Duas vezes Rubem Fonseca
Em cartaz há uma semana, “Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos” é o primeiro filme de Paulo Halm. Conta a história de Zeca (Caio Blat), um escritor de 30 anos, incapaz de escrever o seu primeiro romance e às voltas com a desconfiança de que sua mulher, Julia (Maria Ribeiro), o está traindo com outra mulher (Luz Cipriota, na foto ao lado).
Zeca passa o filme inteiro falando das primeiras 50 páginas da trama policial que já escreveu, mas que não consegue levar adiante. Numa dessas ocasiões, em meio a uma festa, ouve de uma menina com quem está conversando que ele parece imitar Rubem Fonseca. O escritor manifesta indignação com a comparação, mas um pouco depois, em sua casa, veremos uma estante repleta de livros de Fonseca, a quem ele obviamente admira.
O tema é muito interessante – o vazio de um jovem de classe média, talentoso, porém sem disposição ou coragem de criar. Mas, um pouco como os romances mais recentes de Fonseca, “Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos” não decola, preso às reflexões e obsessões do próprio Zeca, que dão humor e leveza à narrativa, mas a deixam superficial, sem força.
Coincidentemente, na mesma semana em que o filme estreou, Rubem Fonseca apareceu. Perto de completar 85 anos, o recluso escritor deixou o Rio de Janeiro, onde vive, para vir a São Paulo participar de um evento de promoção do lançamento de “Gonzos e Parafusos”, primeiro romance de Paula Parisot. A escritora permaneceu seis dias dentro de um cubo de vidro, simulando uma situação descrita em seu livro. Como parte da performance, Fonseca foi à livraria onde ela estava reclusa para alimentá-la.
Paula tem 31 anos – a mesma idade de Zeca, o personagem de “Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos”. Como tantos escritores desta geração, e de uma geração mais velha, ambos têm Rubem Fonseca como modelo e fonte de inspiração. No caso dela, há algo mais – graças ao apoio e entusiasmo de Fonseca, conseguiu uma editora, a Leya, para publicar seu livro.
A influência do autor de “O Cobrador” sobre as gerações mais jovens é um tema que fascina os críticos – e está longe de se esgotar, como se vê. Por mais que a sua obra não exiba o mesmo vigor do passado, Fonseca é uma presença fundamental na literatura brasileira contemporânea. Só o tempo permitirá avaliar o impacto deste legado.
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Jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 23 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Começou a carreira no "Jornal do Brasil", em 1986, passou pelo "Estadão", ficou dez anos na "Folha de S. Paulo" (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o "Lance!" e a "Época", foi redator-chefe da "CartaCapital", diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor de “História do Lance! – Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo”
