14/09/2010

O mesmo blog em novo endereço

Depois de alguns testes, começo a partir desta terça-feira a publicar meus textos na nova plataforma oferecida pelo UOL a todos os seus blogueiros. Com o tempo, o histórico deste blog também migrará – por enquanto, ele permanece aqui. Peço aos leitores que acompanham o blog que atualizem o endereço: http://mauriciostycer.blogosfera.uol.com.br/. Obrigado.

Por Mauricio Stycer às 17h12
13/09/2010

Roberto Carlos é melhor que Nilton Santos, dizem Muricy Ramalho e revista

Apresentado como “o maior lateral da história do Brasil” pela revista “ESPN”, Roberto Carlos encontra no principal técnico hoje em atividade no país, Muricy Ramalho, o seu maior entusiasta: “Foi o melhor que eu vi na posição. Os caras falam do Nilton Santos, mas não tem comparação. Os caras são muito saudosistas”.

No interior da revista, o título dado ao jogador do Corinthians é um pouco menos grandiloqüente. Ele é apresentado “apenas” como “maior lateral-esquerdo da história do futebol”. O próprio Roberto Carlos, num raro momento de modéstia, reconhece que há outros jogadores na sua frente: “Acho Nilton Santos, Junior, Branco, e depois apareço eu”.
 
Na visão da revista, pesam a favor de Roberto Carlos a longevidade na seleção (125 e 11 gols), o sucesso internacional (13 títulos apenas pelo Real Madrid, incluindo dois mundiais e três europeus) e o talento tanto na defesa quanto no ataque. “No auge da carreira, ele era defensivamente perfeito”, diz Caio Maia, diretor de Redação da “ESPN”.

Na longa reportagem com o craque, não se mencionam dois de seus fracassos – as Copas de 1998 e 2006. “O fato de Roberto Carlos ter arrumado a meia naquele lance... Há um consenso que não podia ser um jogador baixo como ele a marcar o Henry”, defende Maia.

A eleição de Roberto Carlos como “maior lateral” do futebol brasileiro é contestada por um especialista no assunto, o jornalista Paulo Guilherme, autor do livro “Os 11 maiores laterais do futebol brasileiro” (Editora Contexto). Na sua seleção, que começa com Nilton Santos e termina com Roberto Carlos, há lugar ainda para Djalma Santos, Carlos Alberto Torres, Nelinho, Wladimir, Junior, Leandro, Branco, Leonardo e Cafu.

“É difícil fazer qualquer tipo de comparação entre jogadores que atuaram em épocas tão diferentes do futebol. Uma lista cronológica com Nilton Santos, Junior, Branco e Roberto Carlos é um ótimo exemplo de como a posição de lateral-esquerdo evoluiu no futebol brasileiro e mundial”, observa Paulo Guilherme, que diz mais:

Nilton Santos tinha como principal função marcar o ponta-direita adversário. Raramente passava do meio-de-campo, embora tenha sido um dos pioneiros nesta jogada ao fazer o gol contra a Áustria na Copa de 1958 desrespeitando as ordens do técnico Vicente Feola. Os times jogavam no esquema 4-2-4 com jogadores com territórios bem divididos em campo.

Júnior e Branco já tinham mais liberdade para atacar, e atuavam no esquema 4-3-3 ou 4-4-2. Roberto Carlos, por sua vez, simboliza o lateral que é praticamente um atacante, com um preparo físico exemplar capaz de ir em poucos segundos da defesa ao ataque durante os 90 minutos da partida. É, assim como Cafu pela direita, o maior expoente da era dos ‘alas’, contando com um esquema tático no qual dois volantes e até um terceiro zagueiro estão sempre de prontidão para lhe dar cobertura. Além disso, tem maior poder de finalização.

Na época de Nilton Santos o mercado para jogadores brasileiros na Europa era mais limitado. Já Roberto Carlos fez boa parte da sua carreira no futebol europeu. Disputou mais jogos, mas não teve nas suas atuações em Copas do Mundo o mesmo destaque e a mesma importância de Nilton Santos no bicampeonato de 1958 e 1962. Nilton tinha uma liderança e ascendência sobre o grupo e a comissão técnica. Roberto Carlos era importante, mas nunca foi "o" líder na seleção.

Com tantos laterais fantásticos da história do futebol brasileiro, não vejo razão para dizer que este ou aquele foi o maior de todos. Diria que Roberto Carlos foi sem dúvida o maior dos últimos 25 anos. E que deveria ter sido titular na Copa de 2010, pois é o melhor lateral esquerdo em atividade do futebol brasileiro.

Para o jornalista Roberto Porto, um dos principais historiadores do Botafogo, autor de vários livros sobre o clube, a escolha da revista é “um absurdo”. “É a escolha de um grupo de jornalistas jovens, que não viu nada de futebol, que não conhece e não estuda o passado do futebol brasileiro”.

Caio Maia, da “ESPN”, defende-se. “Sabia que essa escolha ia causar uma polêmica. Mas não estamos dizendo que o Junior Cesar é o maior lateral de todos os tempos. É o Roberto Carlos”. Está aberto o debate.

Fotos: Fábio Braga/Folha Imagem e Acervo Nilton Santos

Por Mauricio Stycer às 13h39
11/09/2010

Como educar uma menina que tem asas?

Entre as muitas atrações do Festival Internacional de Cinema Infantil, em cartaz em São Paulo e Campinas até o próximo dia 19, tive a oportunidade de ver apenas um filme, que recomendo com entusiasmo.
 
Trata-se de “Iep!”, uma produção holandesa, dirigida por Ellen Smit. O filme conta a história de um casal sem filhos, cuja vida no meio do mato transcorre sem maiores emoções ou divertimentos. Até o dia em que o homem da casa, que mantém o hobby de observar pássaros, encontra um bebê dentro de um ovo.
 
O espanto do casal com as formas da criatura é, num primeiro momento, enorme. “Uma espécie rara: uma menina na forma de um pássaro”, diz Warre. “Um pássaro na forma de uma menina”, contrapõe Tine.
 
Logo, porém, Warre e Tine incorporam a menina-pássaro à rotina com naturalidade. Tentam educá-la como se fosse uma criança normal, mas esbarram nas suas particularidades. Iep, como é batizada, não consegue falar “a” nem “o” e prefere minhocas a macarrão. O casal entende estas peculiaridades e as incorpora ao cotidiano.
 
O filme literalmente decola quando Iep, começando a crescer, não resiste ao apelo dos seus instintos e foge de casa, voando, em direção ao Sul. Tem início, então, uma série de aventuras divertidas – encontros e desencontros do casal com a “filha”, descobertas e acidentes –, que vão culminar num belo final.
 
Ainda que a “mensagem” possa parece óbvia demais, “Iep!” trata de temas necessários, de forma encantadora. O filme é recomendado para crianças maiores de 10 anos.

Por Mauricio Stycer às 08h32
10/09/2010

Em “Passione”, viciado em drogas não sente prazer, apenas sofre

Na bem urdida trama da novela “Passione”, que combina drama, mistério e humor em boas doses, o calcanhar de Aquiles é a trajetória do personagem Danilo, vivido por Cauã Reymond.

Milionário, filho e neto de donos de uma metalúrgica que fabrica bicicletas, Danilo começou a novela de Silvio de Abreu como um ciclista bem-sucedido. Em pouco tempo, apelou para o uso de anabolizantes, com o objetivo de melhorar a sua performance.

A certa altura, depois de uma desilusão amorosa, o personagem começou a comprar drogas em becos sujos da cidade. Ficou transtornado. Transformou-se num zumbi. Agressivo, acabou internado pela mãe numa clínica para dependentes. Fugiu de lá e, sem ajuda de ninguém, deu a impressão de ter se recuperado do vício.

Há duas semanas, recebi um e-mail com o título “Pai revoltado”. Não sei se o autor gostaria de ter o seu nome revelado, mas posso dizer que é um experiente professor, com doutorado em Química pela USP. Seleciono alguns trechos da mensagem:

Como em toda novela da Globo, existe sempre um ou mais temas escolhidos para “serviço social”. Nessa novela escolheram o tema “drogas” com o ciclista Danilo. Tudo bem quanto a isso, mas não quanto a forma. Eu lhe pergunto: que droga ele está usando? Difícil de dizer, não está claro qual é a droga. Que droga é essa que o usuário toma e fica caindo pelas ruas desmaiado. Por que o autor da novela não identifica logo a droga e mostra os efeitos reais da mesma? Os efeito pós uso não se encaixam como sendo crack, cocaína ou ecstasy. Opiácios (morfina e heroína) podem até causar tal efeito, mas não são drogas tão disseminadas no Brasil e nem de perto é o problema social que o crack causa.

Minha opinião em relação ao ensinamento sobre drogas é que não podemos esconder as verdades sobre drogas dos jovens. É errado dizer que sob efeito da droga você se sente mal e fica caindo pelas ruas. Se fosse assim ninguém usava. Temos que mostrar as verdades. Temos que dizer que sob efeito da droga as pessoas se sentem bem, se sentem poderosas e por isso querem usar novamente. O mal vem após o efeito, na crise de abstinência, nos efeitos orgânicos na pessoa, nas relações sociais, etc. Uma criança não consegue entender por que o pai fuma sabendo que faz mal. A única explicação é porque fumar é bom, a sensação é gostosa, mas faz mal. A opção por não usar droga deve ser feita pelo mal que ela faz e não pela sensação que ela causa.

Imagine um adolescente desinformado que assiste essa novela. Ele olha o estado deplorável que o ator fica após usar a droga e, claro, fica horrorizado. Aqui vem o problema, se um dia o adolescente experimentar ecstasy e perceber que não ficará caindo pelos cantos como o tal Danilo da Passione, poderá achar que essa droga não é tão ruim assim, daí pode acontecer o efeito inverso do esperado. É uma pena a Rede Globo tão interessada no seu “serviço social” perder oportunidade tão grande abordando o tema de forma errada.

Enviei um e-mail a Silvio de Abreu com os questionamentos do leitor. Ele não me respondeu. Nesse meio tempo, soube que, de fato, a construção do personagem Danilo apresenta um problema grave para a equipe que faz “Passione”. A lei brasileira proíbe apologia a drogas – e mostrar Danilo sentindo prazer poderia ser entendido como uma forma de fazer “propaganda”.

Em breve, porém, Silvio de Abreu vai mostrar que Danilo está viciado em crack. Li isso numa destas revistas populares que antecipam informações sobre as novelas. O personagem, então, terá breves momentos de prazer antes de mergulhar no processo destrutivo que o crack provoca.

Segundo a “SuperNovelas”, depois de uma briga com o pai, que o expulsará de casa, Danilo vai a uma “boca”, compra uma pedra de crack e consome a droga. Diz a revista que “a primeira reação é de felicidade”. A conferir.

Por Mauricio Stycer às 11h30
09/09/2010

Documentário revela a essência do “corintianismo”

Apoiado por um competente projeto de marketing, o centenário do Corinthians gerou uma série de produtos, entre filmes, livros, homenagens e suvenires variados. À margem da programação “oficial”, o documentário “Só Quem É Sabe o que É” se sobressai nesta paisagem alvinegra.

O filme registra a saga dos torcedores durante a campanha da equipe na Série B, em 2008. Dirigido pelo designer Artur Voltolini e os jornalistas Ronaldo Bressane e Phydia de Athayde, não exibe uma única imagem de jogadores em campo. São cerca de 50 depoimentos, entre corintianos famosos e anônimos, sobre o sentido de torcer pelo time.

“Eu só converso com corintiano. Se não for, não é meu amigo”, conta um jovem. “Sofredor é aquele que ama”, explica um PM. “É bem gratificante sofrer pelo Corinthians”, comenta um torcedor grisalho. “Em defesa do Corinthians vou até à morte”, diz um integrante de torcida organizada. “Nós voltemo”, comemora uma senhora, na arquibancada do Pacaembu.

O ex-jogador Neto dá um depoimento forte: “Nem o Bill Gates tem o que eu tenho da torcida do Corinthians. O cara fica de joelhos, beijando o seu pé. O cara te abraça e começa a chorar”. O palmeirense Ugo Giorgetti tem o privilégio de ser ouvido num filme em que 99% dos personagens são alvinegros e diz, sobre a temporada da equipe na Série B: “O Corinthians está fazendo falta para mim”.

Na definição dos realizadores, “Só Quem É Sabe o que É” não passa de “um filme sujo, sem roteiro pré-definido nem marketing, editado à base de nervos, risos, histórias, hip hop e muito grito”. Mais que isso, é um filme que, nos seus 45 minutos, expressa com rara felicidade a essência do corintianismo.

Por ora, o filme está disponível na internet, em quatro partes: 1. aqui; 2. aqui; 3. aqui; 4. e aqui

Por Mauricio Stycer às 12h37
08/09/2010

Chamar o blogueiro de “embecil” pode; ofender o outro, não

Pela segunda vez em oito meses, fechei a área de comentários do blog. Isso significa que, em vez de entrarem automaticamente, os comentários são antes avaliados por mim. A primeira vez que fiz isso foi em abril, depois que um texto sobre o filme “Chico Xavier” provocou uma verdadeira guerra religiosa entre espíritas e protestantes na área de comentários do blog, Desta vez, a causa foi um comentário sobre o filme “Nosso Lar”, baseado numa obra de Chico Xavier.

Mais uma vez, muitos leitores tomaram o que escrevi sobre o filme como uma crítica ao espiritismo. Creio que leram o texto com muita pressa, de má vontade ou sequer o leram. Depois de ver nos comentários muitas ofensas a mim, além de pedidos ao UOL para que eu fosse demitido, desafiei os leitores a apontarem uma única crítica ao espiritismo no texto. Alguns replicaram apontando uma observação que fiz sobre a cenografia do filme (“uma cidade que parece construída por Oscar Niemeyer em uma viagem de LSD”) como prova do meu preconceito.

Como já escrevi em outras oportunidades, aprecio as críticas dos leitores e não me incomodo com as reclamações, nem mesmo com as ofensas. Pode me chamar de “embecil”, como fez um leitor esta semana, que você verá seu comentário publicado. Excluo apenas palavrões muito pesados – não porque me afetem, mas para não incomodar outros leitores. E, sobretudo, não autorizo comentários que possam ofender, caluniar, difamar ou injuriar outras pessoas.

O texto sobre “Nosso Lar” teve, até o momento em que escrevo este post, 1.097 comentários aprovados e 210 reprovados. Além das repetições e dos que não diziam respeito ao assunto em pauta, vetei especialmente os comentários que expressavam ofensas religiosas. Se deixei passar algum peço desculpas.

Por Mauricio Stycer às 15h35
07/09/2010

Pílula de sabedoria adolescente


“Não se preocupem, mamãe e papai. Prometo só cometer erros que vocês nunca cometeram”

Cartoon de Carolita Johnson, publicado na edição de 6 de setembro da “New Yorker”

Por Mauricio Stycer às 14h04
06/09/2010

Onde foram gastos os R$ 20 milhões de “Nosso Lar”?

Anunciada como uma das produções mais caras da história do cinema brasileiro, talvez a mais cara, “Nosso Lar” transpõe para as telas o maior best-seller do médium Chico Xavier, no qual ele relata uma história que lhe teria sido ditada pelo espírito de André Luiz, um médico que viveu no Rio de Janeiro de Janeiro no início do século 20.

É uma obra de iniciação ao espiritismo. Descreve alguns episódios da vida de André Luiz – sua morte, a sofrida temporada no umbral, “uma espécie de purgatório”, onde é acusado de ter cometido suicídio, e a chegada do socorro espiritual, que o transporta, numa maca, para uma dimensão superior, a colônia Nosso Lar.

O câncer no intestino que causou a morte do médico, na verdade, foi a forma visível do suicídio que ele cometeu, explica o ministro da Regeneração. Todos os sentimentos negativos que ele alimentou em vida o mataram – eis a primeira lição.

Há outros 71 ministros no Nosso Lar, uma cidade que parece construída por Oscar Niemeyer em uma viagem de LSD. Vamos conhecer alguns, cada um com lições a ensinar a André Luiz sobre vida, morte e reencarnação. Por exemplo: “O bem que fazemos é nosso advogado na eternidade”. Ou então: “A vida na Terra é que é cópia daqui”. Ou ainda: “A reencarnação é a melhor escola”.

“Nosso Lar” também se esforça em ensinar como o espiritismo é acolhedor e sem preconceitos religiosos – numa longa cena, mortos com uma estrela de Davi bordada na roupa, possivelmente vítimas de campos de concentração nazistas, são recebidos à entrada da colônia por ministros e devotos.

Diferentemente de “Chico Xavier”, de Daniel Filho, destinado basicamente a agradar os fiéis, “Nosso Lar” tem, claramente, uma preocupação de formação. É cinema falado. Ou um livro ilustrado com imagens e sons (com direito a trilha sonora de Philip Glass). Didático, o filme apresenta o espiritismo e o explica em detalhes, além de se permitir poucos momentos de emoção ou pieguice.

O mais curioso é justamente a informação de que o filme custou R$ 20 milhões, um valor obtido quase integralmente sem recorrer a renúncia fiscal. Passei boa parte da sessão tentando entender onde “Nosso Lar” gastou os seus recursos. Na cenografia de mau gosto? No roteiro verborrágico? Nos figurinos simplórios? No enorme elenco de poucas estrelas? Na trilha sonora (nada) original de Glass? Nos magros efeitos especiais?

No conjunto de seus esforços, “Nosso Lar” não vai desapontar os espíritas e é capaz, no mínimo, de arregimentar simpatia para a causa. É provável, ainda, diante da corrida do público aos cinemas, que não desaponte os seus investidores. Mas não poderá nunca dizer que é cinema de qualidade.

Atualizado às 13h30: Desafio os leitores que entraram no blog para pedir a minha demissão que apontem uma única crítica ao espiritismo no meu texto. Todas as minhas opiniões se referem ao filme.

Em tempo: Ficha técnica, fotos e trailer do filme podem ser vistos aqui, no UOL Cinema. E no blog de Inácio Araujo há uma outra crítica sobre o "Nosso Lar".

Por Mauricio Stycer às 09h16
03/09/2010

Glenda Kozlowski deixa o jornalismo para explicar que candidato pode vomitar

Diante da tarefa que coube ao candidato Marcão, de beber uma mistura de vermes, fígado e óleo, tudo batido no liquidificador, Glenda Kozlowski fez cara de nojo, mas avisou: "Se tiver ânsia de vômito, pode vomitar dentro do copo e continuar bebendo. Se vomitar fora, está eliminado". Rigorosa, ainda advertiu o candidato: "Tem que beber até o fim. Não. Ainda tem um pouquinho".
 
Eis o que foi feito de mais um jornalista de talento e sucesso na Globo: apresentar reality show sob o comando do mago Boninho. Isso implica explicar regras, zelar pelo cumprimento delas, fazer caras e bocas diante das situações, incentivar os candidatos, e anunciar resultados de provas e eliminações.
 
Alguém dirá: triste destino. Talvez não. Nesta caminhada, aparentemente sem volta, do jornalismo televisivo na direção do entretenimento, não surpreende mais ver profissionais respeitáveis de uma área abraçarem a outra com entusiasmo. Parece ser um caminho natural - da mesma forma que teremos que nos acostumar com atores atuando como jornalistas.
 
O perfil de Glenda na Wikipedia informa que ela sonhava ser atriz. Não realizou este sonho. Acabou indo para o jornalismo, onde se deu muito bem na área esportiva. Agora à frente do "Hipertensão" dá este salto importante em sua carreira - explicar a Marcão, com um jeito severo, mas cara de nojo, que ele pode vomitar dentro do copo. Perfeito.
Em tempo: mais informações sobre os candidatos de "Hipertensão" podem ser lidas aqui, no UOL Televisão
Foto: divulgação
Por Mauricio Stycer às 11h35
02/09/2010

"Programa Casé" reverencia pioneiro do rádio de forma acrítica

Bastam poucos minutos de "Programa Casé" para o espectador se dar conta que Adhemar Casé é um personagem fascinante. Empresário e radialista, inventou e desenvolveu um modelo de negócios que ajudou a impulsionar a era de ouro do rádio brasileiro. Para além desta mídia, seu trabalho teve repercussão na indústria fonográfica e na publicidade.

Produto de uma década de pesquisas de Estevão Ciavatta, o documentário foi exibido no primeiro semestre no Festival É Tudo Verdade, sem maior repercussão. Chega agora aos cinemas, em São Paulo e no Rio. Dificilmente fará uma longa carreira - e não por falta de apelo do assunto, mas sobretudo por conta de sua abordagem convencional e "oficial".

Ciavatta é casado com Regina Casé, neta de Adhemar Casé. Talvez por estar muito próximo do seu objeto, o cineasta trata-o de forma reverencial. O documentário descreve o radialista como um homem de poucas contradições, que quase não enfrenta percalços em sua trajetória. O mundo do rádio, igualmente, é descrito de forma superficial, de uma maneira que não permite ao espectador compreender a sua complexidade e suas contradições.

A mídia ainda é um assunto tabu no cinema brasileiro. Não há filmes memoráveis sobre nenhum grande personagem da comunicação do país, nem sobre o papel da mídia em inúmeros episódios importantes da história. "Programa Casé", ao menos, aventura-se pelo terreno, mas fica longe de provocar a reflexão que o assunto merece. Descontando-se todos os exageros de seu cinema, Michael Moore é um nome que poderia inspirar cineastas brasileiros a se aventurarem por este terreno.

Em tempo: Mais informações sobre o filme, incluindo ficha técnica e sinopse, podem ser encontradas aqui, no UOL Cinema.

Por Mauricio Stycer às 16h16
01/09/2010

Lula abraça o marketing corintiano, mas não tem nada de "louco"

Nunca na história deste país, pode-se dizer sem medo de errar, um presidente vestiu a faixa de "presidente da República Popular do Corinthians". Lula não apenas encheu o peito de orgulho ao aceitar a homenagem, como "tomou posse" com um discurso em que reiterou o seu "corintianismo" - está fé multipartidária, agora transformada, pelo marketing, numa espécie de "encrave" do país, com seus "30 milhões de loucos".

Na sua paixão pelo futebol, nas suas lembranças das glórias e tragédias do Corinthians, na fé e na superstição, Lula é genuinamente um destes "loucos". Mas é também um político que não tem nada de louco.

Habilidoso, teve papel decisivo no acordo que levou ao anúnico da construção de um estádio para o Corinthians, um antigo sonho da "república". Mas evitou falar do assunto diante do presidente do São Paulo, presente na cerimônia que o homenageou. Afinal, até pouco tempo Lula defendia o Morumbi como estádio para abrir a Copa de 2014, uma opção definitivamente enterrada pelo anúncio da "Arena Odebrecht" em Itaquera.

Diante dos principais cartolas nacionais, que o nomearam "chanceler honorário do futebol brasileiro", Lula preferiu falar de temas mais amenos. Arrancou risos ao contar que sua mulher, Marisa, também corintiana roxa, o considera pé-frio.

E não causou nenhum constrangimento ao dizer que os cartolas brasileiros tinham fama de bandidos quando assumiu a presidência. Nenhum deles, igualmente, moveu um músculo da face quando Lula disse que, se quisessem, poderia acabar com a chaga dos cambistas no futebol brasileiro.

Lula, enfim, abraçou o marketing corintiano, mas de "louco" não tem nada.

Foto: Paulo Whitaker/Reuters

Por Mauricio Stycer às 11h22
31/08/2010

Uma lição do poeta Chacal: não dê entrevistas de ressaca

O poeta Chacal está lançando “Uma História à Margem”, no qual relata em primeira pessoa quatro décadas de criação e militância cultural. Na entrevista que fiz para o UOL, intitulada Chacal publica suas memórias e defende a utopia de viver de poesia, o poeta fala da tensão permanente entre a sua necessidade de criar e as exigências do mercado. “Dane-se o mundo. Só crio com o que eu creio”, diz.

Comecei a ler a obra de Chacal no início da década de 80, quando também me aventurei, sem muito sucesso, pela poesia. Como jornalista da área cultural, entrevistei o poeta diversas vezes, em função do seu envolvimento com os mais variados projetos nas mais diversas áreas.

Uma das entrevistas é mencionada em “Uma História à Margem”. Deu-se em 1986. Eu trabalhava, então, no Caderno B do “Jornal do Brasil”. Dez anos antes, havia sido publicado "26 Poetas Hoje", um livro que acabou se tornando uma referência a respeito da chamada “poesia marginal”, movimento que Chacal liderou.

Até então, Chacal havia publicado seus poemas apenas em livrinhos artesanais, que vendia em eventos ou deixava em livrarias amigas. Organizado por Heloisa Buarque de Hollanda e com a chancela de uma editora do mercado, “26 Poetas Hoje” deu outro status aos poemas de Chacal e de seus parceiros, Charles e Bernardo Vilhena. O livro também trazia poetas de outros grupos e tendências, como Ana Cristina Cesar, Cacaso, Francisco Alvim, Roberto Piva e Waly Salomão. 

Sugeri ao editor do Caderno B, o jornalista Zuenir Ventura, fazer uma reportagem especial sobre os dez anos da publicação de “26 Poetas Hoje”. Ouvi alguns poetas que participaram da antologia e a sua organizadora. Chacal, na ocasião, criticou duramente Heloisa pela escolha dos poetas e pela definição do que seria a chamada poesia marginal.

Lendo “Uma História à Margem” descobri que aquela entrevista de Chacal, em 1986, provocou o rompimento de sua amizade com a organizadora de “26 Poetas Hoje”. Nas suas memórias, ele conta: “A entrevista foi feita por telefone, e eu estava numa ressaca brutal. Contestei a escolha dos poetas da antologia e, mais que isso, os fundamentos da poesia marginal. A crítica, mantenho. A forma como a fiz, lamento”. Na década de 90, felizmente, Chacal fez as pazes com Heloisa.

Em tempo: Curiosamente, lembro deste episódio justamente nesta terça-feira, 31 de agosto, dia em que o “Jornal do Brasil” circula pela última vez. Foi onde comecei a trabalhar como jornalista, conheci grandes profissionais, aprendi muita coisa e fui muito feliz. Como tantos que passaram por lá, só posso lamentar este desfecho.

Foto: Folhapress/1983

Por Mauricio Stycer às 13h11
29/08/2010

Para a torcida do Corinthians, Ronaldo interessa mais que um clássico

Eis um Fenômeno que merece estudo. A volta de Ronaldo ao Corinthians, depois de 112 dias afastado, levou 36.142 pessoas ao Pacaembu. O adversário era o Vitória. Uma semana antes, no mesmo estádio, contra o São Paulo, o público total presente alcançou 30.632 pessoas.

Ambos os domingos foram de sol forte, com a diferença que a partida da semana passada começou às 18h30 e esta, às 16h. O Corinthians ocupava a vice-liderança do campeonato, posição em que permanece.

Alguém poderá argumentar que parte do público teme ir ao estádio em dia clássico – as chances de ocorrerem cenas de violência são, de fato, maiores. Mas na condição de visitante, o São Paulo só teve direito a um diminuto naco do Pacaembu, com capacidade para 2 mil pessoas – espaço idêntico ao dedicado à torcida do Vitória.

Como nos melhores momentos de Ronaldo pelo Corinthians, em 2009, o anúncio de seu nome pelo alto-falante do estádio foi comemorado como um gol. O atacante foi o último jogador da equipe a entrar em campo. Segurava um bebê no colo e era cercado por três dezenas de crianças.

Ainda fora de forma, deveria ter jogado apenas os primeiros 45 minutos, mas ficou até os 16 do segundo tempo. Apesar da atuação pífia, foi aplaudido e festejado em todos os momentos. No primeiro tempo, acertou nove passes, para o lado ou para trás, e errou quatro. Não conseguiu um drible, atuou como “barreira” num chute do ataque corintiano e o único chute que deu foi barrado por um zagueiro.

Não sofreu nenhuma falta nos 60 minutos que atuou. No segundo tempo, cometeu uma falta e recebeu uma bola em posição de impedimento. Na sua melhor participação, deixou Bruno Cesar e, em seguida, Paulinho em condições de marcar. Saiu de campo ovacionado e, ao final da partida, foi cercado pelos repórteres, que não pareciam preocupados com o resultado da partida nem com a classificação do Corinthians.

Ver Ronaldo jogar, nesta fase final de sua carreira, parece ser a chance de testemunhar um evento histórico. Talvez seja mesmo, ainda que ele não esteja jogando nada.

Em tempo: O relato da partida, vencida pelo Corinthians por 2 a 1, pode ser lido aqui.

Foto: Mastrangelo Reino/Folhapress

Por Mauricio Stycer às 19h15
28/08/2010

Título deixa “5x Favela, Agora por Nós Mesmos” com peso que ele não tem

Produzido por Cacá Diegues, co-produzido pela Globo Filmes e distribuído pela Sony Pictures, “5x Favela, Agora por Nós Mesmos” chama a atenção já por seu título, com cara de manifesto. Propõe-se a dialogar com “Cinco Vezes Favela”, realizado em 1962, por jovens cineastas de esquerda, incluindo o próprio Diegues, então com o apoio do CPC da UNE.

Foram necessários quase 50 anos, sugere o título, para que os próprios moradores das favelas conseguissem expor visões “de dentro” do seu cotidiano. “Agora por Nós Mesmos” se torna, assim, um aviso ao espectador: depois de cinco décadas, finalmente, chegou “a nossa” vez de mostrar como é “a nossa” realidade.

Do ponto de vista da geografia social carioca, o filme apresenta-se desde o início, portanto, como um convite ao espectador que vive “embaixo” conhecer a vida de quem mora “no alto” da cidade. Trata-se, enfim, de um título que não apenas ambiciona demais como cria um excesso de expectativas.

Em sua defesa, é preciso dizer que “5x Favela, Agora por Nós Mesmos”, cujos cinco roteiros nasceram em oficinas em diferentes comunidades cariocas, não se perde na imposição de “teses” nem, por outro lado, se limita a um passeio turístico ou panorâmico pelos morros da cidade. É um filme bem cuidado, bem realizado, apresenta muitos novos atores, roteiristas e cineastas.

Resumidamente, os cinco curtas contam as seguintes histórias: 1. um brilhante aluno financia a faculdade de Direito vendendo drogas para os colegas de turma; 2. um menino ingênuo rouba um frango para presentear o pai trabalhador; 3. um PM corrupto se vê obrigado a enfrentar o amigo de infância traficante; 4. um jovem de uma favela quase é morto ao ir na comunidade vizinha recuperar uma pipa; 5. um funcionário da companhia elétrica é coagido a reparar a luz na véspera do Natal. 

Uma mesma ideia é reiterada em todas as histórias: a dura realidade da vida na favela obscurece a fronteira entre o que é certo e o que é errado. Parece um apelo, um pedido de compreensão, feito por “nós mesmos” para “vocês”. Ou uma sugestão de que os dilemas éticos e os problemas reais enfrentados no alto do morro não são, em essência, muito diferentes dos vividos “aqui embaixo”.

Com seu título, “5x Favela, Agora por Nós Mesmos” levanta outra questão: do ponto de vista da arte, uma obra é melhor ou pior em função da vivência do seu criador? A ênfase do título sugere uma crença especial no valor da experiência para a realização artística, um tema polêmico e espinhoso.

Diante dos enormes obstáculos que os jovens envolvidos na produção deste filme enfrentaram em suas vidas, compreende-se o orgulho de apresentá-lo com a etiqueta “Agora por Nós Mesmos”. Mas é algo que acaba deixando o projeto pesado demais. Na ingenuidade com que aborda alguns temas e na leveza com que sugere outros, ele não tem estofo para discutir o que seu título propõe.


Em tempo: Ficha técnica, fotos, trailer e uma outra crítica do filme podem ser vistos aqui, no UOL Cinema. E uma galeria com fotos e informações sobre outros filmes brasileiros que retratam favelas está aqui.  

Por Mauricio Stycer às 12h50
27/08/2010

“A Vida Alheia” foi a única ousadia da Globo em 2010

Ainda faltam quatro meses para o fim do ano, mas arrisco dizer que o seriado “A Vida Alheia” marcará 2010 como a principal – talvez única – ousadia da programação global nesta temporada. Exibido na noite de quinta-feira, o último episódio da primeira temporada mostrou mais uma vez, sem muito disfarce, os rudes bastidores de uma revista semanal de celebridades.

O texto de Miguel Falabella, Flavio Marinho e Antonia Pellegrino teve a coragem de mostrar situações que os jornalistas conhecem bem, mas o público, de uma maneira geral, não faz ideia que ocorrem em publicações do tipo. Longe de ser um programa de humor, “A Vida Alheia” revelou-se, com freqüência, uma denúncia das artes e manhas  praticadas neste mundo apenas aparentemente festivo.

Catarina (Marília Pêra), a rica proprietária da revista, Alberta (Claudia Jimenez), a editora-chefe, Manuela (Danielle Winits), a melhor repórter, e Lírio (Paulo Vilhena), o paparazzo, deram aulas e aulas, ao longo da temporada, sobre como se faz este tipo de revista.

Numa cena cômica, mas realista, por exemplo, Catarina foi obrigada a publicar uma foto do ex-marido ao lado da nova namorada por causa de um contrato que mantinha com uma joalheria. A revista tinha a obrigação de publicar, uma vez por mês, uma foto indicada pelo cliente de alguma celebridade usando as suas jóias. 

Alberta, em diferentes episódios, demonstrou que, entre os talentos de uma editora consagrada, é necessário incluir cara de pau (para mentir), frieza (para chantagear) e arrogância (para promover vinganças pessoais), sempre sob o pretexto de fazer bom jornalismo para o seu público.

No último episódio da primeira temporada, uma ideia de Alberta, realizada por Manuela, acabou resultando num crime. Pressionada, Catarina não hesitou em demitir a repórter para dar uma satisfação à sociedade.

Quando escrevi sobre o primeiro episódio (“A Vida Alheia” faz retrato arrasador do jornalismo de celebridades), leitores lamentaram que não observei as semelhanças do programa com a série americana “Dirt”, sobre os bastidores do jornalismo de celebridades nos EUA. Criada em 2007, com Courtney Cox (ex-“Friends”) no papel principal da inescrupulosa editora de fofocas, a série teve apenas duas temporadas.

Não tenho informações se “Dirt” inspirou “A Vida Alheia”. É possível. Mas está longe de ter “copiado” a série americana. O programa da Globo tratou da realidade brasileira e fez isso com bastante propriedade.

Por Mauricio Stycer às 11h04

Sobre o autor

Jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 23 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Começou a carreira no "Jornal do Brasil", em 1986, passou pelo "Estadão", ficou dez anos na "Folha de S. Paulo" (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o "Lance!" e a "Época", foi redator-chefe da "CartaCapital", diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor de “História do Lance! – Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo”

Contato: mauriciostycer@uol.com.br

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Um espaço para reflexões e troca de informações sobre os assuntos que interessam a este blogueiro, da alta à baixa cultura, do esporte à vida nas grandes cidades, sempre que possível com humor.

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