19/03/2010

Duas vezes Rubem Fonseca

Em cartaz há uma semana, “Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos” é o primeiro filme de Paulo Halm. Conta a história de Zeca (Caio Blat), um escritor de 30 anos, incapaz de escrever o seu primeiro romance e às voltas com a desconfiança de que sua mulher, Julia (Maria Ribeiro), o está traindo com outra mulher (Luz Cipriota, na foto ao lado).

Zeca passa o filme inteiro falando das primeiras 50 páginas da trama policial que já escreveu, mas que não consegue levar adiante. Numa dessas ocasiões, em meio a uma festa, ouve de uma menina com quem está conversando que ele parece imitar Rubem Fonseca. O escritor manifesta indignação com a comparação, mas um pouco depois, em sua casa, veremos uma estante repleta de livros de Fonseca, a quem ele obviamente admira.

O tema é muito interessante – o vazio de um jovem de classe média, talentoso, porém sem disposição ou coragem de criar. Mas, um pouco como os romances mais recentes de Fonseca, “Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos” não decola, preso às reflexões e obsessões do próprio Zeca, que dão humor e leveza à narrativa, mas a deixam superficial, sem força.

Coincidentemente, na mesma semana em que o filme estreou, Rubem Fonseca apareceu. Perto de completar 85 anos, o recluso escritor deixou o Rio de Janeiro, onde vive, para vir a São Paulo participar de um evento de promoção do lançamento de “Gonzos e Parafusos”, primeiro romance de Paula Parisot. A escritora permaneceu seis dias dentro de um cubo de vidro, simulando uma situação descrita em seu livro. Como parte da performance, Fonseca foi à livraria onde ela estava reclusa para alimentá-la. 

Paula tem 31 anos – a mesma idade de Zeca, o personagem de “Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos”. Como tantos escritores desta geração, e de uma geração mais velha, ambos têm Rubem Fonseca como modelo e fonte de inspiração. No caso dela, há algo mais – graças ao apoio e entusiasmo de Fonseca, conseguiu uma editora, a Leya, para publicar seu livro.

A influência do autor de “O Cobrador” sobre as gerações mais jovens é um tema que fascina os críticos – e está longe de se esgotar, como se vê. Por mais que a sua obra não exiba o mesmo vigor do passado, Fonseca é uma presença fundamental na literatura brasileira contemporânea. Só o tempo permitirá avaliar o impacto deste legado.

Por Mauricio Stycer às 13h53

Ratinhos de laboratório do Professor Pardal

A prova do líder do BBB10, iniciada na noite de quinta-feira, coloca os sete participantes, divididos em dois grupos, dentro de duas garagens gigantes, onde são submetidos a intempéries variadas, como chuva, vento, frio e calor. Pedro Bial advertiu os candidatos que seria uma prova difícil e interativa – o público iria decidir os diferentes sofrimentos aos quais eles seriam submetidos. Tal qual “ratinhos de laboratório”, explicou o apresentador.

Como já ocorreu em outros testes do gênero no BBB, trata-se de uma ação de merchandising, destinada a apregoar as qualidades de um automóvel. O mais bem-sucedido, ou resistente, ganhará um carro de presente.

Ações deste tipo fazem parte da realidade da televisão brasileira há muito tempo. Antes do reality show global, as novelas e os programas de auditório eram o espaço privilegiado para estas promoções. O BBB, em função de contar com garotos-propaganda amadores, dispostos a tudo e sem nada a perder, tornou-se um laboratório para ações diferentes, mais ousadas e agressivas.

Nem sempre dá certo. Este ano, uma prova do líder patrocinada por uma marca de detergente submeteu os candidatos a uma chuva do produto, que causou irritação nos olhos e mal-estar. Outra prova, sob os auspícios de uma marca de refrigerante, provocou enjôo e reclamações de candidatos obrigados a beber o produto em quantidades industriais.

A imagem proposta por Bial é boa: nossos heróis, como ele gosta de dizer, são realmente ratinhos de laboratório, expostos à curiosidade e ao sadismo do público. Mas são também, e até mais, objeto da crueldade de um Professor Pardal, cujas experiências malucas às vezes funcionam como bumerangue e acertam o próprio inventor.

Atualizado às 12h15 de 19/03/2010: Depois de 13 horas de prova, o vencedor foi o personal trainer Cadu. Mais detalhes aqui.

Por Mauricio Stycer às 23h48
18/03/2010

Dois milhões

Informo aos navegantes que, depois de dois meses e meio de existência, este blog acaba de ultrapassar a marca de dois milhões de visitas. Só posso agradecer a quem tem freqüentado este espaço e, em especial, aos que têm contribuído com críticas e sugestões. Também aproveito para agradecer aos leitores que têm enviado e-mails com observações e comentários, e pedir desculpas aos que, por conta do volume de trabalho, não consegui responder. 

Por Mauricio Stycer às 16h54

O que há por trás da voz de Cid Moreira? Quase nada

Cid Moreira sempre foi um mistério. Da estreia do “Jornal Nacional”, em 1º de setembro de 1969, à despedida, no final de março de 1996, manteve-se sempre à sombra, discreto, sem dar opiniões polêmicas ou causar confusão. Para muitos, a voz do mais popular telejornal da tevê brasileira era apenas isso – uma voz, lendo notícias que ele parecia mal compreender.

O único desvio nesta linha reta ocorreu em 1993, quando Cid Moreira apareceu na capa da edição número 5 de “Caras”, ensaboado dentro de uma banheira, com as pernas abusadamente levantadas. Um escândalo, que hoje, aos 82 anos, ele considera “o momento de bobeira” da sua vida.

“O que eu tinha na minha cabeça naquele momento? Afinal, todo mundo me acha tão sério, tímido, como de fato sou, e eu fui cair em uma cilada daquelas”, diz, na biografia que acaba de publicar, “Boa Noite” (Prumo, 296 págs. R$ 39,90), escrita pela jornalista Fatima Sampaio Moreira, sua quarta mulher.

Fatima descreve a trajetória de “Cidão”, como era chamado por colegas na Globo, numa narrativa que mistura falta de assunto com excesso de elogios. Em algumas passagens, como ao descrever os diferentes médicos que já cuidaram de sua saúde e os empresários que contrataram os seus serviços, o livro ganha contornos publicitários.

Em outros, especialmente ao falar do seu trabalho no JN, surpreende pela sinceridade de não ter nada para dizer: “Nem elaboro os textos, nunca fui editor. Aos redatores, sim, devo os textos. E a eles cabe o discernimento e a capacidade intelectual. A mim cabe apenas colocar em prática o que mais gosto de fazer, que é dar vida, humanidade e emoção às palavras”.

Não espere qualquer avaliação crítica a respeito do telejornal que Cid Moreira apresentou por 27 anos, qualquer opinião sobre erros graves e notórias omissões do noticiário, ou impressões a respeito de polêmicas decisões de seus chefes. Nem mesmo sobre como apurou a sua técnica, ele se detém. A julgar por “Boa Noite”, o apresentador passou quase três décadas à frente do programa apenas lendo o que colocaram à sua frente. Não viu nem entendeu nada.

Quem busca detalhes picantes sobre a vida pessoal de Cidão também vai se decepcionar. Fátima Moreira informa logo no início que não vai tratar do assunto no livro. Num último e breve capítulo, intitulado “Cid na intimidade”, relata que o locutor tem mania de colecionar lanternas, guardanapos de papel, palitos de dentes e sapos ornamentais.

Hoje dedicado à gravação da Bíblia, Cid Moreira considera que a sua biografia consegue passar “uma ideia aproximada” de como foi a sua vida. Se é isso mesmo, só resta dizer: “Boa noite”.

Crédito da foto acima: Zulmair Rocha/Folha Imagem (maio/2000)

Por Mauricio Stycer às 10h52
17/03/2010

Cadu na hora da decisão

Pela primeira vez, o personal trainer Cadu mereceu o papel de protagonista, em letras maiúsculas, da edição do BBB. Foi apresentado como “um diplomata nato”, querido por todos na casa, mas um pouco escorregadio, por evitar maiores envolvimentos pessoais. Argumentou que tem “alguém especial” o aguardando, mas ouviu de Bial: "Você é um homem ou um saquinho de pipocas?" Escrevi a respeito o texto Bial convida Cadu a mergulhar no jogo, publicado no UOL Televisão.

Atualizado às 18h30: Cadu não gostou de ser chamado de "saquinho de pipocas". Na manhã de hoje, no Twitter do BBB, ele escreveu, em resposta a Bial: "Bom dia! Justo por ser um homem e ñ pipoca que procuro viver isso aqui em primeiro lugar mas respeitando quem deixei ai fora. Bjs"

Por Mauricio Stycer às 00h36
16/03/2010

O esperado beijo no “Grey´s Anatomy” do Leblon

E o médico Miguel beijou sua paciente Luciana no capítulo de segunda-feira de “Viver a Vida”. Numa novela marcada pela falta de ação, a cena, ainda que fartamente anunciada, ganhou contornos de fato extraordinário. “Eu te amo”, falaram os dois ao mesmo tempo. 

Tetraplégica por conta de um acidente de automóvel, Luciana disse depois do beijo: “Tenho medo de quando você descobrir que sou a metade de uma mulher”. Pensou um pouco e acrescentou: “Como eu sou boba. Por um instante, esqueci que você é meu médico.” Foi a deixa para Miguel observar: “Conheço cada centímetro do seu corpo”.

Miguel é um dos muitos médicos de “Viver a Vida”. Todos trabalham no mesmo hospital, um ambiente agradável e tranquilo, como a grande maioria dos hospitais brasileiros.

Na falta de pacientes e doenças para ocupar tantos profissionais, eles se dedicam a tomar café na lanchonete e a conversar sobre a vida amorosa de todos. Por uma dessas terríveis coincidências, o médico Ricardo namora Isabel, irmã de Luciana, e o médico Neto namora Mia, a irmã virgem da heroína.

Além dos três médicos-galãs, há duas médicas gatas, Ellen e Ariane. A primeira tinha uma única paciente, a grávida Sandra, mas depois que o bebê nasceu anda totalmente desocupada. Já Ariane é especialista em assuntos sentimentais e, nas últimas semanas, teve papel fundamental no aconselhamento a Miguel, que hesitava em declarar seu amor por Luciana.

Quando não tem nada para fazer, o que ocorre com freqüência, Tereza, a mãe de Luciana, vai ao hospital conversar com o diretor e os médicos que atendem a filha. O pai de Luciana, Marcos, ocupado empresário, às vezes acompanha a ex-mulher nestas verdadeiras aulas de medicina, mas a sua atuação principal dá-se em outra área.

Marcos faz a ponte entre o núcleo médico, que lembra o seriado “Grey´s Anatomy”, e o núcleo dedicado ao principal esporte de “Viver a Vida”, o adultério. São tantas as tramas que envolvem traição – algumas sérias, outras cômicas – que perdi o fio da meada da novela.

O lema de Marcos, enunciado dias atrás, é: “Todos somos corretos, até surgir uma oportunidade”. Gustavo, seu advogado, é o bufão, para quem as oportunidades estão em todo o lugar. Por ora, está envolvido com a prima da mulher, é chantageado pela empregada e alvo das piadas da secretaria. Betina, sua mulher, hesita há dois meses se deve ou não trair o marido.

Em outra frente, Helena, a mulher de Marcos, de quem está se separando, passou um mês sonhando com o fotógrafo Bruno, a quem beijou uma única vez, e atormentada pela menina Rafaela, que testemunhou o “crime” e ameaçava revelá-lo. Rafaela é filha de Dora, amiga de Helena, que a traiu com Marcos, enganando o namorado, Maradona.

Há mais enredos com tema semelhante em “Viver a Vida”, mas temo estar cansando o leitor, seja o que acompanha a trama, seja o que a ignora. O sucesso da novela mostra que Manoel Carlos, mais uma vez, está no caminho certo. Numa novela com vilões opacos, triunfa o amor impossível e o adultério.

Por Mauricio Stycer às 12h33
15/03/2010

João Saldanha e a mitologia do “jogador-problema”

A frase do dia é do técnico Andrade, do Flamengo, em defesa de Adriano:

Ele é polêmico, mas prefiro ter um assim, que faça 19 gols em um Brasileiro, do que um santo que faça só cinco gols. Prefiro trabalhar com Adriano com todos os problemas que ele atravessa, do que com um bonzinho. O Adriano decide.

Trata-se de referência a uma frase de João Saldanha, muito famosa, em resposta ao questionamento de um jornalista sobre a má fama fora de campo de um determinado craque: “Quero o jogador para jogar no meu time, não para casar com a minha filha”. Saldanha também defendia, como aponta João Maximo na sua biografia sobre o jornalista e treinador, que “mulher e bebida, em doses certas, nunca fizeram mal a ninguém”.

Segundo o ex-jogador Brito, citado em outra biografia de Saldanha, escrita por André Iki Siqueira, o técnico não impunha restrições aos jogadores em suas horas livres, mas recomendava: “Nos dias de folga, aqueles que não são da farra, não acompanhem aqueles que gostam de tomar a sua cervejinha. Fiquem no hotel, vão ao cinema. Não acompanhem bandido”.

Saldanha acreditava, no final dos anos 60, que o jogador de futebol já estava maduro o suficiente para entender como deveria administrar a própria carreira. Por esse motivo, era contra o rígido regime de concentração imposto aos atletas (“Se concentração ganhasse jogo, o time da penitenciária seria campeão invicto”, dizia).

Entendo o raciocínio de Saldanha e concordo que falta coragem para discutir mais francamente sobre os benefícios e prejuízos do regime de concentração – Ronaldo, em 2009, tentou levantar o assunto, mas não conseguiu.

Discordo, no entanto, de algumas generalizações do “comentarista que o Brasil consagrou”. Quando Saldanha sugere que não está preocupado com o caráter do jogador, desde que ele jogue bem, pode estar endossando comportamentos socialmente condenáveis como a mentira e a desonestidade, por exemplo. Quando diz, como lembra Brito, que os jogadores “que não são da farra” não deveriam acompanhar os “bandidos”, está ajudando a popularizar uma mitologia – a do “jogador-bandido” ou o do “jogador-problema” – que, de um modo geral, não tem final feliz.

Por Mauricio Stycer às 14h30

O paredão que todo mundo previu

Desde o início da tarde de sábado já se sabia que o paredão deste domingo seria entre Michel e Maroca. Como o público sabia? A dinâmica do programa acabou tornando essa situação previsível. Nos últimos dias, o BBB não empolgou. A edição deste domingo estava sem pique. Escrevi a respeito o texto O BBB em momento de ressaca, publicado no final da noite.

Por Mauricio Stycer às 00h57
14/03/2010

Duas leituras sobre o filmaço de Scorsese

“Ilha do Medo”, de Martins Scorsese, é uma celebração sobre as possibilidades que oferece o cinema. Mostra um cineasta em seu apogeu, com domínio completo sobre a arte e a técnica. Convida o espectador a uma viagem que o tira do chão, perdido entre diferentes registros de “realidade” que a narrativa desenvolve. Um filmaço, imperdível.

Além do filme, aproveito para recomendar os textos de dois críticos amigos que escreveram sobre “Ilha do Medo”. Ambos driblam, com muita habilidade, a dificuldade de falar do trabalho de Scorsese sem entregar qualquer detalhe que possa roubar o prazer da experiência no cinema. Em seu blog, Inácio Araujo trata a obra como Um golpe de mestre do mestre Scorsese. No texto, o crítico explora os diferentes jogos que o cineasta propõe ao espectador e anota:

Porque o cinema é a própria ilusão. O cinema clássico não se propõe como um sonho socializado? Pois bem, aí está: MS reproduz a estrutura do sonho como não me lembro de ter visto alguém fazer antes (o Resnais, talvez, mas tenho a impressão de que isso é marginal no cinema dele, é a narrativa em si que ele toma como questão).

Já José Geraldo Couto, em Notas sobre um grande filme, classifica “Ilha do Medo” como “um filme plural e inesgotável”, e discute, entre outros aspectos, a visão cósmica do cineasta. Observa ele:

Espírito essencialmente moral e religioso, Scorsese plasma sua fábula numa iconografia que, em falta de palavra melhor, poderíamos chamar de cósmica. Assim como em "Cabo do Medo" (outro conto sobre a vingança e a culpa), aqui os elementos - água, fogo, terra, ar - têm muito mais do que uma função de cenário ou ambiente. Desde as primeiras imagens, eles são agentes da narrativa e ajudam a lhe dar sentido.

Fica aqui a tripla recomendação, ao filme e aos dois ótimos textos.

Por Mauricio Stycer às 20h57

Sobre o autor

Jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 23 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Começou a carreira no "Jornal do Brasil", em 1986, passou pelo "Estadão", ficou dez anos na "Folha de S. Paulo" (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o "Lance!" e a "Época", foi redator-chefe da "CartaCapital", diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor de “História do Lance! – Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo”

Contato: mauriciostycer@uol.com.br

Sobre o blog

Um espaço para reflexões e troca de informações sobre os assuntos que interessam a este blogueiro, da alta à baixa cultura, do esporte à vida nas grandes cidades, sempre que possível com humor.

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