No ótimo documentário “O Homem que Engarrafava Nuvens”, Lírio Ferreira convida o espectador a conhecer melhor Humberto Teixeira, um personagem central na história da música brasileira, mas hoje pouco lembrado, em função de uma trajetória que privilegiou o bastidor, e não o palco.
Esse seria um resumo adequado para o filme caso Lírio Ferreira se limitasse a apresentar o Humberto Teixeira compositor, autor de centenas de músicas, e parceiro de Luiz Gonzaga nos maiores sucessos do rei do baião. Mas há um elemento a mais em “O Homem que Engarrafava Nuvens”, que é a presença da atriz Denise Dumont.
Filha de Teixeira, Denise é produtora do filme e, também, uma “nuvem” na história, presente sem falar em várias cenas, interferindo aqui e ali, até aparecer plenamente numa cena-chave do documentário – a entrevista que ela própria conduz com sua mãe, Margarida Jatobá.
Ao longo dessa difícil conversa, e nas cenas seguintes, até o final, o espectador é levado a conviver com um Humberto Teixeira que ainda não havia aparecido – o pai que ficou com a guarda da filha, machão, repressor, insensível. E, a partir de então, começamos a olhar para a atriz de outro jeito. Quem é ela? O que ela está fazendo naquela cena de “Radio Days”, de Woody Allen? O que ela faz em “O Homem que Engarrafava Nuvens”?
É como se Denise obrigasse Lírio Ferreira a mudar de pista repentinamente, o que ele faz com muita habilidade, dando ao filme uma complexidade inesperada e enriquecedora. Numa boa entrevista, publicada domingo, o cineasta discute o que há de documentário e o que há de ficção nos seus dois filmes mais recentes – antes de “O Homem que Engarrafava Nuvens”, dirigiu “Cartola – Música para os Olhos”. No diálogo que reproduzo abaixo, vê-se muito claramente qual é a sua ambição enquanto cineasta:
UOL Cinema - Uma vez você disse que faz ficção como quem faz documentário e documentário como quem faz ficção. Você vê alguma fronteira entre os dois?
Lírio Ferreira - Hoje eu acho essa diferença um purismo inaceitável. Às vezes eu olho "Cartola..." e vejo mais ficção do que em "Baile Perfumado". Tanto "Cartola..." quanto "O Homem que Engarrafava Nuvens", se você fizer uma análise criteriosa, pode dizer que são ficções. Os dois têm um personagem, que é o Cartola, que é o Humberto Teixeira, que você construiu, que você contextualiza na época, tem o cenário, a direção de arte, Tudo pode ser uma ficção. É como o Cartola mesmo diz no final do meu filme, agradece ao público por ter visto 'estas verdades, estas mentiras, nem tudo é verdade, nem tudo é mentira'.
Creio que Lírio Ferreira alcança os seus objetivos neste filme sobre Humberto Teixeira – um filme complexo, equilibrado, sem apelação, bem-sucedido enquanto instrumento de resgate histórico e cultural, capaz de navegar entre vida pública e privada sem escorregar e, não menos importante, ainda convida o espectador a pensar.
Fotos: Patricia Stavis/Folha Imagem