande do Sul, e descreve o sofrido rito de passagem de um adolescente inquieto e angustiado. Neste “cu do mundo”, como diz um dos protagonistas, não há nada para fazer, mas o menino encontra, pelo MSN e pela Web, canais de comunicação e expressão.

Fotografia, roteiro, direção de atores, tudo contribui para que o espectador embarque na viagem do protagonista de “Os Famosos e os Duendes da Morte”, no ritmo dele. Com sensibilidade, Esmir Filho realizou um filme intimista, poético, misterioso, na contracorrente dos filmes sobre adolescentes, que os tratam ou como espertinhos demais ou retardados.

Por Mauricio Stycer às 13h27
31/03/2010

Para Boninho, BBB10 foi previsível

“Esse jogo não teve surpresa alguma. A Fernanda só deu a grande virada porque a gente, deliberadamente, deu a carta da família para ela”.

“A Lia tinha uma rejeição muito grande. Ela só bateu a Anamara porque o grupo do Dourado deu força para ela”.

“(Cadu) devia ter sido mais machão, ter agarrado a Lia. Se tivesse feito isso, teria mudado o jogo, mas ficou com o personagem bonzinho, não passou disso”,

“(Dourado) é um ogro, falou muita besteira. Foi um bom jogador, mas também foi péssimo”.

Escrevi coisas semelhantes ao longo do BBB, mas essas frases todas são do Boninho, diretor do programa, em entrevista a Daniel Castro.

Por Mauricio Stycer às 16h35

BBB10: erros e acertos

E no 78º dia Marcelo Dourado foi dormir milionário e a décima edição terminou como uma das mais polêmicas da história do BBB. Entre os aspectos positivos, destaco o elenco, a diversidade, o papel da interação e o uso do Twitter pelo diretor do programa. No rol do que não funcionou, chamo a atenção para a ideia de convocar dois ex-BBBs, a clara vantagem de Dourado sobre os demais, a configuração em duas casas, o excesso de interferências externas, a falta de transparência nas votações e o desempenho de Pedro Bial. Em detalhes, o resumo do BBB10, na minha visão, está publicado no texto O que a vitória de Dourado ensina ao BBB11

Por Mauricio Stycer às 01h07
30/03/2010

Por que nenhum dos três merece ganhar

Pedro Bial convidou os três “heróis” sobreviventes da décima edição a justificarem por que seus rivais mereceriam ganhar o prêmio de R$ 1,5 milhão e, em seguida, os provocou a apresentar as razões que justificariam a própria vitória.

Cadu disse que Dourado merecia ganhar porque “foi um grande jogador”. E também porque “dentro do problema que foi posto aqui, de conviver com gay, se saiu muito bem”. Já Fernanda, segundo o personal trainer, “tem fibra e muita força de vontade”.

Dourado daria o prêmio a Cadu porque ele “se mostrou leal, um grande amigo”. Já Fernanda, segundo o lutador, “é uma mulher guerreira, tem um lado sensível, representa muito bem a mulher brasileira”.

Fernanda acha que Cadu poderia vencer porque “é uma pessoa muito querida, sempre disposta a ajudar todo mundo”. Já Dourado, poderia ser premiado “pela visão que tem desse negócio aqui”. E também porque “ele passa muita força”.

Quando indagado por Bial sobre por que merecia o prêmio, Cadu pensou, gaguejou, esboçou três palavras e reconheceu: “Não tenho muito o que dizer, o pessoal está vendo”. Dourado disse: “Sou um cara guerreiro, honrado, humilde. Tive visões inéditas aqui como jogador”. E Fernanda: “Porque lutei muito, superei meus limites”

Ouvindo Cadu, Dourado e Fernanda, na noite de segunda-feira, tive certeza que, na verdade, nenhum dos três merecia vencer. Apresento a seguir as minhas razões:

Cadu: Ganha um doce quem se lembrar de algo significativo que o personal trainer tenha feito ou dito ao longo de 78 dias. Boa gente, orientou o pessoal na sala de musculação, fez massagens nas mulheres, atuou como segurança e secretário da Lia e tentou colocar panos quentes nas brigas.

Frases mais marcantes: “Estou solteiro, mas não sozinho” (para Bial, explicando que tem “uma pessoa especial” fora da casa). “Ele tem motivo para votar em você? Não. Você tem motivo para votar nele? Tem. Então, pronto. O Brasil vai ver isso, entendeu?” (para Lia, demonstrando de forma tatibitate uma lição ensinada pelo mestre Dourado)

Dourado: Foi o personagem mais carismático da edição. Trouxe para a casa a valiosa experiência de ter participado – e fracassado – em outro BBB. Também trouxe uma tatuagem com uma suástica no corpo. Ensinou aos novatos que no reality show não se faz amigos, mas aliados. Conseguiu se impor sobre todos, menos Lia. Voltou de cinco paredões.   

Frases mais marcantes: “Caralho!” (ao ver os parentes em cada um dos cinco paredões que participou). “Era pra mim ter quebrado o dedo dela e ter dado um monte de porrada e ter deixado ela desmaiada no hospital.” (sobre Angélica, que instigou outros candidatos contra ele). “Apesar de ser viado, seje homem” (para Dicesar, depois que o maquiador o indicou para o paredão). “Vocês pedem para eu não arrotar, eu peço que vocês não falem de sexo enquanto a gente come” (para Serginho e Fernanda, que conversavam sobre baladas gays).

Fernanda: Passou metade do programa rindo de forma tímida e chorando pelos cantos. Disse ao namorado, por telefone, que o amava e ouviu de volta: “Tá”. Quando a família a informou que estava SOLTEIRA, virou outra pessoa. Bebeu todas, rebolou, paquerou, agarrou Serginho, suspirou por Cadu e tirou Lia do sério. Ao vencer a primeira prova de resistência do programa, assegurou a entrada na casa de Joseane, que escolheu Dourado para também participar.

Frases mais marcantes: “Ele nem é tão negro” (sobre Uiliam, em conversa com Maroca). “Meu namorado é evangélico” (explicando porque não acompanhava Lia na dança da “bundinha maluca”). 

Em tempo: Como muita gente pergunta, esclareço: não torci para nenhum dos 17 candidatos e, para mim, não faz a menor diferença quem ganhe.

Por Mauricio Stycer às 10h16
29/03/2010

Quando o repórter é "testemunha ocular da história"

Armando Nogueira (1927-2010) deixou duas grandes marcas no jornalismo, o que não é pouco. Tanto o seu trabalho como cronista esportivo quanto seu papel na criação e consolidação do “Jornal Nacional” estão sendo devidamente lembrados no momento de sua morte. Menos citado, mas não menos importante, é o episódio que colocou o jornalista, por acaso, diante de um fato que entrou para a história do Brasil.

Repórter do “Diário Carioca”, Armando Nogueira conversava com dois colegas do jornal na rua Tonelero, em Copacabana, na madrugada de 5 de agosto de 1954, quando testemunhou o atentado ao jornalista Carlos Lacerda, dono do jornal “Tribuna da Imprensa”, maior opositor do governo Vargas. Os tiros dirigidos a Lacerda apenas o feriram, mas resultaram na morte do major Rubem Vaz, que o acompanhava.

A manchete do “Diário Carioca” no dia seguinte informava: “Disparou 6 tiros em Carlos Lacerda". E o subtítulo avisava: "Armando Nogueira, repórter do DC, assistiu e conta”. A abertura da reportagem, escrita em primeira pessoa, foi reproduzida por Luiz Maklouf Carvalho no livro “Cobras Criadas”:

Eu vi o jornalista Carlos Lacerda desviar-se de seis tiros de revólver à porta de seu edifício, na rua Toneleros. Carlos Lacerda acabava de se despedir de um amigo – o major Vaz – e já ia entrando em casa quando um homem magro, moreno, meia altura e trajando terno cinza, surgiu por trás de um carro e, de cócoras, disparou toda a carga do revólver, quase à queima-roupa. Lacerda foi acertado no pé esquerdo; o major, atingido no peito, morreu pouco depois”.

O “furo” de Armando Nogueira levou o “Diário Carioca” a esgotar a sua edição e ajudou a deslanchar a carreira do jornalista. Como se diz frequentemente, ao lado do faro e do talento, o grande repórter não prescinde da sorte.

Em tempo: O atentado, como se sabe, agravou ainda mais a crise pela qual passava o governo Vargas. O chefe da segurança do presidente foi apontado como mandante do crime. Em 24 de agosto, Vargas se suicidou.

Por Mauricio Stycer às 12h41

Bial lê editorial sobre “afirmações impensadas” no BBB

Numa situação inédita em programas de entretenimento, a Globo se viu obrigada a dizer que as frases preconceituosas ditas ao longo do BBB10 não expressam a opinião da emissora. Bial leu o “editorial” no meio do programa deste domingo. A programação da emissora é orientada pelo “respeito à diversidade e a repulsa ao preconceito”, leu o apresentador. Escrevi a respeito o texto Globo se desculpa por seus "heróis”, publicado no UOL Televisão.

Atualizado às 17hs de segunda-feira: Um desdobramento do assunto abordado neste texto, noticiado nesta tarde: Globo terá que esclarecer transmissão do vírus da Aids.

Atualizado às 18hs: A declaração de Dourado foi ao ar no programa de 9 de fevereiro. Dois dias depois, em "O Globo", a colunista Patricia Kogut publicou a nota A Aids e o ‘BBB’, que reproduzo a seguir: Marcelo Dourado disse no “BBB” que “hétero não pega Aids. Um homem transmite para outro homem, mas uma mulher não passa para o homem”. A pérola foi exibida na edição de anteontem do programa. Depois, Pedro Bial deu um endereço eletrônico (www.aids.gov.br) para mais informações. E só. Mas nos bastidores, houve um intenso debate sobre fazer, ou não, um esclarecimento maior no ar. Boninho defendeu a ideia de que o programa não tem fins educativos, é puro entretenimento."

Por Mauricio Stycer às 01h35
28/03/2010

Discurso de Bial tenta remediar problema criado pelo programa

Ao montar o elenco do BBB10 com três gays assumidos entre 17 participantes – quase 20% do total – a Globo deu um passo ousado. Lembre-se que estamos falando de uma emissora cuja direção jamais permitiu a exibição de um beijo entre dois homossexuais numa novela, clássica obra de ficção.

Dicesar, Serginho e Angélica entraram na casa dando show, conscientes que não estavam ali por acaso. Formavam um núcleo, que o diretor Boninho fez questão de sublinhar, chamando-os de “coloridos”. Ou seja, eram diferentes dos demais, tinham consciência disso e, para não restar dúvidas, foram claramente carimbados.

O que poderia resultar dessa “inclusão”, para usar uma palavra politicamente correta, num ambiente de guerra? Num jogo em que todos os participantes, em busca da cumplicidade do público, são inimigos uns dos outros e apenas um vence a batalha final? Evidentemente, “a questão homossexual” seria um tema presente – e foi, do primeiro ao 75º dia do BBB10.

Especialmente com a ajuda de Cacau, que encarou o assédio de Angélica de forma gaiata; de Michel, que estabeleceu uma cumplicidade com Serginho; de Dourado, que abertamente entrou em confronto com o trio “colorido”; e do trio Boninho-Bial-Mr. Edição, que realçou o assunto de todas as formas, inúmeras questões ligadas à homossexualidade foram discutidas abertamente, de forma inédita, que eu lembre, no horário nobre da tevê brasileira.

Em público, o diretor Boninho, como de hábito, fingiu ignorar o que acontecia e, tanto em diferentes entrevistas quanto no seu Twitter, bateu insistentemente numa mesma tecla: o BBB é um jogo, não é um programa cultural, não é lugar para ensinar nada, estamos aqui apenas pela audiência e pelo dinheiro.

O problema é que, desta vez, a criatura foi maior que o criador. E uma parcela do público chiou. Surgiu na Internet e ganhou o mundo a palavra “heterofobia” – como se aqueles três homossexuais do programa tivessem a capacidade e o poder de simbolizar a opressão de uma minoria sobre uma maioria.

Para complicar um pouco mais o enredo, as marionetes do genial titereiro do BBB10 fizeram alguns movimentos não previstos. Dourado falou que homens heterossexuais não pegam Aids, trazendo de volta o fantasma da “peste gay”. Disse que perdeu o apetite ao ouvir uma conversa de Serginho sobre baladas gays no almoço. Lamentou que Angélica não fosse homem, pois, então, poderia quebrar os seus dedos. E cobrou de Dicesar que ele agisse como homem, “apesar de ser veado”.

A rivalidade que sempre existe entre torcidas de candidatos do BBB, estabeleceu-se, desta vez, em torno da questão sexual. Em alguns ambientes, como Twitter, blogs e fóruns, o diabo calçou Kichute, enviou ameaças a blogueiros e comentários pesados, como este, registrado sexta-feira neste espaço: “O grande problema desse BBB10 foi juntar gays a seres humanos! Força & Honra Mestre do Universo, Força Mestre Dourado!”

É difícil acreditar que o “boss” possa ter previsto isto. Mas ele insistiu em dizer que não estava nem aí. Há uma semana, fazendo sua conhecida pose de mau, voltou a afirmar, em entrevista à “Folha”: “Não colocamos ninguém no BBB para discutir homo ou heterofobia, minorias... Não escolhemos um personagem representando coisas. O fato de ser ou não homossexual não é para interagir no jogo. Não estou preocupado se o cara é gay ou não. Ele não vai entrar por ser gay, mas pelo que traz para a competição.”

Tamanha falta de seriedade teve um contrapeso neste sábado, no discurso que Pedro Bial preparou para a eliminação de Dicesar. Sem piadas de mau gosto, sem metáforas constrangedoras, sem psicologia de botequim, o apresentador foi direto ao ponto: “O BBB deturpa, deforma o retrato. Depois de tanta exposição, vocês se tornam caricatura”.

Em vez de mencionar os vários preconceitos de Dourado e as respostas sem pé nem cabeça de Dicesar, Bial lembrou uma rara “declaração de amor” de cada um dirigida ao outro no programa. “Aqui fora vocês têm que encontrar um meio de conviver, compartilhar”, disse aos dois, mirando, na verdade, as respectivas torcidas dos candidatos. “Vocês sabem que violência não é a solução”, disse o nosso Gandhi, conclamando os dois a darem as mãos.

Soou piegas? Soou. Pareceu ridículo? Pareceu. Deu vontade de rir? Deu. É assim que vai se educar a população a compreender e respeitar as diferenças? Lógico que não. Mas é impossível não reconhecer que Bial tentou remediar uma situação criada pelo programa. Já é alguma coisa.

Por Mauricio Stycer às 12h08

Sobre o autor

Jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 23 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Começou a carreira no "Jornal do Brasil", em 1986, passou pelo "Estadão", ficou dez anos na "Folha de S. Paulo" (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o "Lance!" e a "Época", foi redator-chefe da "CartaCapital", diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor de “História do Lance! – Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo”

Contato: mauriciostycer@uol.com.br

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Um espaço para reflexões e troca de informações sobre os assuntos que interessam a este blogueiro, da alta à baixa cultura, do esporte à vida nas grandes cidades, sempre que possível com humor.

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